Fla-Flu Gabigol gol Brasileiro
Rota do equilíbrio: Flamengo vence Fluminense em ritmo de treino
10 setembro 14:46

A gangorra de volta: muito abaixo, Flamengo é derrotado no Ceará

Gabigol Flamengo Ceará 2020 Brasileiro

(Alexandre Vidal / Flamengo)

Domènec Torrent Flamengo Ceará 2020

(Alexandre Vidal / Flamengo)

O Fla-Flu havia apontado um Flamengo na rota do equilíbrio. Dominante, imponente, ofensivo e sem sofrer com qualquer pressão do rival. Ainda assim havia alertas de fragilidade nas bolas defensivas aéreas. A balança, então, pendeu para o outro lado uma vez mais. A irregularidade voltou e o time rubro-negro deixou pelo caminho pontos importantes na derrota de 2 a 0 para o Ceará, fora de casa, no Castelão. Não foram apenas as partes tática e mental. Tecnicamente o Flamengo esteve muito abaixo. Uma baque merecido diante de um patamar inferior.

Não é necessário abordar a opção de Domènec Torrent por rodar o elenco. É algo estabelecido e usual, não só na Europa como no Brasil. Lembremos, apenas para nos atermos a temporadas recentes, do Palmeiras de Felipão de 2018. Rodar, porém, não significa substituir os 11 titulares por 11 reservas, como Renato Gaúcho fez ser lei no Grêmio. Uma mescla. Domè, portanto, rodou. Manteve Isla, Everton Ribeiro, Arão e Gabigol. Não podia contar com Diego Alves – afastado com covid e lesionado no ombro – Gerson, suspenso, e Bruno Henrique, lesionado. Filipe Luís e Arrascaeta longe por desgaste. A opção voltou a ser pelo 4-2-3-1 ainda assim, mas com diferença clara pelo Fla-Flu.

No clássico, o Flamengo teve meias pelo lado. Trabalhos de fora para dentro, abrindo espaço para a subida dos laterais, fosse com Isla e seu vigor físico ou Filipe Luís e sua construção. Desta vez, a opção por velocistas com habilidade no mano a mano. Michael e Vitinho. Everton Ribeiro centralizado. Thiago Maia e Willian Arão como volantes. Não funcionou. É necessário intensidade, como no Fla-Flu, para que o jogo escolhido por Domènec funcione. Girar a bola e chegar aos lados do campo para aproveitar espaços e cruzar bolas à meia-altura ou ir ao fundo na individualidade. O Flamengo teve muito espaço, principalmente com Vitinho pela esquerda, em cima de Samuel Xavier.

Ceará no primeiro tempo: bem postado defensivamente

A postura do Ceará era muito defensiva. 4-4-2 estabelecido, Vinicius e Cléber à frente, buscando saída rápida pelos lados ao retomar a bola. Inicialmente até pressionou a saída rubro-negra. Mas dosou energias com o passar do tempo e entregou campo para o rival. Em dias normais seria fatal. Com um Flamengo muito abaixo do natural, sem intensidade e movimentação, ficou mais fácil. Até por ser uma noite ruim do Flamengo também na parte técnica. Vários jogadores, como Gabigol e Everton Ribeiro, erravam fundamentos básicos: passes curtos e domínio, por exemplo. Vitinho com o campo aberto ao seu dispor incrivelmente não buscava o fundo em jogada individual. Ao primeiro sinal de pressão do adversário, travava a bola e tocava ao meio ou para trás. Flamengo previsível. E que perde demais com Everton Ribeiro e sua inteligência distantes do habitat natural, o setor direito. Até por tabela. Ou melhor, para tabela.

Fla no início: pontas velocistas, Everton Ribeiro por dentro

Isla, com poucos jogos, já se entendeu bem com o Camisa 7. Estica até o fundo com sua vitalidade e capricha no cruzamento ao receber de primeira. Em um lance no primeiro tempo ficou clara a dificuldade: Michael recebeu na entrada da área, cortou para dentro. Isla fez menção de acelerar e travou. Gabigol passou nas costas do zagueiro pelo passe. Michael, então, bateu mal, de canhota, para fora. O atacante ainda não correspondeu por tamanho investimento. Mas Gabigol também ficou muito aquém. Teve duas ótimas oportunidades, após se movimentar da direita para a área, voltar na intermediária. Na primeira, cruzamento na medida de Isla. Sozinho, cabeceou mal, para fora. Na segunda, tabela interessante com Everton Ribeiro, ficou na frente de Prass e bateu, de direita, para fora. Um raro momento em que o Flamengo jogou por dentro e não buscou os lados. Vitinho, insistentemente, recebia bolas no seu setor. Carregava, avançava e…não assustava. De maneira insossa, o intervalo chegou. Mas longe de qualquer fúria para pressionar o Ceará e sacramentar o jogo.

Ceará ao fim: vantagem no bolso, bem preenchido e saídas rápidas

Domè mandou o time a campo na segunda etapa com a mesma formação. E aí ficou claro: caso sofresse um revés, o Flamengo mostrava que dificilmente conseguiria reagir. Como retornou no mesmo tom, o time viu a partida derreter rapidamente. E num ponto falho: a bola aérea. Digão já tinha ameaçado várias vezes no Fla-Flu até fazer o gol no apagar das luzes. Luiz Otávio nem mesmo tinha ameaçado. Mas mergulhou com facilidade entre Gustavo Henrique e Léo Pereira, sem chances para César. 1 a 0. O Flamengo tentou acelerar o jogo e promover intensidade basicamente no susto de reação. Um pouco mais atento, acelerando os passes no campo adversário. Mas foi, de novo, nocauteado. Mais um cruzamento, desta vez à meia-altura, que Willian Arão não conseguiu antecipar de Charles. 2 a 0.

Ali ficou ainda mais evidente: o Flamengo neste domingo não teria forças para reagir. A postura mais apática desde o início da partida, a quantidade de erros técnicos foram acompanhadas de uma desorganização com as mudanças de Domè evidenciaram a letargia. Sacou Michael e pôs Pedro. Em seguida tirou Thiago Maia e pôs Diego. Por fim, Vitinho deu lugar a Lincoln. Por dentro, Everton Ribeiro e Diego tentavam ajudar na construção, com Arão mais atrás. O Ceará manteve a pegada na marcação em seu campo e, mesmo com espaço, não soube aproveitar os contragolpes para devolver a derrota de 2019. Há problemas evidentes.

Flamengo ao fim: tentativa de ser ofensivo sem saber como

Gustavo Henrique e Léo Pereira mostram dificuldade com jogadas aéreas. O segundo, inclusive, exagera ao sair para caçar meias e atacantes fora da área, abrindo espaços às suas costas. Como o lateral, desta vez Renê, tenta cobrir o setor, abre espaço dos lados. Por ali, com cruzamentos, o time sofre. Foi um time com 64%* de bola, atacantes muito distantes, com poucas criações ofensivas e apenas duas finalizações no gol em toda a partida. Domènec também não conseguiu encontrar soluções para o segundo tempo. Empilhou atacantes e forçou o time a tentar buscar a vitória de maneira quase aleatória. Depois de quatro vitórias seguidas, o Flamengo parecia encontrar a rota do equilíbrio. Mas a gangorra, de novo, apareceu.

*Números do app SoFa Score

FICHA TÉCNICA
CEARÁ 2X0 FLAMENGO

Local: Maracanã
Data: 13 de setembro de 2020
Árbitro: Marielson Alves Silva (BA)
VAR: Marcio Henrique Gois (SP)
Público e renda: portões fechados
Cartões amarelos: Ricardinho (CEA)
Gols: Luiz Otávio (CEA), aos quatro minutos, Charles (CEA), aos dez minutos do segundo tempo

CEARÁ: Fernando Prass, Samuel Xavier, Tiago, Luiz Otávio e Bruno Pacheco; Charles, Ricardinho (Marthã, 41’/2T), Fernando Sobral e Vinícius (Lima, 25’/2T); Leandro Carvalho (Matheus Gonçalves, 29’/2T) e Cléber (Bergson, 41’/2T)
Técnico: Guto Ferreira

FLAMENGO: César, Isla (Matheuzinho, 32’/2T), Gustavo Henrique, Léo Pereira e Renê; Willian Arão e Thiago Maia (Diego, 32’/2T); Michael (Pedro, 8’/2T), Everton Ribeiro e Vitinho (Lincoln, 32’/2T); Gabigol
Técnico: Domènec Torrent