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A arte de desfrutar: Flamengo, sublime, engole Palmeiras em saboroso baile

Flamengo comemoração Palmeiras

(Flamengo / Divulgação)

Flamengo comemorando Palmeiras

(Flamengo / Divulgação)

Desfrutar. Você certamente já acompanhou a entrevista de algum jogador espanhol com farta utilização da palavra. Iniesta, por exemplo, não se cansa de abraçá-la ao falar sobre sua experiência ao longo dos anos no futebol. Está lá no dicionário: é gozar, lograr, usufruir. Aproveite o momento. Curta. É, sobretudo, uma arte. A arte de desfrutar. Necessária no momento para traçar linhas sobre a apresentação do Flamengo diante do Palmeiras no Maracanã, neste domingo. 3 a 0 tão irreparáveis, tão superiores que, subitamente, magnetizaram a arquibancada em um estado de transe. O jogo corria, os passes eram trocados por aqueles de camisa rubro-negra. Lá e cá. Cá e lá. E os olhos, seduzidos, vivenciavam uma arte. Desfrutavam.

A depender dos olhos que percorrem essas linhas já faz pular a pensata na mente: mas há aí um exagero. Pode até vir a ter dali a uma semana. Vinte dias. Mas falamos sobre este domingo. É nele que repousa o holofote. Houve a necessidade de desfrutar da partida. Pois este Flamengo de Jorge Jesus – agora já justamente batizado assim, com nome e sobrenome – entrou em uma fase plena. Busca, aos poucos, o equilíbrio. Vai falhar, claro. Mas quando acerta…foram três gols bem construídos e nenhum sofrido. Uma imposição a um rival que conta forças iguais para duelar. Não conseguiu. Foi engolido por uma avalanche rubro-negra como há muito não se via em terras brasileiras entre elencos do mesmo porte. O Flamengo apresentou suas ideias. O Palmeiras indicou ser incapaz de combatê-las.

Fla no início: ataque em bloco, Gerson e Arão alternando, meias ao lado

Jorge Jesus mandou a campo um Flamengo num 4-4-2. Só aí há a diferença para o rival. O pensar no duelo iminente, a incessante criação de estratégias para superá-los. A adaptação ao oponente. Inúmeras variações. Sem Cuéllar, agora definitivamente, pôs Willian Arão e Gerson por dentro, Arrascaeta à esquerda, Everton Ribeiro à direita. À frente, Bruno Henrique e Gabigol. A rigor, sim, um 4-4-2. A observar a movimentação no gramado, os números de telefone – como diria Guardiola – se espalham. É infernal marcar este Flamengo empolgado, ofensivo, em um Maracanã pulsante. Um time consciente do que deve fazer para empurrar o adversário à defesa. Inicia a marcação no campo rival, pressiona se não tem a bola, tem desejo por ela. E sem um volante com características defensivas.

Palmeiras no início: três volantes, sem criação e perdido na defesa

A solução de Jorge Jesus para a ausência de Cuéllar foi alternar Willian Arão e Gerson. Não houve um jogador designado a permanecer à frente da defesa, fixo, insaciável por botes. Arão manteve o posicionamento defensivo com inteligência, fechando espaços. Ao retomar a bola, Gerson, o novo camisa 8, se colocava em meio aos zagueiros para iniciar o jogo com maior qualidade, enquanto Arão avançava para aumentar o bloco que sufocava o Palmeiras. Um time recheado de bons valores e sem ideias. Felipão ensaiou um 4-3-3, com três volantes no meio: Felipe Melo centralizado e mais recuado, Bruno Henrique, à direita, e Matheus Fernandes, à esquerda, alinhados. Ou tentando alinhar. No ataque, Willian à direita, Dudu à esquerda, com alternância constante, e Luiz Adriano, bem solitário, à frente. Mas facilmente a equipe se quebrava, totalmente desorganizada. Sem criação. Sem inspiração.

Havia uma maneira de moldar o jogo ao seu gosto: sair na frente e, então, se resguardar para chamar o Flamengo e buscar os contra-ataques. Quase conseguiu, com passe de Matheus Fernandes entre Filipe Luís e Pablo Marí para Willian à direita, com rápido cruzamento para o próprio Matheus, que completou ao gol. O Maracanã, por minutos, silenciou aguardando o VAR. E explodiu com a confirmação do impedimento. Então, o Flamengo assumiu as rédeas do jogo. Avanço em bloco, pressão na saída dos paulistas, intensa movimentação para confundir um Palmeiras que buscava marcações individuais. O que se viu, portanto, foi a abertura de vários clarões principalmente entre defesa e o meio do time paulista. Os volantes, perdidos, corriam quase a bater cabeça. Havia espaço. Muito espaço.

O Flamengo não diminuiu o ritmo. Manteve a pressão na saída de bola palmeirense. No chutão de Gómez abafado por Bruno Henrique, Arão avançou e desarmou de cabeça já tocando para o atacante, aberto na esquerda. Arrascaeta, imediatamente, assumiu a função de parceiro de Gabigol e foi ao ataque. Recebeu de primeira e, em dois toques, deixou o atacante sozinho à frente de Weverton. Em outro toque, este sublime, 1 a 0. O Maracanã explodiu com a superioridade tão clara transformada em gol com poucos minutos. Um time leve, que aproveitava o campo que tinha para jogar diante de um Palmeiras retraído. Dudu e Willian trocavam de lado. Willian avançava para encostar em Luiz Adriano, Dudu procurava o meio, incomodado com a vigília de Rafinha e o auxílio constante de Everton Ribeiro. Mesmo avançado, o Flamengo não cedia espaços. Rodrigo Caio e Pablo Marí subiam cada vez mais, em alguns momentos além da linha do meio. Ao enxergar o espaço por dentro, com Felipe Melo enterrado na defesa, buscavam o passe vertical a Bruno Henrique.

Ao fim, um Flamengo ainda ofensivo, com sete jogadores no campo rival

A movimentação rubro-negra é interessante. No descolar de defesa e meio de campo do adversário, Arrascaeta ataca a área e Bruno, passos atrás, flutua pelo meio. Dali, por exemplo, marcou belo gol contra o Vasco em Brasília. Arriscou contra o gol de Weverton e assustou. Se há mais campo, o atacante avança com passadas largas ao lado oposto e cruza na segunda trave, onde Arrascaeta, atento, já está a postos. Na primeira tentativa, Marcos Rocha afastou com a cabeça. Na segunda, Bruno passou como quis por Matheus Fernandes por dentro, ultrapassou pela lateral e cruzou com categoria para a cabeça de Arrascaeta, fatal na segunda trave. Depois do ensaio, a apresentação completa. 2 a 0.

Completamente abatido, o Palmeiras instintivamente seguiu as convicções do banco de reservas à risca. Entrincheirou-se na defesa enquanto via o Flamengo atingir até 70% de posse de bola, mantendo a movimentação. O atual campeão brasileiro, atônito, sentia que era engolido no Maracanã. Tinha reações intempestivas. Ainda fora da área, Arrascaeta foi atacado por um desesperado Gómez. Passou com facilidade e cruzou rasteiro. Victor Hugo tirou a chance de finalização de Gabigol e fez o intervalo chegar com apenas 2 a 0 para o Flamengo no placar.

Palmeiras ao fim: com menos um, totalmente inofensivo

Felipão voltou ao segundo tempo com Raphael Veiga na vaga de Matheus Fernandes. Indicou um 4-2-3-1 com o meia centralizado. Na prática, mudou pouco. O Palmeiras continuava quebrado, cedendo espaços, correndo atrás de um Flamengo avançado que ocupava o campo ofensivo com quase todos os jogadores. Era fácil observar Pablo Marí e Rodrigo Caio na linha do meio, vigiando apenas Luiz Adriano. O lance do terceiro gol indicou a superioridade. Everton Ribeiro carrega a bola pela direita e há quatro opções de passe. Rafinha mais à direita, Arrascaeta, Gabigol e Bruno Henrique dentro da área. A opção foi pelo lateral-direito, atropelado por Diogo Barbosa na grande área. Gabigol, com extrema categoria, pôs o 3 a 0 no placar e abriu a arte de desfrutar.

O Maracanã pulsava em transe. A prometida superioridade sobre rivais se materializava ali no campo. Há até isso uma valorização ao rival. O Palmeiras, campeão brasileiro, é um oponente capaz de duelar com o Flamengo tecnicamente. Taticamente, no campo de ideias, foi completamente superado. O girar da bola rubro-negro encantava. A construção do jogo com os laterais chama a atenção. O Flamengo atingiu outro patamar muito graças às presenças de Rafinha e Filipe Luís. Por dentro, fazem o jogo fluir naturalmente ao lado de Gerson, também outra ótima aquisição. O garoto de 22 anos voltou outro do futebol europeu, com imposição física e utlizando a técnica para ser o dono do meio. Ali, onde o Palmeiras carecia de combate e criação, o novo camisa 8 ocupava com maestria. Iniciava o jogo entre os zagueiros, acompanhava pontas para dar o bote, arriscava chutes da entrada da área. É, remodelado, um meio de campo completo.

O jogo e si se transformou num baile com cantorias de uma torcida que levitava na arquibancada. O desejo rubro-negro sempre foi esse. Vencer, mas além disso: convencer. E convenceu de maneira tão eficaz que houve de tudo um pouco no anel do Maracanã. A tradicional ola, aplausos, ode a Jorge Jesus. O Palmeiras, resignado, ainda pôs Scarpa e Jean em campo, mas ficou ainda mais sem forças quando Gómez, vencido pela temperatura do jogo, exagerou na dose ao tentar combater a velocidade de Bruno Henrique. Fechou-se no 4-4-1 de praxe e torceu para o tempo acabar. Por sorte, o Flamengo dosou forças. Tamanha era a superioridade que com maior esforço poderia ter aplicado goleada a ser marcada por anos. Jorge Jesus pôs Piris e Berrío nas vagas de Arrascaeta e Bruno Henrique. Continuou a ter sete jogadores no campo ofensivo, trocando passes, tramando jogadas por dentro, acelerando por fora diante do rival que só corria atrás da bola, abobalhado.

Uma vitória com 60% de posse de bola, 11 finalizações, 586 passes trocados – contra 272 – e dez desarmes*. Um Flamengo que gira a bola, se impõe em seus domínios contra elencos do mesmo porte, joga bem e faz o Maracanã abarrotado para os padrões atuais levitar. Se vai continuar assim, só mesmo a sequência da temporada irá dizer. Mas, sim, há algo diferente acontecendo quando o Flamengo de Jorge Jesus entra em campo. Intenso, ofensivo. Avassalador. Útil ao agradável. Deve-se desfrutar. É uma arte.

*Números App Footstats Premium

FICHA TÉCNICA
FLAMENGO 3X0 PALMEIRAS
Local: Maracanã
Data: 1 de setembro de 2019
Árbitro: Rafael Traci (SC)
VAR: Braulio da Silva Machado (SC – Fifa)
Público e renda: 61.390 pagantes / 65.969 presentes / R$ 3.368.134,00
Cartões amarelos: Rodrigo Caio, Bruno Henrique (FLA) e Willian, Bruno Henrique (PAL)
Cartão vermelho: Gomez (PAL), aos 37 minutos do segundo tempo
Gols: Gabigol (FLA), aos dez minutos e Arrascaeta (FLA), aos 37 minutos do primeiro tempo; Gabigol (FLA), aos 15 minutos do segundo tempo

FLAMENGO: Diego Alves, Rafinha, Rodrigo Caio (Thuler, 14’/2T), Pablo Marí e Filipe Luís; Everton Ribeiro, Gerson, Willian Arão e Arrascaeta (Piris da Motta, 25’/2T); Bruno Henrique (Berrío, 40’/2T) e Gabigol
Técnico: Jorge Jesus

PALMEIRAS: Weverton, Marcos Rocha, Gómez, Victor Hugo e Diogo Barbosa; Felipe Melo, Matheus Fernandes (Raphael Veiga / Intervalo) e Bruno Henrique (Jean, 35’/2T); Dudu, Willian (Gustavo Scarpa, 17’/2T) e Luiz Adriano
Técnico: Luiz Felipe Scolari