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A derrota de Bruno

Bruno Flamengo 2009

Bruno em treino pelo Flamengo em 2009

A data era 28 de novembro de 2009. Véspera da penúltima rodada do Campeonato Brasileiro daquele ano. Na briga pelo título, o Flamengo iria enfrentar o Corinthians em Campinas e decidiu se concentrar em um luxuoso resort em Atibaia, no interior de São Paulo. À tarde, o elenco treinou em um campo do local, em meio aos hóspedes, muitos pais com filhos que deixaram a piscina para assistir à atividade.

Adriano, com o famoso problema da bolha no pé, não viajara. Era desfalque. Ao fim do treino, a criançada que tinha arrastado os pais até a beira do gramado invadiu o campo e foi em busca de seus preferidos. Léo Moura ganhou atenção e brincou um pouco. Petkovic já havia corrido, com tantos outros para o trenzinho que levava os jogadores aos quartos. Mas Bruno, o goleiro, ficou. Grandalhão, sorridente, foi cercado pelas crianças. Queriam algum presente. Uma luva, uma camisa, um autógrafo. Ele sorria.

Cercado, fez um trato. Iria para o gol e algumas delas teriam chance de cobrar pênaltis. Quem marcasse um gol, ganharia uma peça do seu uniforme. As crianças, claro, enlouqueceram. Era o Bruno, goleiro e capitão do Flamengo, que dia antes tinha defendido dois pênaltis de Paulo Henrique Ganso, no Maracanã, e assegurado a vitória de 1 a 0 sobre o Santos. E lá foi a molecada tentar. Bruno defendeu os chutes dos maiores e deixou entrar o dos menores na imensa fila que se formou em frente ao gol. Perdeu caneleiras, calça, camisa, luvas. Deu tudo e achava graça. Sorria, brincava. Acompanhando ali de perto, fiquei impressionado.

Já o entrevistara algumas vezes. Bruno já tinha a fama de genioso, alguém que poderia ter um rompante a qualquer momento. Algumas discussões com a torcida depois de jogos já apareciam com alguma constância. Em treinos no Ninho do Urubu, às vezes voltava do gramado ao vestiário se equilibrando em uma divisória, baixa, de concreto, com bolas de ferro na mão. Mesmo debaixo de chuva mais forte. Olhando para o horizonte. Poderia sorrir, lhe cumprimentar ou simplesmente passar reto, de cara feia. Dependia do dia. Naquela tarde em Atibaia, Bruno mostrou entender o que era ser ídolo. Surpreendeu. Enquanto estava cercado por crianças, sedentas por autógrafos, me aproximei e perguntei o que aquilo ali representava para ele.

“Isso aqui é o que vale, xará. É o que justifica o que a gente faz”, disse.

Seis meses depois, Bruno acabou preso por envolvimento no assassinato de Elisa Samúdio. Estava cotado para a Seleção, para o Milan. Mas era ídolo daquelas crianças, que o veneravam e o chamavam de heroi. Hoje, mais de sete anos depois daquela tarde em Atibaia, Bruno foi autorizado a deixar a prisão. Não cabe aqui analisar se a Justiça fez bem ou mal. Sou leigo. Mas é fácil concluir quanto o Bruno que deixa a cadeia hoje perdeu. Não a fama, o dinheiro ou a liberdade, agora retomada. Perdeu a admiração de crianças como aquelas, que só de tocar no ídolo entravam em êxtase. O julgamento do goleiro pela sociedade, ao que parece, está feito. A história manchada. Sete anos depois, Bruno de 2009 vai encarar a sua maior derrota. Os olhos do público.

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