Everton Ribeiro gol Flamengo Botafogo Brasileiro 2020
Depois da ressaca, a vitória e o alerta: abaixo do patamar, Flamengo supera Botafogo
06 dezembro 21:49

Fluminense abraça coragem e derruba Flamengo a meio-mastro no raiar de 2021

Filipe Luís Luccas Claro Isla

(Mailson Santana / FFC)

Flamengo Gabigol Danilo Barcelos Fla-Flu 2021

(Alexandre Vidal / Flamengo )

Historicamente o Fla-Flu gosta de pregar peças. É um clássico forjado na imprevisibilidade. Um foi origem do outro. O favorito é derrotado pelo rival em fase mais difícil. Tabus caem. O inimaginável entra em campo no apagar das luzes, à la Sobrenatural de Almeida, e chacoalha o duelo. A grande vitória do Fluminense, de virada sobre o Flamengo, por 2 a 1, teve todos esses componentes nesta quarta-feira, no Maracanã, pelo Campeonato Brasileiro. E um além: a coragem demonstrada pela equipe tricolor para se desgarrar de seu campo no segundo tempo e agredir um rival que ainda vive o luto de ter perdido o encanto da temporada de 2019. A bandeira vive a meio-mastro no Ninho do Urubu.

Fla no início: Isla como opção à direita, Arão ao distribuir o jogo

A qualidade, no entanto, ainda está por lá. O Flamengo segue com a maior parte do elenco espetacular que conquistou América e Brasil e um fim de semana. Por isso é fácil apontá-lo como grande favorito na maioria dos confrontos em terras sul-americanas. Ainda mais com dias e dias a treinar, como teve Rogério Ceni para preparar a equipe para o pontapé inicial de 2021. Sem grandes problemas, salvo Diego Alves, o elenco farto estava ao seu dispor para elevar o nível de atuação e voltar a ser um time voraz, impositivo, longe do esboço que deixou no fim de 2020 contra o Fortaleza. Falhou mais uma vez. O time armado no 4-4-2 começou o clássico no Maracanã de forma bem insinuante, intenso, com trocas rápidas de passes e jogo vertical. Mas a falta de letalidade já não existe. Este mesmo Flamengo era imperdoável. Agora é benevolente, permite que o adversário, mesmo sufocado, possa se segurar para contra-atacante mais à frente. Com um minuto de jogo, ótima jogada tramada pela esquerda com participação de Gerson, Filipe Luís e Everton Ribeiro no corta-luz. A bola à feição de Gabigol parou não na rede, mas na arquibancada do Maracanã. Um sinal de que faltava algo.

Flu no início: recuado, com Fred à frente e sem agredir tanto o Fla

O Flamengo alugava o campo ofensivo e se distribuía com alguma mobilidade para tentar furar o bloqueio tricolor. Buscava inversões de jogo, com Arão distribuindo bem passes e lançamentos. Assim achou Arrascaeta dentro da área, em finalização bem abafada por Marcos Felipe. Isla muito aberto na direita tentava o corredor e obrigava Wellington Silva a atuar quase como auxiliar direto de marcação de Danilo Barcelos. O Fluminense de Ailton mantinha um 4-4-2 muito fechado, com Yago Felipe à frente próximo de Fred, evitando dar espaço ao rival e sair rapidamente com Michel Araujo e Wellington Silva. Fred era solitário no choque contra os zagueiros, tentava o pivô e por mais de uma vez mostrou irritação com a postura da equipe. Em parte opção, mas em parte também de imposição do outro lado do campo. O Flamengo, afinal, fazia um bom primeiro tempo. Não digno dos seus áureos tempos. Mas bom.

Gerson, mais à frente e por dentro, tentava ocupar o setor atrás de Yuri e Hudson com Everton Ribeiro. Por vezes o time mostrou mobilidade. O camisa 7 ao cair na esquerda, Arrascaeta ao sair rumo à direita. Gabigol abria pelos lados para buscar a enfiada de bola para a entrada fulminante de Bruno Henrique na diagonal. Em uma oportunidade quase deu certo. Numa das passagens do uruguaio por dentro, Filipe Luís achou ótimo passe para finalização defendida com firmeza por Marcos Felipe. Havia uma superioridade clara e, mais do que isso, um caminho óbvio. O lado direito.

O Fluminense bloqueava bem os outros setores do campo diante de um Flamengo que já diminuía a rotação do início da partida. Mas Danilo Barcelos deixava amplo espaço para Isla ocupar. Bastava um passo em falso, uma qualidade maior em jogada recuperada. Ela veio com uma pressão de Gerson e o toque de Isla por cima para Everton Ribeiro ir ao fundo. Yuri tentou recompor as costas de Danilo, mas já era tarde. O meia cruzou forte, Matheus Ferraz tentou cortar e atrapalhou Marcos Felipe. Arrascaeta, presente na área, tocou de cabeça para traduzir a superioridade no placar. 1 a 0. Esperava-se então um posicionamento ainda mais agressivo para liquidar o rival. O Flamengo fez o contrário. Diminuiu ainda mais a rotação e aceitou o Fluminense um pouco mais avançado ainda no fim do primeiro tempo. A aposta tricolor era clara: bola aérea para tentar aproveitar a inconstância da defesa rubro-negra. Yuri, em uma sobra, assustou Hugo. Mas o primeiro tempo terminou satisfatório para o Flamengo. Cabia ao Fluminense aumentar a temperatura do jogo e entregar coragem, com passos à frente. Assim o fez.

Na volta para o segundo tempo, o time de Ailton aumentou a pressão na saída de bola rubro-negra, mais constante do que já havia desempenhado em breves momentos na primeira metade do clássico. E adiantou o time, com maior velocidade pelos lados. O Flamengo, incomodado, voltou a apresentar problemas constantes da Era Ceni: lentidão no circular da bola, jogadores com menos mobilidade e em fase técnica bem abaixo. Everton Ribeiro é um esboço do que já foi em tempos até recentes. Erra passes, dribles, tem dificuldades a dar andamento ao jogo. É um dos principais nomes a rebuscar demais as jogadas, com objetividade muito reduzida, longe de outros tempos. Um problema que tem sido grave do time. Filipe Luís, ainda ótimo na construção, tem mostrado dificuldades ao ser atacado com velocidade, principalmente sem a cobertura efetiva de um zagueiro. Há pontos vulneráveis no Flamengo. A bola alçada na área, como apontava o primeiro tempo. Danilo Barcelos levantou e Luccas Claro passou fácil por Filipe Luís para cabecear no canto de Hugo. O bandeira assinalou impedimento de forma equivocada, obviamente corrigido pelo VAR. 1 a 1.

Com o empate, o Flamengo se desestruturou defensivamente por alguns minutos. Demonstrou a velha instabilidade a qualquer ameaça de bola a rondar a própria área. É mais do que tático. É também mental. Fred, inteligente, recuou e achou passe no capricho para Michel Araujo entre os zagueiros e acompanhado por Filipe Luís. Cortou três vezes na área rubro-negra até bater rasteiro na trave direita de Hugo. Seria um golaço. O Flamengo tinha ameaçado apenas com a bola na trave de Arrascaeta em cobrança de falta. Mas construía pouco. Rogério Ceni voltou a ousar de acordo com sua visão. Sacou Natan, que já tinha errado saída de bola fácil, recuou Arão à zaga, trocou Rodrigo Caio de lado e pôs Diego pelo centro. Gabigol deu lugar a Pedro. O Flamengo até ocupou mais o campo ofensivo, teve mais volume, voltou a ter a bola em seus pés. Mas a circulação ainda era lenta. De um lado a outro, sem trocas de passes que pudessem superar o bom sistema defensivo tricolor. Um jogo horizontal que culminava geralmente em cruzamentos da intermediária. Sem espaço pelo lado direito para Isla ir ao fundo, o time rubro-negro se concentrou à esquerda. Filipe Luís, então, ficou sobrecarregado na criação. Cabia a ele iniciar o jogo, passar pelo meio e ainda se apresentar à frente. Óbvio que faltariam pernas e explosão para acompanhar o setor defensivo.

Fla ao fim: três atacantes, mas pouca criação diante da defesa tricolor

A resposta tricolor veio com mais velocidade. Felippe Cardoso no lugar de Fred, Caio Paulista e Lucca pelos lados em vez de Wellington Silva e Michel Araujo. Um jogo mais ao risco do Flamengo. Por mais que circulasse a área tricolor era pouco efetivo. Não ameaçava. E apresentava poucas ideias para superar times bem fechados, o que já ocorreu contra o Fortaleza, por exemplo. Ceni deixou claro que apostava no jogo aéreo ao sacar Everton Ribeiro e colocar Rodrigo Muniz em campo. Maior presença na área, mas faltava ainda a construção. O jogo ficou desenhado e aberto: um Flamengo a rondar a área do Fluminense, que apostava na velocidade para tentar o golpe derradeiro. Não que tenha criado para isso. Mas marcou mais presença no campo ofensivo com a velocidade de Felippe Cardoso e Caio Paulista pela direita sobre Filipe Luís. A virada veio em uma combinação de fatores: bola longa, erro crasso de Filipe Luís ao recuar mal a bola para para o zagueiro Arão e inteligência de Yago Felipe ao perceber o vacilo para tocar para o gol. 2 a 1. Resultado merecido, principalmente pelo segundo tempo.

Flu no fim: mais à frente, com muita velocidade pelo lado direito

O Fluminense apresentou, novamente, capacidade de competir com times do alto da tabela. Já o havia feito na partida contra o São Paulo, mas sofreu justamente com o setor de Danilo Barcelos. Desta vez encontrou um rival novamente superior tecnicamente, mas frágil mental e defensivamente. Bastou ter a coragem de competir no segundo tempo para, de fato, entrar no jogo. É lição a levar na luta pela vaga na Libertadores. O Flamengo, por sua vez, é um capítulo à parte. Um emaranhado de erros na temporada que se apresenta cada vez mais decisivo. O primeiro de todos é a constante bandeira a meio-mastro no Ninho do Urubu pela saída de Jorge Jesus e o já mais distante ano de 2019.

É natural que com grande parte do elenco campeão sob a batuta do português ainda no clube as comparações sejam inevitáveis. Mas o Flamengo perdeu não só fora de campo. Dentro também saíram peças fundamentais. Pablo Marí dava consistência à defesa, iniciava o jogo rubro-negro com passes verticais e auxiliava a cobertura de Filipe Luís com maestria. Não teve substituto à altura e saiu há um ano. Rafinha tinha liderança no ambiente, capacidade de leitura defensiva e construía bem o jogo. Equilibrava o lado direito com Filipe Luís, sobrecarregado na função. Este Flamengo foi histórico, mas já não existe. Por mais que Rogério Ceni tenha dito que tenta se aproximar do estilo de Jesus, talvez com uma maneira sedutora de mandar recado à torcida, ainda é bem diferente. Talvez nem o próprio Mister fosse igual.

Ceni tenta respeitar a presença de meias criativos pelos lados quando já deixou claro que prefere pontas habilidosos e velocistas. As chances de ser campeão brasileiro existem, mas a confiança parece abalada, capaz de colocar em risco até a presença no topo da tabela. O clube demitiu Domènec Torrent por ter transformado a equipe numa peneira vulnerável incapaz de duelar com grandes rivais. Com Rogério o time se tornou mais equilibrado. Mas é insosso. Comum. Remou, remou sem sair do lugar. É um trabalho aquém, por mais que as informações de dentro do CT deem conta de uma boa sintonia entre elenco e comandante. Com jogadores em má fase e um time com dificuldades para ser explosivo, sem a faísca da arquibancada para acendê-lo, é preciso dar adeus ao passado e se reinventar para o futuro. Nas Laranjeiras, o sorriso é pela América como algo palpável no horizonte. No Ninho do Urubu, a bandeira segue há quase um ano a meio-mastro.

FICHA TÉCNICA
FLAMENGO 1X2 FLUMINENSE

Local: Maracanã
Data: 6 de janeiro de 2021
Árbitro: Leandro Pedro Vuaden (RS)
VAR: Jean Pierre Gonçalves de Lima (RS)
Público e renda: portões fechados
Acréscimos: cinco minutos no primeiro tempo e sete minutos no segundo tempo
Cartões amarelos: Bruno Henrique (FLA) e Calegari, Yago Felipe, Felippe Cardoso e Paulo Henrique Ganso (FLU)
Gols: Arrascaeta (FLA), aos 39 minutos do primeiro tempo e Luccas Claro (FLU), aos dez minutos e Yago Felipe (FLU), aos 47 minutos do segundo tempo

FLAMENGO: Hugo; Isla, Rodrigo Caio, Natan (Diego, 23’/2T) e Filipe Luís; Willian Arão, Gerson (Pepê, 47’/2T), Everton Ribeiro (Rodrigo Muniz, 42’/2T) e Arrascaeta; Bruno Henrique e Gabigol (Pedro, 24’/2T)
Técnico: Rogério Ceni

FLUMINENSE: Marcos Felipe, Calegari, Luccas Claro, Matheus Ferraz e Danilo Barcelos; Yuri e Hudson (Martineli, 38’/2T); Michel Araujo (Caio Paulista, 38’/2T), Yago Felipe e Wellington Silva (Lucca, 25’/2T); Fred (Felippe Cardoso, 20’/2T)
Técnico: Ailton