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E o mundo levita: no apagar das luzes, um redentor Botafogo surge para ser o campeão

(Flickr / Botafogo)

(Flickr / Botafogo)

Redenção. O ato ou efeito de redimir. Salvação. Reabilitação. É o que diz o dicionário. Foi o que disse o Botafogo neste Campeonato Carioca. No futebol histórias são construídas aos domingos e destruídas nas quartas. Não há espaço para análises definitivas. Principalmente por agora quando o suor ainda escorre no rosto do botafoguense. Só há o que sentir no momento. Bater no peito. Vibrar. Comemorar. Ressurgir. Renascer. Valeu taça. Valeu volta olímpica. Valeu um grito na garganta aos 49 minutos do segundo tempo. O grito pelas mãos de Gatito. Valeu muito. Valeu o ressurgir das cinzas de uma equipe desacreditada no primeiro turno e que terminou a competição com a taça. Coisas do futebol. Coisas do Botafogo. Coisas do Carioca. Coisas de campeão.

Bastaria ao Botafogo uma simples vitória por um gol de diferença para aumentar suas chances de ser campeão carioca. Mas o simples para o Botafogo atualmente é árduo. Duro. Clube com dificuldades, perdas no elenco. Perda do técnico. Uma nova aposta que ficou pelo caminho após derrota para o Flamengo na semifinal da Taça Guanabara. Ali, destroçado, o Botafogo rompeu para se reerguer. Deu adeus a Felipe Conceição e a chance para Alberto, o ex-lateral que agora carrega publicamente o complemento de Valentim. Valente.

Vasco no início: alternância entre Evander e Wagner

Adepto do futebol ofensivo, marcação com pressão, time adiantado, Alberto foi inteligente para entender que ele teria de se adaptar ao Botafogo. Não o contrário. Plantou ali a semente para se reerguer. Deu ideia de um time mais competitivo. Mas passou por sobressaltos. Espaços em campo. Gols sofridos em demasia. Reflexos do início de ano conturbado. Até que diante do Flamengo, na semifinal, Valentim entendeu que não há nenhuma vergonha em jogar de acordo com suas limitações. Primeiro fechado para depois atacar. Balancear. No Maracanã, o Botafogo deu novamente a cara.

Talvez os três gols vascaínos sofridos depois de uma luta tão aberta no primeiro jogo da final tenham feito Alberto e seus comandados entenderem: com limitações, não sofrer gols é o primeiro passo para fazê-los. E o Botafogo precisava fazê-los. Ao menos um, sem sofrer nenhum. Equilibrar a balança. E lá foi o time a campo no 4-2-3-1 encontrado pelo técnico para tentar deixar o time nem tão ofensivo, mas tampouco defensivo. Equilibrado. Matheus Fernandes voltou de lesão na vaga de Lindoso. Dali para frente, tudo igual. Leo Valencia à esquerda, Renatinho centralizado, Luiz Fernando à direita. Brenner no ataque. Mas os espaços estavam bem mais reduzidos do que na última partida. Era fácil entender. Ao Vasco, claro, era necessário não sofrer gol algum para sair da taça mesmo que não marcasse.

Botafogo no início: time não conseguiu produzir

Um jogo mais estudado. Do outro lado, Zé Ricardo tentou montar o time de acordo com os desfalques, como de Wellington, suspenso, e Giovanni Augusto e Paulinho, lesionados. Pôs dois laterais na esquerda, com FAbrício atrás e Henrique à frente no 4-2-3-1. Evander como segundo volante, Wagner centralizado, Pikachu à direita. Na frente, o corredor Riascos. Um primeiro tempo sem grandes chances. Mais pegado do que jogado. Sem a ofensividade e o ar de descompromisso do primeiro jogo. Mas com um lance determinante. A entrada de Fabrício em Luiz Fernando aos 36 minutos, desnecessária, abriu caminho para deixar o jogo mais à vontade do Botafogo. Um jogador a menos por mais de 50 minutos.

Ainda no fim do primeiro tempo, Valentim colocou Pimpão na vaga de Luiz Fernando. Fez o atacante alternar de lado com Leo Valencia. Um teste. No segundo tempo, ele ousou mais. Buscou mesmo a redenção. Completou as trocas com Gilson no lugar de Moisés e Kieza na vaga de Marcelo, já amarelado. Passou a um 4-4-2, com dois atacantes na área. Mas talvez o time estivesse despreparado para atuar assim. Diante de um Vasco fechado no 4-4-1 clássico de um time com um jogador a menos, o Botafogo fez circular a bola pelos lados e passou a um vício de equipes brasileiras quando encontram um bom ferrolho pela frente: alçar bolas à área. De acordo com o site Footstats foram 42 cruzamentos no jogo.

Mas o Vasco buscava o jogo. Pronto para armar contra-ataques ao recuperar a bola, tentando acelerar o jogo com Pikachu pela direita e a organização de Wagner, em boa forma, pelo meio. Atacar e voltar em bloco. O perigo, mesmo, vinha pelas bolas aéreas do Botafogo. Em uma, Rafael Galhardo puxou Carli e cometeu pênalti ignorado pelo árbitro. Em outra, Brenner completou no peito de Martín Silva a bola lançada por Leo Valencia. O Botafogo trocava a movimentação, cercava. Buscava a redenção. Ela não saía.

Ao fim, Vasco recuado à espera do empate que não chegou

Com o resultado favorável, Zé Ricardo fechou bem a equipe. Tirou o assustado Galhardo para colocar Werley, um zagueiro. Sacou Evander, cansado, para pôr o valente Ríos. Continuava a fechar dois bloco de quatro e disparar com Pikachu e Riascos. A minutos do fim, tirou o atacante colombiano e pôs o quarto zagueiro em campo. Ricardo fechou o lado esquerdo e Henrique adiantou. Era claro: buscava a pura velocidade dos laterais mais adiantados enquanto chamava o Botafogo, já desorganizado na busca pelo gol salvador. Há dias em que o óbvio acontece. O ferrolho resiste, a ideia dá certo. E o improvável não aparece. Mas há dias de redenção. Dias do surpreendente. De história. Dias em que as forças saem sabe-se lá de onde e invadem o campo. Emanam da arquibancada. E assim se fez a luz.

Bota ao fim: time muito à frente, embolado

Em um primeiro momento, luzes. Vascaínos na arquibancada acenderam os celulares e fizeram um bonito espetáculo no Maracanã. Entoavam o coro da vitória. Vestiam faixas. Pareciam ter decidido o destino da taça. Até a viagem da bola. Gilson lançou na área. Paulão cabeceou mal e a redonda sobrou para Igor Rabello. Rápido, o General tocou para Pimpão na esquerda. De primeira para Kieza. Ajeitou, bloqueado por Erazo e Ricardo. Ali, na sobra, a bola buscou o Redentor. Carli, a liderança da equipe de 2017, sangue argentino, apareceu na área como um centroavante. Dominou a redonda e bateu rasteiro, no fundo da rede. Redentor. O gol iluminou a torcida alvinegra e apagou celular por celular. 1 a 0. E decisão por pênaltis.

Quase dois meses depois de um time esfarelado na semifinal da Taça Guanabara, Gatito defendeu as cobranças de Werley e Henrique. Fez explodir um Botafogo de alma. Encheu de lágrimas botafoguenses na arquibancada. Concretizou a retomada de caminho traçada no primeiro turno. Sim, ainda é muito cedo para análises definitivas. Há longo caminho por percorrer em 2018. Mas há de se aproveitar o momento. 64 mil pessoas presentes. A faixa no peito. O sorriso escancarado. Há dias em que se vê o milagre. Em que o grito da garganta, sufocado, só se liberta no último lance. Há inúmeras maneiras racionais de explicar uma vitória. Mas a taça do Botafogo campeão carioca de 2018 passar por uma palavrinha só. Na arquibancada, no campo. Na alma. O mundo levita. Redenção.

FICHA TÉCNICA
VASCO (3) 0x1 (4) BOTAFOGO

Local: Maracanã
Data: 8 de abril de 2018
Horário: 16h
Árbitro: Wagner do Nascimento Magalhães (RJ)
Público e renda: 58.135 pagantes / 64.208 presentes / R$ 2.219.230
Cartões Amarelos: Paulão, Desábato e Werley (VAS) e Marcelo, Rodrigo Pimpão e Leo Valencia (BOT)
Cartões vermelhos: Fabrício (VAS), aos 36 minutos do primeiro tempo e Leo Valencia (BOT), aos 47 minutos do segundo tempo
Gol: Carli (BOT), aos 49 minutos do segundo tempo

VASCO: Martín Silva; Rafael Galhardo (Werley, 15’/2T), Paulão, Erazo e Fabrício; Desábato e Evander (Andrés Ríos, 13’/2T); Yago Pikachu, Wagner e Henrique; Riascos (Ricardo Graça, 38’/2T)
Técnico: Zé Ricardo

BOTAFOGO: Gatito Fernández; Marcinho, Carli, Igor Rabello e Moisés (Gilson / Intervalo); Marcelo (Kieza / Intervalo) e Matheus Fernandes; Luiz Fernando (Rodrigo Pimpão, 41’/1T), Renatinho e Leo Valencia; Brenner
Técnico: Alberto Valentim