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Um teste à pressão e ao elenco: Flamengo supera Botafogo em clássico eletrizante

Gerson gol primeiro Flamengo Botafogo 2019

(Flamengo / Alexandre Vidal)

Rafinha Flamengo Botafogo 2019

(Flamengo / Alexandre Vidal)

A incrível sede do Flamengo no mercado de transferências chamou atenção nas duas últimas janelas. Demonstração de força ou apenas luxo de quem tem orçamento acima da média para os padrões brasileiros? A vitória por 3 a 2 no clássico contra o Botafogo neste domingo, no Maracanã, é um pedaço da resposta. Pois vamos lá: o Flamengo iniciou a partida com seis desfalques – Arrascaeta, Everton Ribeiro, Diego, Vitinho lesionados, Berrío, suspenso, e Léo Duarte, negociado com o Milan. Com minutos, perdeu o outro zagueiro titular, Rodrigo Caio, também por lesão. Seria um baque a quase todos os elencos do futebol brasileiro. A razão das inúmeras contratações se apresentou. Rafinha, Gerson e Pablo Marí – recém-chegados – foram destaques ao lado de Gabigol num ambiente cercado de pressão. A diferença para os titulares do Botafogo se mostrou, ainda, enorme. E o Flamengo resistiu.

Resistiu, também, por ter em Jorge Jesus um técnico consciente de que, Libertadores em risco, seria impossível negociar a disputa do Campeonato Brasileiro. Pôs em campo basicamente o que tinha de melhor no momento, poupando apenas Renê. O português mandou o Flamengo a campo em um ofensivo 4-4-2. Gerson apareceu pela ponta direita. Cuéllar e Willian Arão por dentro, com o camisa 5 surpreendentemente mais à esquerda. Bruno Henrique da esquerda, caindo para dentro. À frente, Lincoln mais preso à área, com Gabigol, incansável, ocupando parte do lado direito, caindo ao meio, avançando para se juntar ao garoto. A ideia permanecia a mesma. Pressão no campo adversário, toques rápidos e verticais, com o objetivo de chegar rapidamente à área rival. Mas então veio o baque.

Fla no início: 4-4-2, com Gerson pelo lado combinando com Rafinha e Gabigol

Não só a lesão de Rodrigo Caio, um impacto direto na confiança de um elenco sem seus principais jogadores, mas o gol do Botafogo. Na batida de escanteio, a bola viajou, Diego Alves saiu mal e Cícero, craque no jogo aéreo, raspou para abrir o placar. 1 a 0. O Botafogo de Eduardo Barroca se caracteriza por ter a posse de bola, buscar a defesa mantendo a posse, trabalhando com calma. Mas é interessante que o técnico não seja tão apegado às próprias convicções de jogo a ponto de ignorar o rival. Mesmo desfalcado, o Flamengo era superior tecnicamente e tentar brigar pela posse de bola, especialmente neste clássico, poderia ser um passo em falso. Já havia testado a ideia no clássico contra o Fluminense. Em um 4-1-4-1, o Botafogo tinha Cícero como o volante para iniciar o jogo. João Paulo e Alex Santana por dentro, com Luiz Fernando e Rodrigo Pimpão incansáveis no vaivém pelos lados, tentando auxiliar os laterais. À frente, a rocha chamada Diego Souza, buscando sempre o pivô para acelerar o jogo nos pontas.

Por alguns minutos, o Botafogo aproveitou a superioridade precoce no placar diante de um Flamengo que ainda tentava lidar com mais um insucesso repentino. Pimpão e, principalmente, Luiz Fernando avançaram para tentar diálogo com Diego Souza. Mas ficou claro que a diferença técnica ainda era brutal. O Flamengo pôs a bola no pé, passou a trocar passes e forçar demais os avanços pela direita. Era ali a chave de seu jogo. Com Gerson chamando a partida para si. Cria do futebol local, no Fluminense, e dito rubro-negro de berço, o Camisa 15 parecia entender melhor a necessidade de tornar o clássico mais elétrico. Jogos que se levam na tática, na técnica e muito na alma. Um carrinho pode ser a fagulha necessária para fazer o clássico explodir. Decidiu atormentar Jonathan e Luiz Fernando em companhia de Gabigol e Rafinha. Um trio que controlava as ações do jogo, justificava o volume rubro-negro. Deixava claro que o revés no placar seria questão de tempo. Para a combinação fatal funcionar foi necessário um ajuste. E talvez daí se explicou a participação de Cuéllar mais ao lado direito.

Botafogo no início: recuado, buscando velocidade nos lados

Tão logo Rafinha ultrapassava para levar Luiz Fernando em seu encalço e deixar Gerson livre para tabelar com Gabigol diante de um solitário Jonathan, o colombiano se alinhava com a defesa para cobrir o setor. Resquícios, provavelmente, do gol sofrido diante do Athletico-PR na Copa do Brasil no mesmo Maracanã, com um vão às costas do lateral onde Rony apareceu para fazer o gol. É, claro, necessidade de ajuste de quem, como Jorge Jesus, troca pneu com o carro já em movimento. Gerson, pela direita, ensaiou duas vezes a puxada para dentro e o chute na direção de Gatito. Na terceira teve espaço para bater no canto direito do goleiro. 1 a 1. A registrar antes do fim do primeiro tempo o justo motivo de reclamação dos botafoguenses com a fraca arbitragem de Raphael Claus no clássico: uma entrada desnecessária de Cuéllar em Marcinho que deveria ter rendido o cartão vermelho ao colombiano e gerado consequências no jogo.

O segundo tempo, porém, recomeçou com os dois times completos. O jogo de Jorge Jesus apresenta riscos. E eles têm se apresentado em todos os jogos desde sua chegada. Por vezes, o Flamengo é vulnerável. O Botafogo aproveitou os espaços que teve no início da segunda etapa. Esbarrou na limitação técnica. Luiz Fernando limpou Arão e Rafinha pela esquerda, mas a opção por chapar no ângulo de Diego Alves deu outro endereço à bola. Criou problemas e Rafinha, num carrinho temerário, acabou passível de expulsão, mas a arbitragem preferiu não pesar com o segundo amarelo. Diego Souza, de forma inteligente, atraiu Trauco e Pablo Marí ao centro e tocou livre para Pimpão bater para fora, na pequena área. Erros fatais ao Botafogo. Pois logo o jogo se redesenhou ao volume rubro-negro, como no primeiro tempo. E, de novo, com a força pelo lado direito. Rafinha mostrou forma exuberante no setor. Era óbvio: o Flamengo sempre acionou demais a direita. Rafinha tem inteligência para pensar as jogadas e acompanhar o raciocínio rápido de outros atletas de qualidade do time. Com a experiência, tirou Jonathan dos lances com facilidade. No segundo gol, driblou e foi ao fundo cruzar. No rebote, Gabigol emendou de primeira para o fundo da rede de Gatito, num sem-pulo espetacular. 2 a 1.

Ao fim, Fla mais protegido, com Piris para fechar o meio

A fúria encarnada por Gabigol no seu estilo de jogo traz dois lados. De negativo, a facilidade em se envolver em lances polêmicos no jogo, sempre visado por rivais e pela arbitragem. Talvez por isso tenha levado o amarelo – terceiro no Brasileiro – ficando fora em lance com o xará zagueiro ainda no primeiro tempo. De positivo, a capacidade de fazer a conexão direta com a arquibancada em um jogo elétrico, incendiando o time. E, claro, a qualidade para entender quando deve entrar e sair da área aliada à capacidade de finalização. São 20 gols na temporada. Ao perder Lincoln, lesionado, Jorge Jesus avançou Bruno Henrique e lançou Lucas Siva. Manteve a estrutura da equipe, mas o vigor para continuar com a marcação avançada já não era mais o mesmo.

A postura da defesa rubro-negra agradou. Thuler substituiu Rodrigo Caio às pressas e demonstrou ser necessário mais ritmo de jogo, mas conseguiu combater escapadas pelos lados do Botafogo e cobrir bem os laterais. Pablo Marí foi agradável surpresa. Estreava em outro país, num clássico com o time cercado de pressão. Mostrou bom tempo de bola no jogo aéreo, frieza, boas antecipação e qualidade na saída do jogo. Arriscou lançamentos e passes mais agudos, com o time avançado. Ao fim da partida, quase comprometeu com um passe errado. É precoce, mas deu indícios de que pode ser uma aposta acertada do departamento de futebol. O porém tem sido Diego Alves. Ao armar mal a barreira na cobrança de falta de Diego Souza, o goleiro convidou o camisa 7 a uma batida forte e direta sem entraves. A bela pancada morreu no fundo da rede e suspendeu o fôlego de um Maracanã majoritariamente rubro-negro.

Ao fim, Botafogo mais avançando, tentando bolas no ataque

O 2 a 2 não fez o Botafogo mudar sua ideia para o clássico e arriscar uma virada sobre o rival. Posicionou-se mais atrás, entrincheirado para permitir o rival invadir seu campo e ter espaço para contragolpes. Mas a diferença técnica era tamanha que o risco parecia não compensar. Ao chamar Gabigol, Gerson e Rafinha para o seu campo, o Botafogo arriscou demais um resultado que já era surpreendente pelo panorama do jogo. Bastou um lance de pura inteligência de Rafinha. No gingar do corpo para quebrar a marcação, o toque rápido para Gabigol e a entrada no meio dos defensores alvinegros. Saiu livre, solto na frente do gol. E não foi tentado pela finalização. Olhou Bruno Henrique entrar na segunda trave para rolar macio. O camisa 27 quase nem teve trabalho. 3 a 2.

Diego Alves, vaiado, ainda salvou pela cabeçada de Alex Santana no sopro final do Botafogo. Sem nada em mãos, Barroca tentou armas de emergência, com Carli como centroavante e um constante lançar de bolas à área do Flamengo em busca do empate que escorrera pelas mãos. Quase sofreu o quarto gol, quando Gatito entregou bola nos pés de Cuéllar e Bruno Henrique isolou ótima chance. Vitória importante de um Flamengo com 58% de posse de bola, seis finalizações no alvo contra quatro do Botafogo, 412 passes trocados contra 221*. Com oito desfalques ao fim da partida no Maracanã, o time de Jorge Jesus conseguiu ser superior e passar no teste . Um apronto, em todas as circunstâncias, para mostrar que é possível a virada diante do Emelec.

*Números do App Footstats Premium

FICHA TÉCNICA
FLAMENGO 3X2 BOTAFOGO
Local: Maracanã
Data: 28 de julho de 2019
Árbitro: Raphael Claus (SP)
VAR: Thiago Duarte Peixoto (SP)
Público e renda: 42.483 pagantes / 45.622 presentes / R$ 1.645.403,00
Cartões amarelos: Gabigol, Rafinha, Cuéllar, Gerson, Trauco (FLA) e Rodrigo Pimpão, Gabriel (BOT)
Gols: Cícero (BOT), aos 13 minutos e Gerson (FLA), aos 34 minutos do primeiro tempo; Gabigol (FLA), aos oito minutos, Diego Souza (BOT), aos 21 minutos e Bruno Henrique (FLA), aos 28 minutos do segundo tempo

FLAMENGO: Diego Alves, Rafinha, Rodrigo Caio (Thuler, 13’/2T), Pablo Marí e Trauco; Gerson, Cuéllar, Willian Arão e Bruno Henrique; Gabigol (Piris da Motta, 44’/2T) e Lincoln (Lucas Silva, 15’/2T)
Técnico: Jorge Jesus

BOTAFOGO: Gatito Fernández, Marcinho, Carli, Gabriel e Jonathan (Lucas Barros, 33’/2T); Cícero; Rodrigo Pimpão (Lucas Campos, 30’/2T), Alex Santana, João Paulo (Victor Rangel, 38’/2T) e Luiz Fernando; Diego Souza
Técnico: Eduardo Barroca