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Felipe Melo e o domínio do personagem

Felipe Melo chacoalha Dudu após gol sobre o São Bernardo

Felipe Melo chacoalha Dudu após gol sobre o São Bernardo: personagem exibe fúria geralmente acima do tom

2001. “Quando eu vi a bola entrando, saí correndo com as mãos na cabeça e não acreditei”. A frase é de Felipe Melo, logo após marcar o gol de cabeça sobre o Internacional que salvou o Flamengo de qualquer ameaça de rebaixamento no Campeonato Brasileiro daquele ano. Era um menino de 18 anos, meia promissor, ainda incrédulo com o que acabara de fazer no início da carreira profissional. Trazia ali uma ingenuidade natural de juventude. Feliz, sorriso aberto, risada leve. 2017, Dudu faz um gol pelo Palmeiras contra o São Bernardo e não comemora. Como um raio, um volante palmeirense avança sobre o capitão, segura sua cabeça com as duas mãos, chacoalha e berra. Causa espanto em que vê a cena. É o personagem dominando aquele garoto Felipe mais uma vez.

Felipe Melo, 33 anos, é hoje um homem formado, pai de família, jogador de sucesso, que disputou Copa do Mundo e rodou continentes. Entre Brasil, Espanha, Itália e Turquia, o meia recuou e virou volante. Dos bons. Sabe sair para o jogo, tem bom chute, marca bem. Aparece, antes de mais nada, pelo seu futebol. Mas de uns tempos para cá o palmeirense deixou se dominar por um personagem possuído por uma fúria que invariavelmente está um tom acima. Veias saltando, olhos esbugalhados, vibrações efusivas, berros que exigem demais da garganta. Certamente Felipe, o garoto, deseja disputar cada bola, tem alma aguerrida, anseia pela vitória. Mas deixar o personagem dominá-lo pode ser prejudicial.

O desejo constante do personagem pelo embate com adversários, jornalistas e torcedores rivais tende a tornar a trajetória de Felipe mais difícil. Verdade que é um personagem interessante, distante do lugar comum que tanto tem entediado o futebol. Na coletiva de apresentação pelo Palmeiras, frases de efeito, desafios e o tom acima com promessa de tapa na cara se necessário. Na estreia, um urro ao desarmar um adversário. Agora, a chacoalhada em Dudu. Felipe Melo tem liderança natural, instintiva e também idade e experiência suficientes para ter maturidade e evitar o domínio do personagem. Pode fugir ao controle. Árbitros tendem a ser mais rigorosos, adversários terão sempre a provocação guardada no bolso.

Tentar inverter o domínio do personagem talvez seja fundamental nesse retorno ao futebol brasileiro. A confusão com jogador violento pode ganhar ainda mais corpo. O reflexo do que faz com a bola diminua. E talvez sufoque ainda mais o garoto com riso solto que, ao deixar o estádio em 2001, ouviu do pai, José, abraçado à mãe, Silvania: “Tem muito o que aprender. É ter humildade e seguir em frente”. Felipe seguiu. Ganhou o mundo. Voltou para casa. Que o personagem não o atrapalhe.

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