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O editor perfeccionista e o público a dedo de Xaropinho

Redação

A redação esportiva ainda estava vazia naquela manhã de segunda-feira. O dia era quente, os repórteres ainda estavam espalhados pelos clubes na cidade, funcionários de limpeza trabalhavam de mesa e mesa entre um ou outro estagiário sonolento que olhava para a tela do computador. No centro estava o mesão, apelido da grande e espaçosa mesa na qual se concentravam os editores da publicação, um espaço para cinco ou seis computadores. Era a Távola Redonda do diário localizado no número 337 da rua São Ramos, no centro do Rio de Janeiro.

Sentado no mesão, um sujeito magro, de óculos e com cabelo um tanto quanto seboso bufava alto. Aos 54 anos, Afrânio Sampaio Moscoso era conhecido por ser um editor feroz, capaz de identificar um erro na primeira passada de olho na edição do dia. Era temido pelos estagiários pelo temperamento explosivo e desprezado pelos repórteres mais velhos pela teimosia. Naquele dia, ele estava particulamente irritado. Lia que o Vasco, que vencera o Volta Redonda no dia anterior com um gol aos 52 minutos da segunda etapa, tinha declarado, pela quinta vez consecutiva, um público de 18 mil pessoas no estádio.

Desconfiado como sempre, Afrânio observara as imagens do estádio. Garantia não chegar a dez mil pessoas, mesmo com enorme boa vontade. Estava, portanto, determinado a acabar com o que chamava de fraude. Em seu íntimo, Afrânio Sampaio Moscoso já imaginava a capa do jornal rasgando a verdade na cara daqueles que duvidaram de sua capacidade de observação.

“Xarope, venha aqui”, vociferou o editor para um estagiário no canto da redação, entretido no que parecia ser uma refeição com fandangos e sprite.

Davi tinha 20 anos, entrara na empresa seis meses antes e cumpria o turno da manhã na redação. Brincalhão, gostava de olhar para a tv e, durante uma partida, exclamar “Rapaaaaaaaaz” bem alto. Não demorou, claro, a ser apelidado com o nome do mascote do apresentador Ratinho. Ainda se limpando dos farelos de fandangos na roupa, Xaropinho chegou trotando ao mesão.

“Xarope, deixe essa má alimentação de lado. Preciso de você. Preciso agora. Ééééééé, vamos desmacarar uma fraude!”, disse Afrânio.

“Mas que fraude, seu Ascânio?”, enrolou-se Davi Xaropinho.

“É AFRÂNIO, IGNÓBIL!, berrou o editor, para em seguida completar.

“Muito bem, tenho uma função para você. Você vai analisar os jogos do Vasco neste ano em São Januário. Imagem por imagem. Está acompanhando? Depois disso, éééééé….você simplesmente vai contar todos os torcedores que estão no estádio e definir o público”, disse Afrânio.

Xaropinho tinha uma fama um tanto preguiçosa, o que se devia ao fato de sempre dormir tarde e odiar acordar cedo. Mas as palavras do editor funcionaram como cafeína em seu organismo. Contar o público de um jogo através de imagens? Torcedor por torcedor? A chefia devia estar completamente louca.

“Contar os torcedores, Afrânio? Mas isso é impossível”, devolveu o estagiário.

“Jamais! Vá lá pra sua mesa. Avisarei a todos que sua tarefa da semana é essa. Jogo por jogo, torcedor por torcedor, imagem por imagem. Veremos se a média de 18 mil por jogo está certa”, disparou Afrânio.

Davi voltou à mesa xingando o editor de todas as maneiras. Em pensamento, claro. Odiava a maneira como o magricela tratava os subalternos. E a tarefa que lhe fora designada era completamente impossível. Mas Xaropinho era maroto. O riso de canto de boca denunciava a malícia de quem se acha mais esperto do que o mundo.

Todas as manhãs da semana ficou em seu canto, sem se dirigir ao mesão. A história correu pela redação. O Xaropinho estava lá, contando jogo por jogo, analisando cada imagem do jogo do Vasco. No início da tarde de sexta, ele levanta, triunfal, e caminha com um papel até a mesa de Afrânio. O editor o aguarda com aquele olhar de ave rapina pronto para abater a presa.

“Então, chefe. Consegui. São 12 mil pessoas por jogo”, disse Xaropinho.

Exultante, Afrânio sorriu, ajeitou o cabelo seboso e indagou:

“Ééééééé, e como você chegou a esse número?”, perguntou Afrânio.

“Simples, seu Afrânio. Eu deixei as imagens rolando, mas de vez em quando a torcida fazia uma ola na arquibancada. Alguns se levantavam, outros não. Contei, recontei. Tinha gente que foi ao banheiro. Então, dois pra lá, dois pra cá, deu 12.500”, disse Xarope diante de Afrânio e de outros incrédulos editores, que já haviam alertado ao veterano que a empreitada era impossível.

No fim, Afrânio deu o braço a torcer, admitiu que era mesmo impossível conferir o público de um jogo por meio de fotos e vídeos. Desistiu da ideia, ainda que a todo jogo suas bufadas ao olhar para a tv fosse ouvidas por toda a redação. Xaropinho, por sua vez, levou uma semana de gancho pela petulância. E, no retorno, foi proibido de comer guloseimas dentro da redação, limitado apenas à cantina que continha preços quase extorsivos.

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