Everton Ribeiro gol Botafogo
Pela metade, Flamengo aponta distância para o Botafogo no clássico
08 março 01:17

Um diferente e desconfortável Flamengo vence um agressivo Fluminense

Pedro Flamengo Fla-Flu final Carioca 2020 primeiro jogo

(Flamengo / Divulgação)

Pedro Flamengo Fla-Flu final Carioca 2020 primeiro jogo

(Flamengo / Divulgação)

No podcast Muito Mais Do Que Futebol da última semana, Lúcio de Castro foi preciso ao apontar que este Flamengo de Jorge Jesus atingiu tal padrão de qualidade em seu jogo espetacular que basta um breve olhar inicial para perceber. “Está diferente”. Na quarta-feira, decisão da Taça Rio, estava. No deste domingo, novamente. Não apenas devido às mudanças na escalação. Mais do que diferente. Na vitória de 2 a 1 sobre o Fluminense no primeiro jogo da decisão do Campeonato Carioca o Flamengo esteve, de novo, desconfortável. Diante de um adversário agressivo e organizado pôs a perigo o resultado mesmo com a larga vantagem técnica. Ainda assim, venceu.

A completa sinergia entre time e torcida construída em 2019 não se devia simplesmente a resultados ou maneira de jogar. Em campo, o Flamengo traduzia em seus jogadores o prazer de render no mais alto nível. Desfilar, afinal, o melhor futebol de terras brasileiros ao menos nas últimas duas décadas. Como guris na pelada da rua, os jogadores rubro-negros pareciam se divertir em qualquer gramado. Prazer no ofício. Sentimento que estava vivo em 2020 diante nas conquistas da Supercopa do Brasil e da Recopa Sul-Americana. Assim como em jogos pós-paralisação da pandemia contra Boavista e Volta Redonda. Difícil apontar com absoluta convicção o motivo para a mudança de comportamento. Difícil, também, duvidar que a insegurança quanto à continuidade de Jorge Jesus tenha impacto no dia a dia. Mas é um Flamengo diferente pelo segundo jogo consecutivo, algo inédito no ano do português no Ninho do Urubu. Aceitou ser agredido. Concedeu espaços. E o Fluminense entendeu.

Flu no início: reduz espaço e sai para pressionar o rival na saída de bola

Depois de quarta-feira, Odair Hellmann defensivamente repetiu a fórmula que conseguiu travar o Flamengo. Um 4-1-4-1 com espaços muito reduzidos. Na parte ofensiva, distinto. Marcação forte na saída de bola rubro-negra, ocupação do campo rival e saídas rápidas pelos lados com Nenê e, principalmente, Marcos Paulo com o suporte de Egídio. De início, o Fluminense mais uma vez foi superior. Agrediu o Flamengo, que sentiu. Ao ser pressionado, o time rubro-negro não conseguia tramar os passes desde sua saída de bola, algo que faz costumeiramente em bons dias mesmo pressionado. Talvez pelas mudanças, com Diego em vez de Gerson e Vitinho na vaga de Everton Ribeiro, o time arriscava bola longa para Gabigol ou Pedro. Havia pouco espaço no ataque, com um Fluminense bem postado. A bola batia e voltava. O Flamengo não agredia. Era agredido. Com intensidade baixa tinha dificuldades no 4-4-2 de pouca movimentação. Por mais que Gabigol ainda se mexesse, Pedro é mais fixo do que Bruno Henrique. Por mais que seja ótimo driblador, Vitinho não tem a capacidade de criatividade de Everton Ribeiro.

Flamengo ao fim: três atacantes em campo e resultado administrado

O Fluminense tem poucas fichas para o duelo. Sabe disso. Mesmo que tenha apresentado bons desempenhos ainda não conseguiu vencer no tempo normal este Flamengo. Aperta a marcação, mas é obrigado a segurar a intensidade para poupar esforços e não se entregar ao adversário no fim do jogo. Ao reduzir a passada deu mais campo ao rival. Ainda que longe do seu padrão, o Flamengo sobra em qualidade técnica com elenco vasto. A bola consegue girar. Basta encaixar um golpe para confundir o rival. Ele veio com Vitinho puxando três marcadores para da direita para o meio. O passe encontrou Arrascaeta, sempre com pensamento à frente, de primeira para Diego. No vaivém da defesa tricolor, espaços apareceram e o Camisa 10 rolou com cuidado para Pedro. A chapada na bola foi digna de quem tem a finalização como uma das vertentes. Artilheiro, sem marcação na área, bola à frente. 1 a 0.

A vantagem rubro-negra no placar se traduziu em campo. O Fluminense arrefeceu e concedeu espaços para o time rubro-negro trocar passes. A intensidade na marcação tricolor poupara fôlego. O Flamengo, tão desconfortável no início do clássico, estava mais à vontade. Foi ao intervalo com maior segurança na decisão. Se o jogo não apresentava diferença refletida do tamanho dos elencos, o placar ao menos era favorável após a dificuldade inicial. Mas, sim, este Flamengo está diferente. Ao ponto de controlar o resultado, não partir como um predador sedento para determinar o resultado.

O segundo tempo, então, trouxe consequências. O Fluminense voltou a exercer a marcação no campo rival, adiantou ainda mais Dodi e Yago Felipe pelo meio e passou a ocupar o campo rubro-negro com maior facilidade. O Flamengo parecia desorganizado, principalmente defensivamente. Não foi raro ver Arão ocupando o lado direito do campo para caçar Egídio, abrindo espaço pelo meio. Dodi teve mais condições para avançar. Deu belo chute e começou a destacar um importante personagem na partida: Diego Alves. No último ano certamente o goleiro trabalhou poucas vezes de forma tão contínua como neste domingo. Teve de aparecer muito mais do que o usual – e comprou a confiança que permite ao time desde o ano passado. Com as rápidas escapadas pelos lados o Fluminense buscava aproveitar os avanços dos laterais. Havia espaço porque o Rubro-Negro, uma vez mais em nada lembrava o time de intensidade, capaz de sufocar o rival. Jogava, sim. Mas deixava jogar como em poucas vezes.

Flu ao fim: mais avançado, tentando abrir o rival pelo gol de empate

Em um avanço pela lateral, Egídio subiu, recebeu a bola e cruzou na medida para Evanílson aproveitar o cochilo de Gustavo Henrique no meio da área. 1 a 1. Imediatamente Jorge Jesus promoveu trocas. Pôs em campo os titulares de sempre Gerson e Everton Ribeiro, além do velocista Michael Odair Hellmann à frente do Internacional já aprendera o dissabor de enfrentar o Flamengo no Maracanã de forma completamente acadelada, esperando apenas o bote mortal. O Fluminense entendeu que era possível vencer. E, de fato, era. Atacado, o Flamengo tinha dificuldades para impedir a chegada em bloco do Tricolor. Yago Felipe, mais presente, já tinha exigido Diego a fazer ótima defesa em chute na pequena área ao dar corte em Gustavo Henrique. O momento de supremacia era tricolor. Parecia indicar o segundo gol. Mas mesmo diante de um Flamengo longe de seu padrão, desconfortável com o próprio jogo, não é possível ceder espaços fatais. O Fluminense poderia, de fato, vencer. Mas também tinha de se preocupar em não perder uma decisão de duas partidas.

Fla no início: time mais lento, sem tanta movimentação

Escanteio cobrado para o Flu, sobra na direita e lançamento primoroso de Rafinha para Gabigol. Egídio, já veterano, não conseguiu acompanhar a explosão do atacante nem mesmo para cometer a falta. Na disparada, o Camisa 9 rolou macio para Michael, como uma flecha, fazer o segundo após se desgarrar da marcação ainda no meio de campo. O revés no placar de maneira súbita abateu o Fluminense e lembrou outro adversário em campo: o fôlego. Com menos tempo de preparação do que o rival, a empolgação que permitia a intensidade se dissipou. Odair começou a promover mudanças de baciada. Abriu três atacantes com Miguel, Caio Paulista e Pacheco. A rigor não conseguiu mais penetrar na área rubro-negra como antes. De longe, Caio Paulista arriscou chutes para cima de Diego Alves. No apagar das luzes, a expulsão incompreensível de Gabigol diante de um emaranhado de falta de comunicação simbolizou a confusa arbitragem de Wagner do Nascimento Magalhães. E o Flamengo, em marcha mais lenta, administrou o resultado. No mínimo, curioso.

É um time que, sob a batuta de Jorge Jesus, busca o terceiro depois do segundo gol. O quarto depois do terceiro. E assim sucessivamente. Tem sido um Flamengo mais comedido. Um time que obviamente sente falta da faísca da arquibancada que fazia o caldeirão do Maracanã explodir. Mas que, em minutos de jogo, está estranho, como anotou Lúcio de Castro. Pouca intensidade, trocas em demasia. Indefinição do futuro do técnico. Os números apontam um Flamengo superior na posse de bola, com 59%, e igual em finalizações certas: seis para cado lado. Mas o Fluminense teve 16 finalizações no total contra nove. Prova de que foi agressivo. O Flamengo comprovou ser favorito para a conquista do título. Mas deixou em xeque a ideia de tamanha superioridade. Não há dúvidas de que é um time melhor. Mas o patamar decantado, o prazer de jogar pareceram distantes. Sim, a vitória foi rubro-negra. Mas de um Flamengo que pelo segundo confronto consecutivo mostrou estar desconfortável. Resta saber o porquê.

*Números do SoFaScore

FICHA TÉCNICA
FLUMINENSE 1X2 FLAMENGO

Local:
Maracanã
Data: 12 de março de 2020
Árbitro: Wagner do Nascimento Magalhães (RJ)
Público e renda: portões fechados
Cartões amarelos: Matheus Ferraz, Marcos Paulo e Gilberto (FLU) e Rodrigo Caio, Gabigol, Vitinho e Gerson (FLA)
Cartão vermelho: Gabigol, aos 48 minutos do segundo tempo
Gols: Pedro (FLA), aos 38 minutos do primeiro tempo, Evanílson (FLU), aos 15 minutos e Michael (FLU), aos 28 minutos do segundo tempo

FLUMINENSE: Muriel, Gilberto, Matheus Ferraz, Digão e Egídio; Hudson; Nenê (Miguel, 43’/2T), Dodi (Michel Araújo, 32’/2T), Yago Felipe (Yuri, 43’/2T) e Marcos Paulo (Caio Paulista, 32’/2T); Evanílson (Pacheco, 22’/2T)
Técnico: Odair Hellmann

FLAMENGO: Diego Alves, Rafinha, Rodrigo Caio, Gustavo Henrique e Filipe Luís; Willian Arão, Diego (Everton Ribeiro, 16’/2T), Vitinho (Gerson, 16’/2T) e Arrascaeta (Michael, 16’/2T); Pedro (Pedro Rocha, 39’/2T) e Gabigol
Técnico: Jorge Jesus