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No rolar dos dados, outro vexame: de novo, o Flamengo se apequenou na Libertadores

Rafael Vaz Flamengo San Lorenzo Libertadores 2017

Rafael Vaz Flamengo San Lorenzo Libertadores 2017

De novo, o Flamengo encolheu. Não apenas em campo, dando espaços e caminhando de costas em direção à própria área conforme os minutos passavam no Nuevo Gasometro, em Buenos Aires. O Flamengo encolheu moralmente em uma Libertadores mais uma vez. Sentiu-se pequeno apesar de todo o tamanho que tem. Deixou a vaga para as oitavas de final da competição sul-americana ser decidida num rolar de dados. Eram nove combinações possíveis. Apenas uma o eliminaria. Nos minutos finais, os dados ficaram enormes. O Flamengo, de novo, minúsculo em uma Libertadores. Aos 47 minutos do segundo tempo, Belluschi consumou a virada do San Lorenzo em 2 a 1 e o novo vexame rubro-negro. Mas não se constroi vexame em um jogo só. Passado e presente se unem. Há uma conjução de fatores que devem ser levados à frente para reflexão.

Flamengo no primeiro tempo: 4-2-3-1

Seria insensato e injusto bradar agora por uma demissão de Zé Ricardo. O técnico tem o melhor trabalho no comando do Flamengo em anos. É consistente. Mas em uma partida decisiva a insistência em peças de segurança custou caro. Lá foi o time com o tradicional 4-2-3-1 a campo, com Gabriel centralizado. Era até surpreendente. Sempre que utilizado sem Diego, o esquema foi pouco efetivo. O camisa 17 não cria e se perde na movimentação do meio, buscando as pontas e trombando com Everton ou Berrío. Natural que a pressão inicial fosse do San Lorenzo. Time da casa, precisando de uma vitória simples para garantir a vaga. Seria até estratégico aceitar a pressão para buscar o contra-ataque.

Postado em um 4-4-2, a equipe de Diego Aguirre invariavelmente trabalhava com o trio Ortigoza, Belluschi e Cerutti. Forçava o jogo pela direita, nas costas de Trauco, principalmente, buscando o jogo aéreo. Até então, em 18 gols em 2017, o Flamengo sofrera oito de cabeça. Por isso, o San Lorenzo girava ao redor da área buscando faltas. Velha estratégia em jogos decisivos sul-americanos. Invariavelmente, os jogadores rubro-negros aceitavam o jogo argentino, em que pese a arbitragem caseira do paraguaio Enersto Caceres. Em um contra-ataque, no entanto, tudo parecia resolvido.

Everton tentou tabela com Guerrero, mas a jogada acabou em escanteio. Na cobrança do próprio Everton, a zaga desviou e na entrada da área, Rodinei bateu de primeira no cantinho direito de Navarro. 1 a 0. Ânimos mais calmos, o Flamengo tentou impor seu jogo de toque de bola, giro. Conseguiu por alguns minutos. Já na metade final da primeira etapa, mostrou um caráter quase inédito na temporada: abdicou do jogo. Chamou o San Lorenzo para o baile, a cercar sua área e alçar bolas. Desistiu da criação. Berrío, na direita, não acertava a passada e muito menos os domínios de bola.

Arão, válvula de escape para levar o time ao ataque, errava passes ao dar o primeiro combate sem o mínimo posicionamento. Dos três jogos fora de casa na Libertadores, aquele já era o pior desempenho. O San Lorenzo teve 57% de posse, finalizou seis vezes, cruzou 23 bolas na área e sofreu 12 faltas antes do intervalo. Apesar da vitória parcial, tudo indicava que o Flamengo colocava em risco a vaga. De novo, ensaiava se apequenar em um momento decisivo da Libertadores, algo que transcende o time. É, atualmente, uma característica inerente ao clube. O segundo tempo, diante disso, seria ainda pior.

Nada mudou. Aguirre continuou a apostar no seu jogo que começava em Ortigoza, ia até Belluschi e a uma das pontas, em busca da bola alçada ou falta cavada. O Flamengo era cercado. Zé Ricardo demorou a mexer. No banco, as opções eram mais escassas. Mancuello, acostumado a disputar partidas no campo do San Lorenzo, nem relacionado estava, por exemplo. Romulo, sem jogar há 17 dias, foi opção para a vaga do inoperante Berrío numa tentativa de controlar o jogo. O Flamengo se fechava em um 4-1-4-1. Mas sem velocidade dos lados, com Gabriel ou Everton.

Guerrero, solitário, disputava bolas e apanhava no comando do ataque, sem ter com quem tabelar. O Flamengo dominante das outras partidas na Libertadores era apenas um retrato na parede. Um time irreconhecível, que não desejava jogar. Preferia, sim, o fim do jogo desesperadamente. Os dados, então, rolaram.

Zé Ricardo tirou Gabriel e colocou Matheus Sávio em campo. Aguirre sacou Cerutti e promoveu a entrada do baixinho Barrios. Seriam, ambos, protagonistas em um minuto. Sem Pará, suspenso, o Flamengo tinha Rodinei, naturalmente mais ofensivo. Os espaços existiam. Por ali, Matheus Sávio tentou ajudar a marcação. Mas, garoto, foi ingênuo em um jogo de gente grande. Tentou cavadinha por cima de Barrios no desarme.

Acabou dando um passe para o próprio jogador cruzar de primeira. A bola viajou toda a área, passou pela zaga e Trauco não acompanhou Angeleri, que cabeceou sozinho na segunda trave. 1 a 1. No mesmo instante, o Atlético-PR passara à frente da Católica no Chile. Flamengo a um gol da eliminação.

Seria, então, o momento de superar a organização e, ao menos, ter alma em campo, como na partida com a Universidad Católica no Maracanã. Guerrear pela Libertadores. Mas há uma força estranha na competição quando se trata de Flamengo. Uma nuvem de fracasso que se agiganta e asfixia. Dominante, de gosto pelo passe, o time rubro-negro definitivamente se apequenou ao mostrar um abatimento em campo. Cedeu mais espaço ao San Lorenzo. Clamava, gritava pelo fim do jogo. Parecia certo de que não teria forças. Não teve, mesmo.

À essa altura já não havia mais organização. Era um jogo de ataque contra defesa, de bolas alçadas. De coração. Faltava algo ao Flamengo, de novo. O relógio andava para frente, a equipe de Zé Ricardo caminhava, literalmente, para trás. Com o gol de Carlos Alberto no Chile e a vitória do Atlético-PR, o vexame estava pavimentado. Na defesa milagrosa de Muralha aos 44 minutos, na cabeçada de Caruzzo, também. Com três zagueiros, já que Juan entrara na vaga de Everton, o Flamengo, pequenino, parecia saber de seu desfecho. Estava encurralado com uma presa fácil.

Fla no fim: amontoado à espera do apito

Já vivera tudo aquilo em 2002, 2012 e 2014. Com a viagem da bola para a área, Matheus Sávio não conseguiu afastar e ela, serelepe, se ofereceu para Belluschi, que a matou no peito e bateu cruzado. Golpe fatal. 2 a 1. De novo, o Flamengo desaba na primeira fase da Libertadores. Permitiu 50 bolas alçadas em sua área. Um vexame construído em três capítulos, não apenas no derradeiro. Foram três vitórias em casa e nenhuma além de seus domínios. Um domínio extenso nos jogos contra a Universidad Católica e o Atlético-PR, mas sem aproveitar as oportunidades. Não soube matar os jogos que se ofereceram. Traiçoeira, a Libertadores cobrou a conta no fim. De novo, o Flamengo caiu. De novo se apequenou. Hora de refletir.

Com um elenco caro, investimento altíssimo, Zé Ricardo poderia ter utilizado peças como Mancuello, Cuellar, Vizeu e, neste jogo derradeiro, Ederson. Preferiu as peças de segurança como Gabriel e Damião – ambos perderam gols fáceis na Arena da Baixada, por exemplo. Se ousou em outros momentos para compensar o desfalque de Diego, desta vez permitiu o time o recuo no momento mais decisivo da temporada. Em Buenos Aires, o Flamengo não jogou. E sofreu um baque.

No chacoalhar das consequências que certamente chegarão dentro e fora do Ninho, resta saber o comportamento do elenco no seguir da temporada. É provável que o impacto reverbere nas atuações. A confiança, em alta depois da conquista do Carioca, se dissipou. A linha no futebol é mesmo tênue. Há um bom trabalho em andamento, mas, de novo, o Flamengo derrapou em erros parecidos do passado, quando podia culpar ausências de estrutura e investimento. Hoje, não pode mais.

Ao presidente Bandeira de Mello resta dividir funções, nomear um vice de futebol para promover o diálogo com o diretor Rodrigo Caetano e cobrar ambos sobre o investimento. Seria saudável, também, tentar resolver, de vez, o apego ao passado: o Flamengo teve uma geração fantástica que conquistou a América do Sul em 1981. Mas foi exceção. Em regra geral, o clube rubro-negro se comporta em Libertadores como se viu mais uma vez em Buenos Aires. É reconhecer e tentar entender o porquê. Em campos sul-americanos, o Clube de Regatas do Flamengo, mesmo tão grande, insiste em se apequenar.

FICHA TÉCNICA:
SAN LORENZO 2X1 FLAMENGO

Local: Nuevo Gasometro, em Buenos Aires (ARG)
Data: 17 de maio de 2017
Horário: 21h45
Árbitro: Ernesto Caceres (PAR)
Cartões amarelos: Belluschi e Paulo Díaz (SAN) e Alex Muralha e Rodidnei (FLA)
Gols: Rodinei (FLA), aos 13 minutos do primeiro tempo e Angeleri (SAN), aos 29 minutos e Belluschi, aos 47 minutos do segundo tempo.

SAN LORENZO: Navarro; Paulo Díaz (Bergessio, 42’/2T), Angeleri, Caruzzo e Gabriel Rojas; Ortigoza, Mussis, Belluschi e Botta; Cerutti (Barrios, 25’/2T) e Blandi
Técnico: Diego Aguirre

FLAMENGO: Alex Muralha; Pará, Rever, Rafael Vaz e Trauco; Márcio Araújo e Willian Arão; Berrío (Romulo, 14’/2T), Gabriel (Matheus Sávio, 28’/2T) e Everton (Juan, 42’/2T); Guerrero
Técnico: Zé Ricardo

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