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Olhar no espelho e antijogo como rival: Flamengo para no São Paulo

Bruno Henrique Flamengo São Paulo

(Flamengo / Divulgação)

Bruno Henrique Flamengo São Paulo

(Flamengo / Divulgação)

O futebol apresentado pelo Flamengo de Jorge Jesus em tempos recentes foi bem recebido por grande parte da comunidade do futebol brasileiro. Assim como Sampaoli e Renato Gaúcho em Santos e Grêmio, pratica um jogo ofensivo, impositivo, com risco calculado de que para vencer é necessário, por vezes, admitir a possibilidade de flertar com a derrota. Jogar-se ao abismo da ofensividade. Um refrescar de ideias. Causa espanto, então, a contradição em veladas comemorações na mesma comunidade sobre a maneira como o Flamengo acabou parado na noite de sábado no Maracanã pelo São Paulo. É inegável a queda de rendimento, principalmente técnico e físico, do time rubro-negro nas últimas três rodadas do Brasileiro. Mas no confronto diante do Tricolor Paulista seria desonesta uma análise que não passe pela escolha de Fernando Diniz em seu primeiro jogo à frente da equipe: a prática do antijogo como caminho para frear um time mais bem desenvolvido em seu futebol. Não só o Flamengo deve olhar para o espelho e avaliar escolhas e seu próprio elenco: a comunidade do futebol brasileiro deve questionar o motivo de clamar por novas ideias, um jogo mais ofensivo e, ao mesmo tempo, ter celebrado o emperrar do líder do Brasileiro com ideias retrógradas.

Fla no início: laterais pouco criativos, Piris sem saída de bola refinada

É imperativo destacar que a escolha por utilizar a sequência de faltas para interromper a fluidez do jogo rival como feito pelo São Paulo é legítima, embora condenável no campo das ideias e até mesmo moral. Deveria existir, porém, um ônus a essa estratégia: o zelo da arbitragem sobre o jogo, combatendo a prática que levou o Tricolor a atingir 27 faltas na partida. Rafael Traci não o fez. Em péssima noite, o árbitro ignorou outras tantas infrações da equipe visitante e não puniu Gabigol com cartão vermelho após entrada em Daniel Alves. Foi um elemento a contribuir para a discussão do futebol brasileiro com péssimo desempenho. Ser o time mais faltoso contra o Flamengo em todo campeonato, no entanto, não foi o elemento fundamental para o São Paulo ter pontuado no Maracanã. É parte de um pacote. Por que, como dito, o Flamengo caiu em desempenho e teve até chances para vazar a meta de Tiago Volpi. Mas falhou.

Jorge Jesus decidiu poupar três jogadores. Rafinha, Filipe Luís e Gerson foram ao banco de reservas, substituídos por Rodinei, Renê e Piris da Motta. Estratégia a pensar no duelo de quarta, pela Libertadores, contra o Grêmio. Mas fatal no desenvolvimento da equipe. O Flamengo do técnico português atingiu seu alto rendimento justamente com as três contratações do meio do ano. E é fácil entender: o trio é inteligente e responsável pelo iniciar do jogo. Muito do que encantou grande parte do Brasil passa pelos três. Rafinha e Filipe Luís são pensadores. Gerson toma o meio para si. Seus substitutos não têm a mesma característica. O Flamengo, então, foi a campo em um 4-2-3-1, com Arão um pouco à frente de Piris, pela esquerda, Everton Ribeiro centralizado, Bruno Henrique à direita e Arrascaeta à esquerda. Houve dificuldades. Principalmente pelo bom desempenho defensivo do rival.

São Paulo no início: defensivamente organizado e picotando o jogo

Em sua estreia, Fernando Diniz indicou o São Paulo no 4-1-4-1, Luan à frente da defesa, com Tchê Tchê aberto à esquerda, Antony à direita, Hernanes e Daniel Alves por dentro. Repetiu parte da estratégia que por vezes o fez ser bem-sucedido em Fla-Flus nesta temporada: marcação pressionando a saída rival e opção por picotar o jogo insistentemente. O Flamengo é uma equipe que tem a bola e busca definir rapidamente as jogadas. Acelera o jogo, com passes verticais e finalizações objetivas. Ao quebrar o ritmo da equipe, a vantagem são-paulina foi grande. Reinaldo cansou de mandar Everton Ribeiro ao chão. No primeiro acelerar rubro-negro, a travada tricolor era imediata, invariavelmente com falta. Com menos peças para construir o jogo e dar fluidez, o Flamengo tentou se impôr no início na marra. Volume e intensidade. Arão, em ótima noite e onipresente no gramado, quase conseguiu abrir o placar ao receber passe de Gabigol na grande área. Mas Bruno Alves salvou. Juanfran à direita antecipava sempre em Arrascaeta, com pensamento simples e eficaz: reduzir o tempo para o uruguaio reagir ao receber a bola. E, preferencialmente, nem mesmo recebê-la. Ainda asim, Arrascaeta conseguiu achar espaços.

Gabigol, ao sair do centro para a esquerda, recebeu bolas com espaço atrás do lateral espanhol, tão logo ele saía para antecipar em Arrascaeta. Mas o camisa 9, geralmente inteligente nas jogadas, pecou nas escolhas. Assim desperdiçou bom lance ao titubear no cruzamento para um Bruno Henrique frente a frente com Volpi. Havia dificuldades claras, especialmente no setor direito. Por ali, Everton Ribeiro começa a desenvolver seu jogo. Mas não havia diálogo técnico com Rodinei. Enquanto Rafinha ajuda na construção do jogo, o Camisa 2 rompe para a ultrapassagem e utiliza a força física para tentar o combate com o rival. Não levou a melhor sobre Reinaldo e tampouco sobre Arboleda, sempre atento para avançar e quebrar a presença rubro-negra no setor. Na parte defensiva sofreu com Tchê Tchê e Reinaldo por não conseguir fazer a leitura das jogadas. A comparação com Rafinha era inevitável. Assim como a de Piris com Gerson. O paraguaio talvez careça de ritmo de jogo que ainda não teve no Flamengo. Mas obviamente tem dotes técnicos a menos do que o Camisa 8. Faz a saída entre os zagueiros, mas com passes laterais. Pablo Marí, zagueiro, é mais eficaz, com seus passes verticais. Com um São Paulo muito combativo pelo meio – e Daniel Alves ineficaz pelo setor, num vaivém sem sentido ao por vezes acompanhar Pablo à frente, em outras a tentar ocupar espaços por dentro – mas poucos ofensivo, o zero não saiu no placar no primeiro tempo. Pela primeira vez após cinco jogos descia ao vestiário em branco.

Jorge Jesus não hesitou. Entendeu que o jogo travado tinha relação direta com o antijogo são-paulino, mas também pela dificuldade de seus pontos fracos em campo. Sacou Rodinei e Piris, pôs Rafinha e Gerson. O Flamengo, então, voltou ter momentos do time que liderou o Brasileiro após uma sequência arrebatadora de oito vitórias. Além disso: o time pareceu mesmo indicar um 4-1-3-2, com Arão alternando o início do jogo com Gerson e Bruno Henrique saindo da direita para se posicionar à esquerda, bem próximo de Gabigol. Houve um aumento no patamar de jogo ao encharcar o campo rival com tantos jogadores. Voltar a empurrar o rival para a defesa e trocar passes para definir rapidamente a jogada. Por um instante, o São Paulo sentiu o momento perigoso e aumentou a tática de interromper a fluidez com faltas, sempre sob a conivência de Rafael Traci, de atitude arrogante em todo o jogo.

Fla ao fim: ocupando campo rival, ofensivo, mas com falhas técnicas

A postura da defesa da equipe de Fernando Diniz continuava a ser seu ponto alto. Principalmente na leitura dos movimentos do ataque rubro-negro. Bruno Henrique, mal tecnicamente, tentou aplicar velocidade sobre Bruno Alves. Mas o zagueiro são-paulino, em grande noite, conseguiu antecipar qualquer passada do atacante. Arrascaeta continuava a ser vigiado por Juanfran, em alguns momentos posicionado quase como terceiro zagueiro. O Flamengo girava a bola, passava pela intermediária e não encontrava espaços. Ao tentar acelerar o jogo em lances individuais, gerados pela perda de paciência ao tramar um jogo coletivo, foi parado na falta. A última cartada de Jorge Jesus foi completar o time com todos os titulares. Sacou Renê, que fazia boa partida defensiva na cola de Antony, mas pecava na presença ofensiva que se fazia necessária para arrancar a vitória. Filipe Luís entrou em campo e tratou de avançar por dentro, buscando entendimento com Gerson e Arrascaeta. Mas também teve noite abaixo: errou passes de forma usual. Talvez consequência direta de um time que se acostumou a vencer e tinha o relógio, depois de muitos jogos, contra si.

São Paulo ao fim: postura parecida, ainda picotando o jogo

A rigor, o Flamengo criou duas boas chances na etapa final. Uma em entrada de Rafinha pela direita, com chute em cima de Volpi, e outra no gol bem anulado de Arrascaeta após passe de Gabigol. O time titubeava, não encaixava o jogo ou as movimentações como em outras partidas. E pareceu sentir o desgaste físico como nas duas partidas anteriores. Consequência direta foi a dificuldade para pensar as jogadas e execução técnica. São Paulo, além da sequência de faltas, passou a utilizar do expediente da cera, sempre com a conivência de Rafael Traci. Um panorama muito similar ao mesmo confronto no Maracanã em 2018. Um jogo que teve 57% de posse de bola rubro-negra, oito finalizações no alvo contra uma, de um time que sofreu 27 faltas e cometeu 18. Ainda assim, um Flamengo bem aquém do futebol que apresentou e o levou à liderança do Campeonato Brasileiro.

Um jogo que promove a reflexão. Existirão outros adversários que certamente vão utilizar da mesma tática são-paulina, com sequência de faltas para quebrar o ritmo do jogo rubro-negro e conivência da fraca arbitragem brasileira. Resta à comunidade do futebol brasileiro arrancar o sorriso de canto de boca com o sucesso da tática pobre e pensar na consequência dela no pensar do jogo exibido nos gramados daqui. E cabe ao Flamengo tentar entender o melhor caminho para superar esta dificuldade. Há, também, o refletir sobre o elenco: Renê é confiável, Piris talvez careça de ritmo, mas Rodinei – entre tantas chances – parece opção pouco confiável tecnicamente. Há enorme disparidade entre titulares e reservas, mas nem nas melhores equipes do mundo o grupo suplente está à altura real do principal. O verdadeiro calendário brasileiro se apresentou. Sim, faltam ao futebol nacional olhar no espelho e decidir o que deseja elogiar. Mas as ideias de Jorge Jesus, até agora, permanecem na liderança.

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FICHA TÉCNICA
FLAMENGO 0X0 SÃO PAULO
Local: Maracanã
Data: 28 de setembro de 2019
Árbitro: Rafael Traci (PR)
VAR: Rodolpho Toski Marques (PR)
Público e renda: 62.541 pagantes / 67.051 presentes / R$ 3.541.963,25
Cartões amarelos: Everton Ribeiro, Gabigol e Rafinha (FLA) e Hernanes, Reinaldo e Pablo (SAO)
Gols:

FLAMENGO: Diego Alves, Rodinei (Rafinha / Intervalo), Rodrigo Caio, Pablo Marí e Renê (Filipe Luís, 30’/2T); Piris da Motta (Gerson / Intervalo) e Willian Arão; Bruno Henrique, Everton Ribeiro e Arrascaeta; Gabigol
Técnico: Jorge Jesus

SÃO PAULO: Tiago Volpi, Juanfran, Bruno Alves, Arboleda e Reinaldo; Luan; Antony (Liziero, 40’/2T), Daniel Alves, Hernanes (Hudson, 47’/2T), e Tchê Tchê (Vitor Bueno, 20’/2T); Pablo
Técnico: Fernando Diniz