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Na consistência de Zé Ricardo, o transformar do Flamengo

Zé Ricardo Flamengo 2017

Zé Ricardo Flamengo 2017

Daqui a 25 dias, Zé Ricardo irá completar um ano no comando técnico do Flamengo. Em um futebol tão conturbado como o brasileiro, onde cabeças de técnico são dadas a prêmio semanalmente, é um feito. Ainda mais para um profissional que deixou as divisões de base e partiu sem escalas para um desafio gigante. José Ricardo Mannarino, 45 anos, fala mansa e decisões firmes, trabalha tijolo a tijolo na construção de um Flamengo raro. Um Flamengo consistente, linear, sem sobressaltos. Para cima ou para baixo. Um trabalho incrivelmente maduro para um técnico recém-chegado a um elenco profissional.

Não é fácil lidar com um vestiário com jogadores pesados como Guerrero ou Diego. Zé conseguiu tornar tudo natural. O reflexo é visto facilmente nos números. São 63 jogos, com 36 vitórias, 16 empates e 11 derrotas. O aproveitamento de 65% é o maior do clube desde a passagem de Andrade, campeão brasileiro em 2009, com 69,2%. Ainda assim, o Tromba não completou um ano no comando, chegou apenas a 51 jogos e viveu uma enorme irregularidade, que acabou lhe custando o cargo em 2010. Zé Ricardo, não.

Nos últimos oito meses, sua equipe foi derrotada apenas três vezes. Todas pela diferença mínima de um gol. Está invicta no Carioca e lidera o grupo na Libertadores. Após a segurança no esquema 4-2-3-1 que o levou ao terceiro lugar no Campeonato Brasileiro em 2016, ele amplia o leque discretamente em 2017. Parece não mudar. Mas, sim, muda. Ao seu gosto. Sem alarde, Zé transforma o Flamengo e mantém a competitividade da equipe. Cria alternativas. Adapta-se às dificuldades. No primeiro momento decisivo do ano, suas convicções provaram estar corretas.

No início da temporada, deu ao povo o que ele queria. Romulo chegara, Márcio Araújo rumou ao banco de reservas. Concentrou o jogo no conforto dos volantes, com extensa troca de passes e infiltrações. E girou o elenco. Então, durante o Carioca, a equipe, ainda que com muitos reservas, passou a abusar das bolas aéreas em detrimento ao já tradicional jogo de posse de bola, de pé em pé. Parecia falta de recurso. Uma crise de identidade. O técnico deu de ombros aos burburinhos. E tudo se provou, mesmo, um teste. Tão logo os jogos decisivos de Libertadores e do próprio Carioca chegaram, Zé ordenou a retomada de caminho.

Retornos de posse, girar da bola, domínio do adversário, triangulações. E alternativas. Trauco da lateral para o meio contra o Atlético-PR. Do 4-2-3-1 para o 4-4-2, com Diego mais avançado, jogadores agrupados. Sem o craque, lesionado, mutação ao 4-1-4-1, com Márcio Araújo já restabelecido e Romulo em um retorno natural. Na frente, Guerrero é garçom e artilheiro, na melhor fase desde que chegou ao clube. Graças a um time encaixado. Uma estabilidade rara na história recente rubro-negra. No Flamengo, mesmo os times campeões nos últimos anos beberam muito na fonte de boas fases, mas acabaram incapazes de manter o pique a longo prazo. Justamente por isso, a solidez do Flamengo de Zé Ricardo é o que mais chama atenção.

O time atual é difícil de ser batido. Claro que ainda perde, como ficou comprovado diante de Atlético-PR e Universidad Católica. Não seria, mesmo, insuperável. E perderá mais vezes. Mas até nas derrotas tem demonstrado um bom desempenho. Zé Ricardo, à beira do gramado ou em entrevistas, evita gestuais e berros acima do tom. Uma frieza incorporada pela equipe, capaz de seguir à risca o indicado em momentos decisivos. No primeiro Fla-Flu da final do Carioca, os pontas Berrío e Everton viraram marcadores e o Flamengo chegou a defender com seis jogadores para bloquear o ataque tricolor. Teve sucesso. Contra a Católica no Maracanã, ele sacou da manga Rodinei na ponta direita, um teste que já fizera no primeiro jogo do ano. Nada ao acaso. Controle e ajustes em buracos do elenco.

Com menos de um ano nos profissionais, Zé pode conquistar seu primeiro título já no domingo. Ainda que a taça não venha, a consistência do trabalho permanecerá. Há uma ideia e o time alterna formações em torno dela. Erros existem. A insistência com Gabriel como peça de segurança é um deles. Mas esse Flamengo terá os retornos de Diego e Ederson e a estreia de Conca nos próximos dias. Um elenco que coleciona 16 vitórias, seis empates, duas derrotas, 50 gols pró e 16 contra em 24 partidas no ano. 75% de aproveitamento. Um Flamengo linear. Competitivo. Parrudo. Duro. Graças à consistência de Zé.

Aproveitamento dos técnicos do Flamengo desde o título brasileiro de 2009

Zé Ricardo: 65% (63J 36V 16E 11D)
Muricy Ramalho: 57% (26J 13V 6E 7D)
Oswaldo de Oliveira: 50% (18J 8V 3E 7D)
Cristóvão Borges: 46,2% (18J 8V 1E 9D)
Vanderlei Luxemburgo: 63,8% (59J 34V 11E 14D)
Ney Franco: 14,2% (7J 0V 3E 4D)
Jayme de Almeida: 63,2% (49J 27V 12E 10D)
Mano Menezes: 50% (22J 9V 6E 7D)
Jorginho: 59,5% (14J 7V 4E 3D)
Dorival Júnior: 51,3% (37J 15V 12E 10D)
Joel Santana: 60,2% (31J 17V 5E 9D)
Vanderlei Luxemburgo: 58,1% (86J 39V 33E 14D)
Silas: 30% (10J 1V 6E 3D)
Rogério Lourenço: 45% (20J 7V 6E 7D)
Andrade: 69,2% (51J 32V 10E 9D)

  • Samuel Jr.

    Texto padrão Chute cruzado!👌
    Minha conclusão: um requisito fundamental a um técnico do Flamengo, é conhecê-lo, principalmente os meandros do Flamengo. Como, e o que é o FLAMENGO.

    Abç!

  • bomcontador

    Definiu à perfeição!