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Na mexida de Abel, o sorriso do garoto para desafogar a alma tricolor no clássico

Fluminense Botafogo Engenhão Matheus Alessandro

Fluminense Botafogo Engenhão Matheus Alessandro

Abel Braga passou a metade final da semana apertado. Críticas fortes após a eliminação no apagar das luzes no Fla-Flu da Sul-Americana aumentaram o clima de desconfiança de Abelão, um técnico que tira leite de pedra em 2018. Trabalha com o que tem. E foi uma mexida decisiva do técnico que deu ao Fluminense a primeira virada no Campeonato Brasileiro deste ano. Justo num clássico, desta vez contra o Botafogo. 2 a 1 suado. O futebol tira, o futebol dá.

Pois no início parecia que o roteiro do Engenhão seria tão cruel com Abel quanto o do Maracanã no meio de semana. Desconcentrado em um jogo tão importante, Renato Chaves entregou o caminho do gol a Rodrigo Pimpão com um minutinho de partida. Um domínio errado de bola que deixou o atacante com espaço livre para entrar na área e cruzar rasteiro para Marcos Vinícius completar para o gol. Isso mesmo. Nem dois minutos no placar, Botafogo 1 a 0.

Bota no início: 4-4-2 tradicional

Um drama para Abelão, que mandou a campo um Fluminense com estrutura parecida do Fla-Flu de quarta. Um 4-3-3 no qual Scarpa se reveza entre um homem centralizado atrás da dupla Marcos Junior e Henrique Dourado e um atacante que os acompanha pela direita, abrindo espaço para a chegada de Sornoza ao centro. Richard protegia a defesa, com o equatoriano e Douglas à esquerda mais avançado. Mas a diferença estava ao lado: o lateral-direito não era tão ofensivo quanto Lucas no Fla-Flu. Com o camisa 2 poupado por desgaste muscular, Mateus Norton, volante de origem, assumiu a função. Para bater de frente com Pimpão e fechar o setor.

Na verdade, a grande preocupação do Fluminense deveria ser com as investidas sempre fortes de Arnaldo e, principalmente, Bruno Silva pelo lado direito do ataque alvinegro. No 4-4-2 clássico desta temporada, Marcos Vinícius era o meia que fazia o papel de encostar no atacante, Brenner. Funcionava bem com a aproximação de Matheus Fernandes, de novo mais solto para avançar com a presença de Lindoso. Em boa tabela com Brenner, o volante quase ampliou em chuta rasteiro que passou próximo a Cavalieri. O Fluminense tinha mais a bola. O Botafogo, porém, era mais perigoso. Faltava ao Tricolor ser incisivo. E foi.

Já no fim da primeira etapa, o time de Abel ensaiou enquadrar o Botafogo em seu campo, antecipando um panorama que aconteceria no segundo tempo. Jogadores mais adiantados, rolar de bola de um lado para o outro, tentativa de jogo pelas laterais. Asfixiar o Botafogo, que ingenuamente entendeu ter o jogo controlado, aguardando apenas um contra-ataque. Ledo engano.

Flu no início: Norton improvisado

Que seria fácil perceber logo no início do segundo tempo. No espaço para Scarpa puxar da direita para o centro e bater colocado na trave de Gatito estava claro que o jogo era tricolor. Marcação no campo rival, evitando o encaixe de contra-ataques. E o Tricolor inverteu. Em vez das pontas, tentava aproveitar o jogo pelo meio, já que Marcos Vinícius, cansado, não acompanhava mais a marcação, forçando o adiantar de um dos volantes. Jair percebeu. Sacou Marcos, colocou Gilson na esquerda e trocou Pimpão para o jogador mais próximo de Brenner, pela direita. Não deu tempo.

Justamente pelo centro, Dourado recuou e Igor Rabello foi caçá-lo na intermediária. O Ceifador, esperto, viu a passagem de Marcos Junior pelas costas de Carli e enfiou a bola. A matada com o pé direito e a batida seca com o pé esquerdo fez justiça ao jogo. 1 a 1. O jogo, como dito, era Tricolor. Em nada o time lembrava a equipe apática do início da partida, cedendo às investidas do Botafogo. Abel estava atento. Estava feroz. Ao perceber a queda de Sornoza, não acompanhando o ritmo da partida, colocou Wendel em campo. Liberou Scarpa de maiores funções defensivas e pôs o Fluminense para rodar a bola.

Bota ao fim: seis por meia dúzia e apatia

Talvez fosse interessante para Jair Ventura sacar da manga um meia como Valencia, para ora segurar a bola, ora acelerar o jogo em um contra-ataque. Arrefecer a pressão tricolor e ganhar fôlego para equilibrar o clássico. A última troca, de Brenner por Vinícius Tanque, indicou que o time continuaria praticamente na mesma, com Guilherme como esperança desse desafogo. O Fluminense tinha campo. Abel tinha ideia para ocupá-lo. Primeiro ele optou por Wellington Silva na vaga do lesionado Marcos Junior. Manter velocidade e habilidade. O golpe fatal ocorreu minutos depois.

Com um Botafogo entregue, ele perdeu Richard por lesão. Observou, então, o lado direito de ataque tricolor, em cima de Victor Luis, que avançava ocupando o meio e Gilson, lateral de origem, mas com características sempre muito ofensivas. Jogou Mateus Norton para a função original de volante, escalando o rápido atacante Matheus Alessandro de lateral direito, buscando tabelar com Scarpa. Dito e feito. Com a mão de Abel, a virada do clássico, o desafogo na temporada.

Flu ao fim: Matheus Alessandro

Scarpa, já claramente cansado, carregou a bola pela área central, com espaço. Envergou o corpo para a esquerda, indicando um passe para Henrique Dourado, um chute colocado. E olhou o lado direito, escancarado. O rolar de bola foi suave para Matheus Alessandro, como uma flecha. A batida contou com uma colaboração de Gatito e entrou entre a trave esquerda e o goleiro. 2 a 1. Choro emocionante do garoto. Desafogo de Abel. Virada tricolor diante de um apático Botafogo.

Até curioso ver o time de Jair, marcado pela vibração na temporada inteira, cedendo espaços e soberbo, tentando administrar o jogo. O elenco alvinegro foi eficiente ao jogar no limite. Ao abandonar essa ideia por uma partida acabou superado. Um alento a Abel. Criticado, o técnico conta com um elenco composto em sua maioria por garotos. Teve de encarar longos períodos de lesão de Scarpa, Gum, Henrique, Sornoza e Wellington Silva. Virou-se com o que tem em mãos. Empresta ao Fluminense dignidade mesmo com o seu drama pessoal ao perder um filho em julho. Não é pouco.

FICHA TÉCNICA:
BOTAFOGO 1X2 FLUMINENSE

Local: Estádio Nilton Santos, o Engenhão
Data: 04 de novembro de 2017
Horário: 19h
Árbitro: Luiz Flávio de Oliveira (SP)
Público e renda:
Cartões amarelos: Arnaldo, Gilson e Victor Luis (BOT) e Sornoza, Marcos Junior, Gustavo Scarpa e Wendel (FLU)
Gols: Marcos Vinícius (BOT), a um minuto do primeiro tempo e Marcos Junior (FLU), aos 15 minutos do segundo tempo e Matheus Alessandro (FLU), aos 42 minutos do segundo tempo

BOTAFOGO: Gatito Fernández; Arnaldo, Carli, Igor Rabello e Victor Luis; Bruno Silva, Rodrigo Lindoso, Matheus Fernandes e Rodrigo Pimpão (Guilherme, 21’/2T); Marcos Vinícius (Gilson, 13’/2T) e Brenner (Vinicius Tanque, 28’/2T)
Técnico: Jair Ventura

FLUMINENSE: Diego Cavalieri; Mateus Noron, Renato Chaves, Henrique e Marlon; Richard (Matheus Alessandro, 35’/2T), Douglas e Sornoza (Wendel, 24’/2T); Gustavo Scarpa, Marcos Junior (Wellington Silva, 28’/2T) e Henrique Dourado
Técnico: Abel Braga