(Gilvan de Souza / CR Flamengo)
Flamengo aposta em segurança para superar Flu e levar o tri carioca
11 março 20:10

Eficiente e competitivo, Flamengo se adapta para vencer Cruzeiro no Maracanã

Desde 2016, salvo exceções breves como Abel Braga, com Zé Ricardo o Flamengo construiu a ideia de uma equipe de imposição por meio da posse de bola. Alto volume de jogo, troca constante de passes de um lado a outro até buscar a melhor oportunidade. Houve, claro, momentos sublimes como o ano dourado de 2019 que uniu estética, organização, controle por posse e imposição. Ao romper com Filipe Luís de maneira inexplicável e encontrar Leonardo Jardim, o Flamengo fatalmente mudaria. Um time mais objetivo, vertical, em busca de poucos passes até o gol. Tudo aliado à retomada da competitividade. Tudo sob a batuta de Jorginho, um assombro de jogador. Desta maneira, os rubro-negros bateram o Cruzeiro por 2 a 0 no Maracanã. De forma eficiente, razoavelmente segura e direta.

Natural que no primeiro jogo no comando da equipe, uma decisão de Carioca, Leonardo Jardim ainda beberia muito da fonte de Filipe Luís. A ideia era estagnar a crise com uma taça. Vencer, vencer, vencer. Isto feito, já no seu segundo jogo o português ampliou suas ideias. Ao menos neste primeiro momento é ingenuidade esperar um jogo bonito, que tente aliar estética com organização. São pequenos toques de Jardim para ajustar o Flamengo mais ao seu gosto. No Fla-Flu já foi possível identificar. Pulgar ou Jorginho para sair com os dois zagueiros, fechando um dos lados, laterais mais avançados. Desta vez um time mais ao 4-2-3-1. Em vez de Carrascal, Paquetá. Canhoto, com o pé trocado, compreensível que busque mais o centro. Por ali tinha um Arrascaeta um pouco mais atrás do que no ano passado. Não um segundo atacante, como com Filipe. De fato, um meia, que chegava a buscar a bola em alguns momentos no campo de defesa, mas dava opção na grande área ao infiltrar.

Flamengo no início: Arrascaeta um pouco atrás, Paquetá por dentro

O Cruzeiro de Tite se apresentava também em um 4-2-3-1. Assim como os cariocas, fechava no 4-4-2 ao se defender. Passou os minutos iniciais postado assim com o abafa rubro-negro. Pressão na saída de bola que complicou os mineiros em alguns momentos. Numa dessas movimentações Arrascaeta só não fez o gol porque Fabrício Bruno salvou em cima da linha. Com um time mais agrupado, a figura de Jorginho se sobressai ainda mais. É jogador raro, não à toa ocupou o top 3 mundial. Antevê jogadas, desarma como se fosse fácil, pressiona, acha espaços com o passe refinado. É quem comanda o time, de fato. A pressão inicial rubro-negra rendeu bola no travessão com Léo Ortiz de cabeça, cruzamento perigoso e…gol. Pedro, com enorme disposição para pressionar a saída, lutar pela bola, viu brecha num passe errado de Neyser. Brigou, buscou, limpou os zagueiros com qualidade e bateu forte para abrir o placar.

O jogo estava claro para o Flamengo: incendiar o início, aproveitar a arquibancada ensandecida com a presença de Gerson em campo, e empurrar o Cruzeiro. Na ânsia de combater o Flamengo com Coringa e Christian pelos lados, o Cruzeiro dava liberdade para condução de Pulgar pelo centro. Dali a Paquetá era o caminho natural, às costas dos volantes. O reforço de 42 milhões de euros recebia, aguardava a entrada em diagonal de um companheiro e o acionava, obrigando os zagueiros a acelerar para buscar um jogador às suas costas. Mas, como disse, atualmente não é um Flamengo que prima pela posse e tampouco por um jogo estético, mais refinado. É régua que geralmente só é cobrada dos rubro-negros no futebol brasileiro, mas não algo a ser esperado por agora.

Cruzeiro no início: Gerson e Christian na tentativa de pressionar a saída rubro-negra

O time, intencionalmente, arrefeceu a pressão no campo rival, deu passos atrás e pressionava apenas ao sinal de erro claro do Cruzeiro. Daí buscava sair em velocidade. É um Flamengo já diferente, muito provavelmente bem distante do que planeja Leonardo Jardim, mas com sinais. Recuperação de bola, dois, três passes e finalização. O Cruzeiro tinha dificuldades porque o Flamengo, mais agrupado e próximo ao campo defensivo, não dava tanto espaço às costas dos zagueiros. E, mais do que isso, Tite não tinha Kaio Jorge, lesionado. É o jogador que se projeta com velocidade e força para dar trabalho aos zagueiros e confundir a marcação. Neyser não cumpria esse papel, embora tenha sido sua a finalização mais perigosa no primeiro tempo. E Matheus Pereira, por dentro, era facilmente anulado por Pulgar e Jorginho.

Fla no fim: velocidade para explorar contra-ataque, LA por dentro, Carrascal fora

O segundo tempo trouxe duas equipes parecidas até certo ponto. Tentativa de explorar as costas da defesa, especialmente com bolas enfiadas. Arrascaeta escapou assim e mandou na trave. Era opção viável. Paquetá mais atrás em busca da velocidade dos companheiros quando o Cruzeiro ameaçava avançar. O time de Tite pouco sabia aproveitar as costas dos laterais rubro-negros, mais adiantados com Leonardo Jardim. Quando o fôlego passou a faltar no Flamengo, Jardim fez trocas em busca realmente de vitalidade mesmo. Samuel Lino, Carrascal, Luiz Araújo. Mas enxergou os dois últimos de maneira distinta de Filipe. O colombiano pela direita e Luiz Araújo por dentro. Não o contrário. Sem trocar Alex Sandro, já cansado, o Cruzeiro dobrou a aposta pelo setor com Christian improvisado de lateral e Arroyo com velocidade. Por ali o time teve o momento mais perigoso, com cruzamento da direita e finalização de Kaiki com direção ao gol bloqueada por Varela.

Cruzeiro ao fim: mais à frente, com força e velocidade à direita

A estratégia de Leonardo Jardim já era clara. Velocidade e encontrar um passe às costas da defesa para a entrada de Lino ou Carrascal. Conseguiu aos 52 minutos, já nos acréscimos, após erro característico de Fabrício Bruno ao tentar passe de primeira. A esticada de Lino a Carrascal foi incapaz de ser anulada até pela velocidade do zagueiro. O refino do Camisa 15 rubro-negro na finalização comprova a importância de ter jogadores no elenco e utilizá-los. 2 a 0 e explosão de alegria no Maracanã.

É preciso insistir, repetir e afirmar: é um Flamengo já diferente. Teve 44% de posse, trocou 394 passes contra 494 passes* do Cruzeiro. Teve sete chutes a gol e marcou duas vezes. Para este escriba, um Flamengo com posse e agressivo se encaixa mais com o DNA do clube. Foi o que fez Jorge Jesus já na sua estreia no Maracanã. Filipe Luís teve momentos brilhantes, de refino com Jorginho e Saúl no meio. Mas trabalhava mais a bola, às vezes até demais, para finalizar. Leonardo Jardim, no entanto, é ótimo técnico. Fatalmente vai adaptar o Flamengo diante das exigências da torcida e da imprensa. É o clube mais cobrado por ter resultados e, especialmente, desempenho. E será beneficiado com a melhora física cada vez mais evidente do elenco como num todo, algo que prejudicou bastante Filipe Luís neste início de ano. Há bastante o que melhorar. Mas, paulatinamente, o time volta a ser competitivo, evita ser vazado. Por enquanto, o Flamengo aposta na eficiência.

Números SofaScore*

FICHA TÉCNICA
FLAMENGO 2X0 CRUZEIRO

Data: 11 de março de 2026
Local: Maracanã
Árbitro: Flávio Rodrigues de Souza (SP)
VAR: Caio Max Augusto Vieira (GO)
Acréscimos: 3’/1T e 8’/2T
Público e renda: 44.804 pagantes / 47.214 presentes / R$ 3.107.105,00
Cartões amarelos: Léo Pereira, Pulgar (FLA) e Fagner e Fabrício Bruno (CRU)
Gols: Pedro (FLA), aos quatro minutos do primeiro tempo e Carrascal (FLA), aos 52 minutos do segundo tempo

FLAMENGO: Rossi, Emerson Royal (Varela, 28’/2T), Léo Ortiz, Léo Pereira e Alex Sandro; Pulgar e Jorginho; Lucas Paquetá (Carrascal, 28’/2T), Arrascaeta (Walllace Yan, 43’/2T) e Everton Cebolinha (Samuel Lino, 19’/2T); Pedro (Luiz Araújo, 43’/2T)
Técnico: Leonardo Jardim

CRUZEIRO: Cássio (Matheus Cunha, 16’/2T), Fagner (Arroyo, 40’/2T), Fabrício Bruno, Villalba e Kaiki; Matheus Henrique e Lucas Silva (Japa, 40’/2T); Christian, Matheus Pereira e Gerson (Wanderson, 32’/2T); Neyser (Chico da Costa, 14’/2T)
Técnico: Tite