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O Bairrista

Não gostava de estar ali. Do sotaque das pessoas andando sorridentes pela redação ao jeito mais despachado de encarar a vida e o ofício. Transferia o desprezo para os clubes locais. Não gostava de nenhum deles. Acreditava piamente que as agremiações tradicionais de sua cidade eram superiores, dominantes. E trabalhava para deixá-los assim. Acreditava ter papel relevante nessa briga. Tentava, porém, manter as aparências. O salário conquistado na empresa era bom, assim como o cargo. A duras penas.

Intimamente, sabia que não tinha qualificação alguma para estar na função. Mas se tinha uma grande vantagem na vida era saber como adular os mais poderosos. Se fizessem um raio-x do chefe, diziam os recantos da redação, ele apareceria no lugar da cueca. Apesar disso, não se importava em ser chamado de bairrista inúmeras vezes. Era um de seus apelidos. O Bairrista. Ele, quando sozinho, ria. Sabia que de fato era. Distorcia os fatos da maneira mais fácil a construir a narrativa favorável aos seus clubes. A ética que ardesse nas labaredas.

Trabalhava nos bastidores para convencer seus comandados de maneira quase sutil, embora sempre houvesse quem compartilhasse espontaneamente com seus ideais distorcidos, talvez não por má-fé, mas por uma criação de mente limitada, provinciana. Quase uma telepatia do gosto pelo caminho no mínimo duvidoso. Nisso, era eficiente. Uma diabólica falta de caráter. A programação em rádio e tv fazia sucesso no seu estado. Fora era um desastre. A rejeição crescia.

Mas também era muito detestado. Na sucursal, todos o odiavam por saber de seu trabalho contra o jornalismo local. Era, também, culpado por um desmanche de um premiado programa de maior profundidade, equilibrado em análises. Preferia a galhofa. Um estupro no jornalismo esportivo. Também por isso detestava viajar a cada duas semanas na ponte aérea para fazer uma simples supervisão. Por ele, acabariam com tudo. Permaneceriam apenas com a matriz. Parte da estrutura, no entanto, ele já tinha conseguido derrubar, apesar da imagem arranhada da empresa no outro lado da ponte aérea. Como bom servo, cumpria as determinações necessárias para se manter no cargo. Tudo para sobreviver.

Aos 42 anos, Cláudio Affare, o Bairrista, pouco se importava com tudo isso. Claramente acima do peso, com um rosto bonachudo, sentava sempre na mesma cadeira quando permanecia na matriz. Exalava preguiça. Mas era patronal até o fundo da alma. Defendia seus chefes e tinha carta branca para realizar o trabalho sujo. Com o rotundo traseiro arrochado no assento seboso, ele se deliciava nas redes sociais. Bolava provocações mirabolantes aos clubes do estado rival. Pedia aos asseclas que levantassem a bola para cortadas de integrante de seu time do coração, especialmente. E esvaziava o espaço do outro estado.

“Eles vão ficar loucos com essa. É divertido pra caralho provocar esses malas. Toda hora. E a audiência ainda sobe”, gargalhava Affare, entre uma mordiscada e outra numa pizza recheada que pingava oléo na cadeira.

Sua estagiária, Janaína Bordalo, dava um sorriso amarelo sempre que se deparava com a cena. Já tinha viajado algumas vezes com o chefe para a cidade da sucursal e via o asco com os clubes de lá transparecer das entranhas de Affare. Profissional dedicada, ficava internamente horrorizada. Gostava de futebol e achava que o tratamento deveria ser, no mínimo, igual. Mesmo que por questões comerciais os times da matriz tivessem mais espaço. No início, não entendeu como aquele profissional fracassado tinha chegado ao cargo. Passagem apagada por uma rádio, outros anos no jornal de matriz na na Rua São Ramos, 337. Nenhum destaque, algo relevante. Era medíocre. Bastou um mês a Janaína, no entanto, para entender que bajular a chefia era o dom que o fazia sobreviver.

Ultimamente, achava o chefe irritadiço. Nem mesmo comentava sobre alguns hobbies preferidos, como fotografar a área da redação com um drone recém-comprado. Dizia curtir a fotografia. Mas um dos clubes da cidade da surcursal vivia um período de transformação, cumpria ótima recuperação financeira e ameaçava o domínio das equipes da cidade da matriz. Seus posts em redes sociais tentavam causar irritação dos torcedores. Alfinetadas baratas. Contra os clubes daquele estado maldito, pensava ele, distorcer a abordagem dos fatos era obrigação. Mesmo que se prestasse a um papel ridículo. Era apenas o primeiro passo de um processo meticuloso de fabricar o modo de entrega da notícia.

“No fundo, idiotas, a gente toca a banda no nosso ritmo”, dizia Affare, para si próprio.

Amargo, carregava consigo um pasta na qual colecionava poeminhas de uma qualidade sofrível. Mas achava que tinha vocação. Colocava seu “dom” à prova sempre nas viagens de avião a cada 15 dias. Quando avistava as águas da terra da sucursal desandava a rabiscar no caderninho.

“Ó, Purgatório desalmado

Terra imunda, dada pelo caos

Os teus clubes em meio ao relvado

Hão de virar pó nos telejornais”

E ria. Achava genial, apesar do desastre que era a olhos alheios. Divertia-se sozinho. E logo voltou à realidade. Estava novamente rumo àquela cidade detestável, litorânea, com gente sorridente até demais. O clube em franca recuperação decidiria a copa nacional naquela noite. O ódio quase o cegara por dias. As aparições mais restritas em redes sociais, estratégia para preservar a imagem de isento, se tornaram contínuas na última semana. Sempre com uma provocação, um link de um material questionador sobre a capacidade de o clube ser autossustentável. Mandava indiretas. Era sua função. Afinal, ele era o Bairrista.

Ao chegar ao estádio para cumprir seu ofício, passou pela massa ensadecida com a possibilidade do título. Estava ali, incógnito em sua mediocriade, mas pensou com quantos ali já teria discutido. De quantos já haveria debochado? Não importava. Mereciam. Na infância, a avó, em sua cadeira de balanço, sempre sibilava cantigas antes de dormir. No fim, soltava uma piada contra os rivais daquela cidade. Affare nunca entendeu bem a razão de ter de incitar a rivalidade besta, ser bairrista. Mas seguia a cartilha da vovó que era compartilhada por alguns poucos no bairro de imigrantes.

Na tribuna de imprensa, controlava a transmissão. Dava mais espaço ao clube visitante, de um terceiro estado. Era a esperança de tentar interferir no ambiente dos mandantes. Procurava um furo para desestabilizá-los. Aquela chacoalhada. Mas lhe faltava qualidade. Sabia, mesmo, maquiar o trabalho alheio, ainda que originalmente tivesse sido bem feito. Sempre o viés bairrista. Interferia em títulos, chamadas. Passou a decisão provocando os torcedores daquele estado na rede social. Posts sem mínimo de bom senso, apenas para espezinhar. Sabia que o pênalti não marcado era um escândalo. Para irritar, ele tinha plena consciência, não precisava de muito. Bastava escrever “sem interferência alguma da arbitragem”. Era baixo. E as respostas eram revoltadíssimas.

Cansada de tudo, Janaína acompanhava o desempenhar do rechonchudo chefe também da tribuna de imprensa. Sabia do seu modus operandi. Mas desta vez ele não sairia incógnito. Não se esconderia ali no mundo virtual. Assim que o atacante do time da casa, aquele odiado pelo Bairrista, fizera o segundo gol e taça estava garantida, Jana se levantou. Olhou a expressão de desespero do Bairrista, que postava: “título com ajudinha”. Deu alguns passos próximo ao chefe e berrou, fingindo precisar de ajuda. Sabia que seria eficaz.

“CLÁUDIO AFFARE, OU! AQUI!”.

Affare olhou para ela, assim como grande parte dos torcedores que já se encaminhavam para a saída. O Bairrista foi cercado. Xingado. E correu para não ser agredido. Tinha passado da conta. Refugiou-se dentro de um estúdio de rádio. O vídeo da corrida, com a bunda rotunda tremendo como um bumbo, viralizou pelas redes sociais. Foi ridicularizado. De volta à matriz, não levou uma chamada sequer dos superiores. Foi basicamente ignorado. Após morder mais uma fatia da pizza gordurosa, Affare sorriu diante da tela do computador. A confusão no estádio já tinha três meses. Continuava a agir nos bastidores. A interferir com seu viés deturpado. A ignorar qualquer bom senso e fazer provocações baratas. Sentia-se um vitorioso. Mas era, no fundo, apenas um bairrista fracassado.

  • Ciro Pellegrini

    Imprensa de SP X Flamengo