Gilvan de Souza / CR Flamengo
Sem força, Flamengo ainda arranca empate do Inter e segue irreconhecível em 2026
06 fevereiro 01:17

Flamengo se adapta, derruba Botafogo no Engenhão e vai às semis do Carioca

(Flamengo / Gilvan de Souza)

Pulgar gol Flamengo clássico Botafogo

(Flamengo / Gilvan de Souza)

A mania de criticar técnicos por razões infundadas é praga que assola o futebol brasileiro. Filipe Luís mesmo multicampeão não ficou imune a isso. Devido a um ou outro jogo abaixo do alto padrão rubro-negro viu surgir entre aqui e ali dedos apontados. Diziam, em geral, que seria um técnico sem alternativas, preso a uma maneira de jogar. Pois a classificação nas quartas de final do Carioca, um 2 a 1 sobre o Botafogo no Engenhão, trouxe mais evidências para desespero de seus detratores. O Flamengo se adapta como possível para vencer. Pensa jogo a jogo. E muda. Adequa-se.

Verdade que o clássico no Engenhão em um Sábado de Carnaval seria esvaziado por si só. Mas consequências de uma eliminação poderiam surgir e afetar lado a lado. De olho na Recopa, o Flamengo segurou o máximo de jogadores possíveis. A rigor mesmo eram três titulares em campo: Lucas Paquetá, Pulgar e Carrascal. Com um esforço, talvez, Bruno Henrique poderia ser adicionado. E só. Seria fácil esperar um Flamengo no já tradicional 4-4-2 que se transmuta ao 4-2-4 ao atacar. Mas não. Filipe observou o Botafogo. E pôs o seu time bem mais fixo com três zagueiros, com Ayrton Lucas na linha defensiva.

Botafogo no início com Vitinho como zagueiro

Era, portanto, um Flamengo que se adaptava. Paquetá pelo centro com Pulgar um pouco mais atrás. Emerson Royal e Samuel Lino alinhados pelos lados – e fechavam em linha de cinco ao defender – com apoio de Bruno Henrique e Carrascal mais por dentro e Plata um tantinho mais avançado. Filipe desejava pressionar o Botafogo e, numa possibilidade de ser atacado, escapar com velocidade. Deu certo.

O Botafogo de Martin Anselmi, sufocado por uma sequência de quatro derrotas, mantinha também uma linha de três com um lateral – neste caso Vitinho – ao lado dos zagueiros. Newton fechava a frente da defesa, com liberdade para Danilo acionar Montoro. Matheus Martins era a válvula de escape. Muitos titulares em campo. O time buscava fechar uma linha de cinco com Villalba pela direita e Alex Telles à esquerda. O problema era justamente o adversário. Com um ataque em bloco, o Flamengo dificultava as ações do Botafogo. Pressionava a saída, atacava os lados e, com isso, via sobrar um enorme latifúndio por trás de Danilo e Barrera. Ali o time entendeu que poderia construir o seu jogo. Por dentro. E o fez.

Flamengo no início: Ayrton Lucas como zagueiro, Royal e Lino de alas

Não é coincidência o gol de Lucas Paquetá, o primeiro em seu retorno, ter saído com uma jogada pelo centro. Erro de Matheus Martins no domínio, pressão de Vitão até chegar em Bruno Henrique. O atacante teve liberdade para parar, pensar, conduzir e esperar o melhor momento para rolar para Paquetá, sem nenhum pressão na frente da área, bater de primeira, no cantinho esquerdo de Neto. Buscar falta no lance de origem da jogada só é possível quem tem como vício a terrível arbitragem do futebol brasileiro, notável em picotar jogos. Matheus Martins erra o domínio, a bola passa. O encontrão de Vitão que vinha no combate é do jogo. Incrível o piti coletivo de atletas em volta do árbitro. O caminho é longo.

Ao fim, Botafogo com restante dos titulares em busca do empate

Mas voltemos ao jogo. O Flamengo apresentou o time mais indicado fisicamente e, por isso, competiu bastante. Samuel Lino, à esquerda, se desdobrou em marcação para ajudar Ayrton Lucas. Villalba foi escalado no setor por Anselmi para forçar as jogadas ali, com auxílio de Barrera. O Camisa 16 sofre por ser muito exigido na marcação e está em baixa confiança no ataque. Ainda gingou vez e outra, buscou tabelas com Carrascal e Paquetá, arriscou finalização. Mas falta confiança, a mesma que apresentou logo que estreou em 2025 contra o Atlético-MG. É necessário um trabalho de recuperação. Lino tem bastante valor. É preciso insistir em um clube que, pela torcida do Twitter, já teria limado Léo Pereira, Pulgar e Wesley por tantos julgamentos pretensamente definitivos. O Flamengo, portanto, foi superior no primeiro tempo.

Ao fim, Flamengo com três zagueiros de ofício

Sim, o Botafogo teve momentos, especialmente com as bolas enfiadas a Matheus Martins nas costas da defesa naturalmente adiantada. Jogadas geralmente iniciadas com Danilo, ao buscar dos zagueiros, girar e tocar adiante. Matheus Martins, sem nenhum cacoete de finalizador, perdeu chance incrível, inclusive, ao superar Vitão na velocidade. São os riscos que Filipe Luís diz ter consciência de correr. E sua ideia foi mais vitoriosa no primeiro tempo. Anselmi, também bom treinador, não ficaria parado. Ajustou o Botafogo na segunda etapa e, principalmente, adiantou o time e, consequentemente, a marcação. O Glorioso ficou mais agrupado, reduziu os espaços nas costas dos volantes – Danilo já tinha saído na primeira etapa. E forçou, ainda mais, o jogo na direita com Villalba e Barrera em Ayrton Lucas. O Camisa 6 do Flamengo geralmente apresenta dificuldades defensivas, mas se desdobrou como pôde para conter o ataque alvinegro. Em uma das boas recuperações que teve travou a bola a escanteio.

O Botafogo, que pouco ameaçava de fato, encontrou o gol na cabeçada de Barboza para um vacilo de Andrew, que perdeu o tempo da bola. O momento, então, melhorou para os donos da casa. Um Flamengo mais abaixo fisicamente tinha dificuldades em conter a força do Botafogo. Matheus Martins bateu para defesa de Andrew, Arthur Novaes chutou rente ao gol. Filipe Luís precisou oxigenar o time e colocar mais força no meio. Evertton Araújo no meio, Luiz Araújo pelo lado. Paquetá mostrou ser multifunção e assumiu a função de atacante quando Arrascaeta entrou em campo no lugar de Bruno Henrique. O Camisa 10, aliás, mostrou estar melhor fisicamente. Conseguiu arranques, protegeu a bola. Está claramente mais solto. Renovado, de volta ao 4-4-2 usual, o Flamengo retomou o controle do jogo. Trocar passes, ocupar o campo ofensivo. À la Filipe Luís. O gol seria natural e saiu em jogada de escanteio, com raspada de Vitão para Pulgar tentar duas vezes e contar com a colaboração de Neto. O Botafogo ainda tentou a pressão, mas parou no descontrole de Nathan Fernandes e Newton que ajudaram o jogo ser paralisado.

Foi um Flamengo, enfim, com um pouco de cara de 2025 no quesito pressão. Natural, a parte física está mais ajustada. Mas não foi o mesmo time de sempre. Filipe Luís modificou de acordo com o adversário. Inclusive com um terceiro zagueiro de ofício, Léo Pereira, nos minutos finais na vaga de Paquetá. CAusa estranheza, apenas, um clube com receita bilionária não ter uma alternativa viável a Pedro. Depois do início catastrófico no Carioca, o Flamengo parece ter caminho bem sedutor para chegar à decisão. Dois jogos contra o Madureira que podem servir, inclusive, para uma maior maturação à equipe de acordo com as novas ideias de Filipe Luís. Um técnico está longe de ser previsível. Ainda bem.

FICHA TÉCNICA
BOTAFOGO 1X2 FLAMENGO

Data: 15 de fevereiro de 2026
Local: Estádio Nilton Santos, o Engenhão
Árbitro: Bruno Arleu (RJ)
VAR: Rodrigo Carvalhaes Miranda
Acréscimos: 2’/1T e 5’/2T
Público e renda: 10.133 pagantes / 10.987 presentes / R$ 651.330,00
Cartões amarelos: Bastos, Martin Anselmi, Villalba (BOT)
Gols: Lucas Paquetá (FLA), aos 18 minutos do primeiro tempo; Alexander Barboza (BOT), aos oito minutos e Pulgar (FLA), aos 38 minutos do segundo tempo

BOTAFOGO: Neto, Vitinho, Bastos (Ythallo, 38’/2T) e Alexander Barboza; Villalba (Nathan Fernandes, 38’/2T), Barrera, Newton, Danilo (Arthur Novaes, 44’/1T), Montoro (Artur, 19’/2T); Matheus Martins (Arthur Cabral, 19’/2T),
Técnico: Martin Anselmi

FLAMENGO: Andrew; Danilo, Vitão e Ayrton Lucas; Emerson Royal, Pulgar, Lucas Paquetá (Léo Pereira, 43’/2T), Carrascal (Evertton Araújo, 25’/2T) e Samuel Lino (Everton Cebolinha, 14’/2T); Bruno Henrique (Arrascaeta, 14’/2T) e Plata (Luiz Araújo, 25’/2T)
Técnico: Filipe Luís