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02 abril 23:09

Gabigol e a desconexão com a massa

Gabigol camisa 10 estreia Flamengo

(Gilvan de Souza / Flamengo)

Gabigol camisa 10 estreia Flamengo

(Gilvan de Souza / Flamengo)

Há no futebol códigos bem estabelecidos. Linhas bem traçadas que não devem jamais ser ultrapassadas. Ao preço de romper vínculos tão bem construídos. Trair confianças. Rasgar idolatrias. Defender a bandeira adversária é uma dessas linhas. Trajar-se com cores rivais e abandonar a imagem tão bem estabelecida na qual foi forjada a idolatria. Gabigol arriscou demais. Perdeu-se. E se desconectou completamente da massa que tão bem conhecia. Com quem tanto se identificava. Da língua que fluentemente falava.

A História está estabelecida. Fatos não mudam. Gabriel Barbosa, o Gabigol, decidiu duas Libertadores para o Flamengo, além de tantos outros títulos. Com a 9. Promoveu em Lima uma libertação de almas após quase quatro décadas que beira o indescritível. Fez-se um dos tantos da arquibancada. Construiu a conexão de maneira tão precisa, exata, intensa que foi elevado por muitos ao patamar de maior ídolo pós-Zico. Ideia não absurda. Mas o livro da História segue a ser contado. Gabigol não encerrou seu capítulo. E as linhas passaram a ser tortas. Beijos ao treinador rival, suspensão por acusação de tentativa de fraude em doping. Ainda assim, a massa o defendeu. Até além. Conseguiu mantê-lo no pedestal.

Até quarta-feira era possível mensurar o tamanho de Gabriel Barbosa na história rubro-negra e traçar linhas douradas com caligrafia elegante, com mínimos desvios. Agora há um grande e melancólico garrancho. O ídolo que promoveu uma onda de imitações da tradicional comemoração de guris não apenas de vermelho e preto. Era cercado por vários, de todas as cores. Mas era o torcedor flamenguista em campo. Ao vestir uma camisa rival – negado pela sua assessoria e confirmado por outros presentes, bom ressaltar – Gabigol quebrou um código. Foi além do permitido. Sinalizou pouco apreço com a própria trajetória e sua gente. Testou limites. E foi forçado a deixar a 10 pelo caminho.

A camisa mais simbólica, avalizada por Zico, pela torcida. A diretoria rubro-negra é extremamente falha na gestão de pessoas e de ídolos. O próprio Gabriel já sofreu com a condução em episódios recentes. Mas agora abriu brecha onde não poderia. Perdeu seu maior escudo. A grande era de ouro do Flamengo leva seu nome ao fim. Foi o Flamengo de Gabigol. O ciclo, tudo indicava, chegava mesmo à fase derradeira. Caberiam últimos capítulos dignos, com respeito de parte a parte, adoração da arquibancada intacta, promessa de eternidade em sonhos de pequeninos rubro-negros, ala pomposa em museu. Mas Gabigol parece não entender mais. Bastou um gesto. Um mero gesto. Vestir uma camisa em vez do manto. E foi feita a desconexão com a massa.

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