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Trilha do batismo: Flamengo passeia sobre o Bahia no melhor jogo com Dome

Arrascaeta Isla Bahia Brasileiro 2020 Flamengo

(Alexandre Vidal / Flamengo)

Everton Ribeiro Flamengo Bahia 2020 Brasileiro

(Alexandre Vidal / Flamengo)

Domènec Torrent chegou ao Brasil sob um fogo cruzado. Assumir o elenco campeão brasileiro e sul-americano com uma maneira de atuar definida e que encantava de time com nome e sobrenome: o Flamengo de Jorge Jesus. Conseguiu manter a ideia do antecessor por 45 minutos na estreia contra o Atlético-MG e já no jogo seguinte, contra o Atlético-GO, tentou acelerar seu jeito de entender futebol. O time implodiu. Alguma compreensão e treinos a mais depois, o Flamengo enfim teve a melhor atuação sob o comando de catalão na vitória de 5 a 3 sobre o Bahia, nesta quarta-feira, em Salvador. Está longe de registrar em cartório a equipe como sua. Mas Dome parece ter começado a trilhar o caminho para batizar o time como seu.

Em suas primeiras palavras o técnico ressaltou a necessidade da ótima forma física para executar o jogo planejado. O elenco estava aquém depois do hiato entre Carioca e Brasileiro. Cobranças e momentos instáveis na bagagem, o grupo parece quase refeito neste quesito. Evolui. A consequência, claro, chega às partes física, técnica e tática. A primeira modificação do treinador é óbvia: o revezamento é essencial em seus planos para priorizar a parte física. Sete mudanças, por necessidade ou opção, em relação à partida anterior. E o Flamengo assim viu o seu elenco vasto e caro ser justificado. Foi um time forte que entrou em campo contra o Bahia, no 4-2-3-1. Isla e Renê nas laterais, Willian Arão e Thiago Maia mais atrás, com Pedro Rocha e Everton Ribeiro pelas pontas e Arrascaeta como um meia liberado para dialogar com Pedro. Em ação, um time diferente, intenso, pressionando a saída rival. Pontos positivos da era anterior.

Bahia no início: saídas pelos lados e Rodriguinho na área

A postura rubro-negra contribuiu e muito para a vitória, obviamente. Sair na frente com um gol a um minuto de jogo atordoa o adversário. Mérito da pressão de Pedro no goleiro Anderson. Mas não era só isso. A movimentação estava de volta. Everton Ribeiro, a mil, saía da direita para dentro, passava à esquerda e já tinha perdido ótima chance com segundos dentro da grande área. Arrascaeta entrava na área, Pedro saía e dialogava com os meias. Excelente finalizador, o atacante engana quem o enxerga apenas como homem de área. Faz o pivô, escolhe boas jogadas, pensa rápido, enxerga com clareza. Encaixa bem com meias inteligentes como Ribeiro e Arrascaeta. Movimenta com exatidão para abrir espaços. Assim recebeu na entrada da área e concluiu com capricho, com a bola a beijar os dois pés da trave para sacramentar o 2 a 0 em minutos. Um déjà vu saboroso aos rubro-negros. Mas o time está em processo de reconstrução. Natural que apresente, ainda, deficiências. A proteção da entrada da área é uma delas. O Flamengo forçava o adversários aos lados porque, rápido para se organizar defensivamente, jogava agrupado e fechava bem os espaços. Era difícil arrematar livre contra a meta de Diego Alves. Os espaços voltaram a reaparecer neste novo ciclo.

Flamengo no início: Arrascaeta solto, Ribeiro no habitat e Pedro móvel

O Bahia atuava de forma apática num 4-4-2 e imprimia velocidade com Rossi ou Elber pelos lados. Gilberto, o centroavante, saía também à direita para sobrecarregar Renê e abrir espaço para a entrada de Rodriguinho na área. O atacante já tinha ensaiado duas entradas pelo lado até conseguir entrar rápido e rolar para o centro. Arão se descuidou do arranque de Rodriguinho e não chegou a tempo para pressionar. 2 a 1. O gol do Bahia parecia até injusto pelo que era apresentado pelas equipes. Mas o Flamengo voltou a conceder espaços. Não tem tão bem definida a organização defensiva ainda que contasse com dois volantes – Thiago Maia e Arão – para apertar o centro. Ofensivamente construía muito bem, principalmente com o equilíbrio nas pontas. De um lado Pedro Rocha com o mano a mano e a velocidade como virtudes. Do outro Everton Ribeiro a visão de jogo e a facilidade para dar fluidez na construção de jogadas. Fisicamente bem, o time girava a bola nos espaços com velocidade para chegar na área rival em ótima condição. Mas o jogo rubro-negro ganhou um ótimo aliado: Isla.

O novo lateral já tinha apresentado ótima credencial contra o Santos. Vigor físico, toca e avança. Tem gosto pelo fundo. Na Vila Belmiro, o gol não saiu por uma falha de finalização de Gabigol. Em Salvador, ele saiu, de forma brilhante. Pedro de letra para o chileno, que chegava. Isla viu Everton Ribeiro e tocou ao meio, disparando ao fundo. O toque do camisa 7 foi daqueles lances para ver, rever, paralisar e observar. Lado de fora do pé, medida exata para superar a cabeça do zagueiro e se oferecer a Isla. O toque foi consciente, para a pequena área, onde Arrascaeta mergulhou de cabeça. Um golaço coletivo. Isla vibrou como se ele próprio tivesse balançado a rede. Os jogadores o acompanharam. O Flamengo parecia ali resgatar um dos pontos altos que o tornaram quase imbatível em 2019: o prazer pelo jogo.

Faltavam em partidas anteriores, na parte aguda da transição de ideias, o conjunto físico, tático, técnico e mental. Com a melhor fluidez o time, enfim, pareceu voltar a se curtir. Olhar no espelho e ter prazer pelo jogo em si. Mesmo com problemas. A falha de Gabriel Batista por inexperiência – um goleiro mais veterano teria facilmente dado um tapinha para fora na bola alçada de forma quase despretensiosa – fez o intervalo chegar com um placar que em nada refletia o campo. Um apontamento como quem deixa claro que, sim, ainda há muito a lapidar.

Bahia ao fim: menos apático, mais no campo rival

O segundo tempo chegou com um Flamengo novamente intenso, pressionando a saída do Bahia, movimentando ao extremo e com Arrascaeta infernal pelo centro. Muita mobilidade, inteligência na criação das jogadas e entendimento com os companheiros. O uruguaio mostrou ter voltado às formas física e técnica. Não à toa faria o quinto gol da noite após tabela fácil com Pedro Rocha pela esquerda. Mas a pintura da noite foi reservada por Everton Ribeiro momentos antes, no quarto gol. Em estado de graça, novamente veloz, habilidoso, o meia atuava como queria no seu habitat, o lado direito do campo. Por ali tem a referência de espaço, sabe quando ir ao meio para deixar Isla ultrapassar como um foguete ou tem a noção de como finalizar. Ao receber o lateral, girou como num balé sobre Zeca, num lindo movimento de corpo. A lucidez o apontou Anderson um pouco adiantado. O chute saiu na medida: força para subir e rapidamente descair. Um golaço individual. Com o 5 a 2 no placar instintivamente o Flamengo diminuiu o ritmo. Pedro ainda perdeu ótima chance ao finalizar na saída do goleiro e ver a zaga salvar e cima da linha.

Flamengo ao fim: ritmo menor, administrando vitória

Dome passou a rodar mais o time, com o resultado basicamente assegurado. Vitinho ao lado de Lincoln no ataque, Michael à esquerda para aproveitar o campo com espaços. Pelo meio pôs Diego para girar ainda mais o jogo, com rotação mais baixa. Thuler ocupou a lateral direita na vaga de Isla e teve dificuldades para acertar a marcação. Vacilou num lance na grande área e a bola sobrou para Daniel, com a frente da meta desprotegida. 5 a 3 no apagar das luzes. Terceira vitória do Flamengo no Brasileiro, a terceira fora de casa. Um time com 59% de posse de bola*, que trocou 642 passes e finalizou 20 vezes, nove delas no gol. Criou, mais uma vez, muitas chances. Soube aproveitá-las. Sem seis dos seus principais nomes, o time teve a melhor atuação sob o comando do novo técnico. Evolui, portanto. Não, o Flamengo ainda não é de Domènec Torrent. Não possui sobrenome. Está em transição. Mas diante do Bahia apontou que pode ter encontrado a trilha para o batismo. Um bom sinal.

*Dados do app SofaScore

FICHA TÉCNICA
BAHIA 3X5 FLAMENGO

Local: Pituaçu, em Salvador (BA)
Data: 2 de setembro de 2020
Árbitro: Savio Pereira Sampaio (DF)
VAR: Marcelo Aparecido de Souza (PB)
Público e renda: portões fechados
Cartões amarelos: Juninho Capixaba (BAH) e Diego e Thuler (FLA)
Gols: Pedro (FLA), a um minuto e aos 15 minutos, Rodriguinho (BAH), aos 31 minutos, Arrascaeta (FLA), aos 36 minutos e Elber (BAH), aos 41 minutos do primeiro tempo; Everton Ribeiro (FLA), aos três minutos, Arrascaeta (FLA), aos seis minutos e Daniel (BAH), aos 44 minutos do segundo tempo

BAHIA: Anderson, Nino Paraíba, Lucas Fonseca, Juninho e Zeca (Juninho Capixaba, 21’/2T); Rossi (Marco Antônio, 21’/2T), Elton (Edson, 33’/2T), Daniel, Rodriguinho (Jadson, 33’/2T) e Elber; Rodriguinho e Gilberto (Saldanha, 33’/2T)
Técnico: Roger

FLAMENGO: Gabriel Batista, Isla (Thuler, 36’/2T), Rodrigo Caio, Léo Pereira e Renê; Thiago Maia (Diego, 21’/2T), Pedro Rocha (Michael, 21’/2T), Pedro (Lincoln, 36’/2T), Everton Ribeiro Arrascaeta (Vitinho, 37’/2T)
Técnico: Domènec Torrent