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Na sacada de Zé Ricardo, a eletrizante classificação do Vasco diante do Fluminense

Fabrício Vasco gol Carioca 2018 semifinal

(Flickr / Vasco)

Fabrício Vasco gol Carioca 2018 semifinal

(Flickr / Vasco)

O chute cruzado estufa a rede e faz a arquibancada explodir. O lateral, autor do gol, sai meio sem direção no gramado querendo atropelar o vazio. Não há destino. Torcedores se abraçam ensandecidos, levam as mãos às cabeças. Choram. Berram. Gritam. Vibram. Uma hecatombe de emoções ali, a céu aberto, que faz desafiar quem acha ser aquilo tudo algo menor. É Estadual. Mas vale. Ô se vale. Vale nos botecos, nas esquinas, nos colégios, nas praias, nas padarias. No coração. Na alma. É futebol em estado puro. Um eletrizante 3 a 2 do Vasco sobre o Fluminense, virado e revirado nos acréscimos. Não há muito como explicar. Apenas sentir. Viver. Quem no raso da ignorância, através da Dutra, não entende, apenas debocha. Há de se ter pena. Futebol se encarna assim. Vive-se assim. De grandes pequenos momentos a pequenos grandes momentos. Em uma explosão só.

Em uma cidade ameaçada pela violência e pouco convidativa a atividades de lazer noturnas, o futebol tenta em insistir como resistência. Abre ali espaço para receber correntes distintas que marcham com a fé de que o feriado será animado com a garantia de uma das vagas na final. Quase 22 mil torcedores entre tricolores e vascaínos estiveram no Maracanã para desafiar a selva carioca. E dizer que vale. Foram agraciados com um jogo que teve um bom duelo tático, eletrizante, embora a parte técnica não seja dos tempos de ouro. Mas houve Paulinho, houve Sornoza. Houve futebol no Maracanã. E houve, de novo, a corrente irregularidade que tem marcado o futebol carioca e, dentro de campo, o torna até mais atrativo. Não há um domínio óbvio, como observado um dia antes, com a classificação do Botafogo sobre o badalado Flamengo. No Rio, bastam três dias para inverter a gangorra da felicidade.

Flu no início: alas à frente

Após atropelar o Botafogo com uma atuação muito eficiente, o Fluminense levantou a Taça Rio e pisou no Maracanã na semifinal com a simples necessidade de um empate. Mas não se entrincheirou logo de saída. Manteve o 3-4-3 dos últimos jogos, com os alas mais liberados para o jogo. Gilberto e Ayrton Lucas tentavam sair com fluidez pelos lados, Sonorza fazendo a bola girar e Marcos Júnior mais à frente, com movimentação intensa. Jadson tentava dar as escapadas pela direita como no último domingo. Mas o Vasco foi inteligente. Atacou o Tricolor para se defender dos avanços mortais dos alas.

Zé Ricardo mandou o time a campo no 4-2-3-1 de sempre, defendendo-se no 4-4-2. Giovanni Augusto, a novidade, centralizado, com Wagner e Pikachu pelos lados. Rafael Galhardo fazia a lateral direita, Fabrício a esquerda. E o time passou a forçar o jogo justamente pelo lado direito. Pikachu avançava e tinha o apoio de Wellington, sempre subindo para infiltrar à área. A tática dava certo: Ayrton Lucas teve de medir os avanços e Ibañez evitou se transformar em volante quando o time de Abel atacava. O Flu teve certa dificuldade e passou a tentar mais o lado direito. Jadson, porém, passou a ter dúvidas para se desgarrar e rumar ao ataque.

Vasco no início: 4-2-3-1 com G.Augusto centralizado, Pikachu na ponta

Em uma inversão de Pikachu pela esquerda, Desábato o encontrou. O toque rápido do lateral entre as pernas de Richard deixou um clarão para tocar ao meio da área. Renato Chaves rebateu muito mal e Giovanni Augusto, em chute rasteiro, deu a vantagem ao Vasco. 1 a 0 com 24 minutos. A desvantagem pôs o Fluminense a tentar empurrar ainda mais o Vasco à defesa. Havia espaços. Fabrício, em noite ruim, tentou dar o bote na frente e não conseguiu parar Gilberto pela direita de ataque tricolor. O ala entrou na área e rolou para trás para Pedro completar e marcar seu sétimo gol em 2018. 1 a 1. Um fim de primeiro tempo com o Vasco mais desatento, cedendo espaços. Bem tricolor.

Estratégia que se repetiu no início da segunda etapa. Novamente, Abel liberou seus alas. Gilberto, à vontade, avançou ao meio e foi derrubado por Rafael Galhardo. Na cobrança de Sornoza, a barreira traiu Martín Silva e se abriu. A bola ainda beijou o pé da trave antes de fazer o lado tricolor explodir. Um jogo à feição do Fluminense. Um gol de vantagem, necessidade apenas do empate. Vaga encaminhada de forma precoce. Ledo engano. Assim que Sornoza perdeu grande chance em contra-ataque, chutando colocado por cima da meta, Zé Ricardo começou a dar as caras na partida. Sacou Wagner e Galhardo para colocar Paulinho e Andrés Ríos. Fez Riascos ter companhia na área e o garoto-prodígio da Colina ocupar a esquerda e cair para o meio, contando com o apoio de Wellington. Estratégia interessante. Mesmo necessitando do resultado, o Vasco não buscou os lados. Concentrou-se pelo meio. Sem cruzamentos, com toques rápidos.

O Fluminense passou a aceitar o jogo vascaíno. Cercava, sem apertar a troca de passes. E aí coube um lance de genialidade de Paulinho para recolocar o Vasco no jogo. Tabela rápida com Wellington, o garoto se pôs de frente para o gol e cobrou com uma categoria de gente muito grande. Cabeça erguida, chapa na criança no canto direito. Avisa lá que vale. Júlio César, surpreendido, tentou apenas o golpe de vista. A bola morreu dentro da rede e tornou o clássico eletrizante. 2 a 2. O Fluminense elétrico, incansável da partida contra o Botafogo, não tinha a mesma pegada. Foi mais relaxado. Não esfriou o jogo. Contribuiu para deixá-lo ainda mais quente, acompanhando a fervura da arquibancada. Circo ao povo.

Flu ao fim: fechado, mas sem reter a bola no ataque, acelerando o jogo

Marlon entrou na vaga de Marcos Júnior e ocupou a ala esquerda. Ayrton Lucas ficou mais à frente, caindo por dentro. O Fluminense já se armava no 5-4-1 eficiente utilizado em meio aos últimos jogos. Parecia valorizar o empate e abraçar o regulamento. Mas teve rompantes de inexperiência. Pablo Dyego na vaga de Pedro indicou um time veloz para o contra-ataque. Não procurou manter a posse, prender a bola no ataque. Assim que a tinha em seus pés, principalmente com Ayrton Lucas e Pablo Dyego, o time de Abel acelerava o jogo. Corria ou arriscava passes. Zé Ricardo tinha percebido um jogo aberto. Tentou igualar a balança. E arriscou de forma muito inteligente.

Sacou Paulão e pôs Thiago Galhardo. Na prática, Desábato recuou à defesa junto de Fabrício. Erazo centralizado. À frente do trio, Wellington. Pikachu e Paulinho ocupavam as pontas, com Thiago Galhardo e Giovanni Augusto pelo meio. Com os dois atacantes na área, o Vasco mostrou que buscaria a vitória a todo custo com uma blitz. Ao não reter a bola no ataque, o Fluminense tinha muito dificuldades em encaixar a marcação. Apenas Desábato e Erazo marcavam posição no campo defensivo. Fabrício disparava pela esquerda. A eletricidade do jogo era visível. Valia muito.

Ao fim, a sacada de Zé: três defensores e blitz pela vaga

Martín Silva ainda fez boa defesa em chute de Pablo Dyego e Júlio César fez o mesmo em chute seco de Paulinho. Um jogo aberto, fraco, com técnicos lançando suas cartadas. Inquieto, o Fluminense rifava a bola em vez de mantê-la nos pés. Marlon deu um chutão à frente. Na volta, Richard deu um senhor pontapé em Giovanni Augusto. Destempero que custaria caro. O lançamento de Desábato ainda do campo de defesa encontrou a cabeça de Andrés Ríos. A casquinha para a área chegou a Riascos. Ele tentou dar sequência de cabeça, mas a bola resvalou na defesa e sobrou limpa para Fabrício pela esquerda. Quase sem ângulo, o lateral apostou no chute. Júlio César esperava o cruzamento. A rede estufada bateu na alma vascaína. Por um segundo, o mundo ficou suspenso. E a explosão fez real o 3 a 2 e a vaga na final.

Atordoados, os tricolores reclamam de um lateral mal assinalado aos vascaínos antes do gol. Era tarde. Ao deixar a eletricidade rival contaminar o jogo, os tricolores abriram a possibilidade de perder a vaga. Naquela irregularidade típica carioca. Quem ri hoje, chora amanhã. Ao Fluminense cabe a preocupação de entender o porquê de o sistema defensivo não ter se mostrado tão confiável em mais um mata-mata após dar bons sinais diante de Flamengo e Botafogo. Foi mais uma vez frágil. Desta vez por cima, o Vasco entra na final com moral elevado, mas além disso: Zé Ricardo demonstra conhecer cada vez melhor o elenco. Mudou o sistema do time dentro do jogo de forma organizada, sem simplesmente empilhar atacantes, tática recorrente em seu final melancólico em sua passagem pelo Flamengo. Viveu-se, então, uma noite elétrica, com viradas, gol nos acréscimos e explosão na arquibancada. Há quem insista em não compreender. Prende-se a pormenores. Mas um clássico eletrizante, por vezes, é o que vale no futebol. Ô se vale.

FICHA TÉCNICA
FLUMINENSE 2X3 VASCO

Local: Maracanã
Data: 29 de março de 2018
Horário: 21h
Árbitro:
Público e renda: 18.999 pagantes / 21.788 presentes / R$ 580.325,00
Cartões Amarelos: Renato Chaves, Marcos Junior, Ibañez e Richard, Pablo Dyego (FLU) e Riascos, Wellington, Rafael Galhardo, Paulão, Fabrício, Erazo e Martín Silva (VAS)
Gols: Giovanni Augusto (VAS), aos 24 minutos e Pedro (FLU), aos 38 minutos do primeiro tempo e Sornoza (FLU), aos três minutos e Paulinho (VAS), aos 24 minutos e Fabrício (VAS), aos 48 minutos do segundo tempo

FLUMINENSE: Júlio César; Renato Chaves, Gum e Ibañez; Gilberto, Richard, Jadson e Ayrton Lucas; Sornoza (Douglas, 38’/2T), Marcos Junior (Marlon, 30’/2T) e Pedro (Pablo Dyego, 38’/2T)
Técnico: Abel Braga

VASCO: Martín Silva; Rafael Galhardo (Andrés Ríos, 10’/2T), Paulão (Thiago Galhardo, 35’/2T), Erazo e Fabrício; Desábato e Wellington; Yago Pikachu, Giovanni Augusto e Wagner (Paulinho, 10’/2T); Riascos
Técnico: Zé Ricardo