Tite Brasil Seleção Brasileira eliminação Copa 2018
A fatal sedução do Titismo
07 julho 21:02

A encruzilhada de Neymar

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Neymar Brasil queda caiu Copa 2018

André Mourão / MoWA Press

Você já deve ter recebido em WhatsApp, Twitter ou Facebook. A imagem de uma capa de jornal ironizando as quedas de Neymar, um vídeo de torcedores ou crianças em algum lugar do mundo desabando assim que o nome do craque brasileiro é mencionado. “Neymar!”, solta o inglês com aquele sotaque carregadíssimo. E ploft. Inúmeras crianças ao chão. Mais do que uma simples galhofa que pode divertir ou irritar de acordo com o gosto do freguês, um dilema. Neymar, aos 26 anos, logo após a segunda Copa do Mundo, está em uma encruzilhada na sua carreira.

Muito devido a um desafio ao qual ele mesmo se propôs. Conquistar o mundo, marcar uma era. Em palavras, talvez ele nunca tenha traduzido esse desejo. Mas seu estafe, palavra tão em voga que indica os que circundam a empresa Neymar Jr, sempre deixou escapar sem grandes receios a ambição. Potencial para isso, ele tem. É craque raro. Do drible fácil, da jogada genial, da boa finalização. Menino carregou o Santos rumo ao tricampeonato da Libertadores. Só foi parado com a joelhada de Zuñiga em sua primeira Copa, em casa. Voou baixo na conquista da Champions de 2014/2015 com o Barcelona, decisivo em todos os mata-matas. Parecia mais consciente, maduro. Neymar iria decolar. Não o fez.

Talvez atormentado pela obsessão de não ser coadjuvante e seduzido por milhões que gerações futuras não poderão contar, Neymar mudou para o PSG e fundou um principado próprio. Chamou para si a imagem de egocêntrico ao brigar com Cavani por um pênalti logo no início. Tumultuou o ambiente no vestiário do clube francês. Debochou de adversários e também barbarizou na Ligue 1. Neymar é genial. Mas tem insistido, numa regressão desde que foi para Paris, em ser primeiro genioso. A lesão sofrida que ameaçou sua segunda Copa foi traduzida com uma recuperação aparentemente tranquila no Brasil. Namorada no colo, pôquer com os parças na mansão, idas a festas e programas de tv, documentado por ele próprio em seu Instagram. Se vendia felicidade para aplacar uma tristeza interna, não sabemos. Neymar é um mistério. Pouco se abre para entrevistas. Explode apenas em campo.

A Copa da Rússia seria determinante para a arrancada de seu projeto. A volta aos gramados, a liderança da Seleção Brasileira com belas atuações. Teve bons momentos, longe de ser genial. Esperamos, sim, genialidade de Neymar. Ele, de novo, foi genioso. Com o cabelo iluminado para a estreia, chamou as atenções para si como chamou os suíços para o drible num jogo particular, alheio ao time. E começou o festival de quedas. Algumas justas, outras longe disso. E foi costurando sua imagem, aumentando a rejeição com grande parte do mundo. Viirou piada.

Depois do jogo da Costa Rica, um choro que novamente chamou holofotes para si. As lágrimas podem ter sido extremamente sinceras – frutos talvez de uma tristeza que não conseguimos alcançar e compreender, pois a blindagem de sua bolha de amigos e falsos amigos, além de puxa sacos, não permite humanizá-lo. Neymar se nega a revelar o que tanto lhe incomoda, lhe faz infeliz e “tudo pelo que ele passou”, como cita em seus posts. O choro poderia ter acontecido rumo ao vestiário. Escolheu o centro do campo. Ele, Neymar Jr, o jogador mais caro de todos os tempos, uma empresa multinacional e ciente do próprio potencial midiático. Não à toa.

A eliminação brasileira com um craque apagado, bem marcado e talvez aquém de suas plenas condições físicas não conseguiu impedir o desgaste mundial da imagem de Neymar. Tem, aos 26 anos, a chance de fazer uma reflexão. Ronaldinho e Ronaldo, gênios e com vida agitada, jamais passaram por tal processo de rejeição. A linha entre o deboche e o encanto com a magia dos pés é tênue. O próximo ciclo de Copa, até o Qatar, será fundamental para a imagem que levaremos de Neymar para a eternidade. É uma encruzilhada. Uma nova projeção de carreira.

Adoçar o comportamento, controlar o ego genioso e ser regular no nível mais alto que seu dom permite alcançar ou cada vez mais indicar que o auge de 2015 foi passageiro. Mudar a atitude para ser respeitado como fez Cristiano Ronaldo desde que chegou ao Real Madrid em 2009, com 24 anos. Ou talvez trilhar um caminho como Robinho. Não tecnicamente, quesito no qual já o superou com tudo que fez há tempos. Mas no jogador com incrível potencial que não alcançou o que prometia e, aos poucos, se apagou. O Menino Ney deve ficar para trás. A bolha que o cerca deve ser reduzida. Neymar ainda pode ser lembrado sempre como genial, não genioso. Há tempo. A escolha deve ser feita agora.