

Flamengo e Corinthians colocaram frente a frente em Brasília modelos antagônicos. De um lado um clube milionário, recém-multicampeão, com a predileção de se impor diante de todos adversários na América do Sul. Do outro, um clube em crise institucional, em situação financeira quase desesperadora e com característica de brigar por cada palmo de campo. Deveria ser um duelo até desigual. Mas com uma mobilização muito acima do adversário, o Corinthians venceu por 2 a 0 e levantou de novo a Supercopa do Brasil diante do mesmo Flamengo após 35 anos.
Ficou claro no noticiário e nas ações de cada lado quem mergulharia a fundo na Supercopa. Consequência direta das atuais fases. Ao entender que a taça poderia, sim, escapar o Flamengo viu despertar seu senso de urgência. Mas vamos ao começo pelo começo. Tudo foi costurado desde antes do jogo no Mané Garrincha. O Flamengo com seguidos resultados ruins, um ambiente mais carregado pelo fraco desempenho no Carioca e um tanto quanto inebriado pela chegada milionária de Lucas Paquetá. O Corinthians com um só foco: vencer a decisão diante do time mais badalado do Brasil.
Tanto que a Supercopa, geralmente festiva, teve pela segunda vez nessa nova era – depois de Palmeiras x São Paulo em 2024 – caráter realmente de decisão. Times mais presos, receosos em perder ou conceder chances. O Flamengo entrou em campo com seu já tradicional 4-4-2 que se transforma em um 4-2-4 à baila do momento do jogo. Dorival Júnior, então, levou o Corinthians com Raniele praticamente na função de um terceiro zagueiro e com a missão de acompanhar Arrascaeta de perto. Pressionou a saída rubro-negra quando no início e tinha escapes com André e, especialmente, Bidon. Levou dificuldades em alguns momentos. Mas o Flamengo encontrou saídas.
Ao furar a pressão corintiana, o time de Filipe Luís buscava o espaço por dentro. Acionava Pedro, principalmente, Arrascaeta, Carrascal ou até Plata pela faixa central. No toque de primeira ou no pivô, o Flamengo encontrou um clarão no centro do campo algumas vezes. Mas hesitou. Foi pouco agressivo e Hugo Souza não fez nenhuma defesa relevante. Rossi, em saída de jogo, tentou o passe rasteiro por dentro – quase uma repetição do que já fizera contra o Palmeiras no Brasileiro 2025 no Maracanã. Mas a escalacão em preto e vermelho trazia jogadores dos lados que buscavam mais o meio, além de laterais que pouco apoiam. Em vez de tentar atacar as costas de Matheuzinho, conhecido pela fragilidade defensiva e dificuldade em tomar decisões, Carrascal buscava o centro, conduzia a bola, driblava um, dois. Não fazia um jogo ruim. Mas não encaixava de forma ideal.
O Corinthians acompanhava Arrascaeta com Raniele e Gustavo Henrique tentava sempre antecipar Pedro, de forma faltosa ou não. Evitar o pivô, impedir qualquer lance de criatividade do atacante. Falta foi recurso constante do Corinthians. Foram 25 contra 12*. O Flamengo apresentava lentidão, rotação baixa e Jorginho e Arrascaeta ainda muito abaixo. O Corinthians, vibrante e com uma massa poderosa, saía em velocidade com Bidon para tentar acionar Depay ou Yuri Alberto. Assim teve chance de fazer o segundo gol, mas o camisa 10 bateu fraco para a defesa de Rossi. Em uma disputa truncada, com pouco trabalho para os goleiros, as chances chegaram na bola aérea. O Flamengo parou na linha com cabeçada de Pedro salva por Bidu. Já o Corinthians…
Antes intransponível, a defesa rubro-negra chega a um início de 2026 de forma bem mais errática. Quatro gols sofridos diante de Fluminense, São Paulo. A bola aérea virou um problema. Dorival estudou bem. Escanteio curto, Matheuzinho recebe na intermediária e levanta para Gustavo Henrique, enorme, disputar no alto com Varela, baixo. Ensaiado. A sobra seria inevitável. Gabriel Paulista completou, até fraco, para o gol. O Mané Garrincha explodiu. Havia jogo, disputa, embora com o Corinthians mais competitivo. Até a expulsão de Carrascal.
Exagerada, ainda mais em uma decisão. Mas válida. Faltou ao colombiano o mínimo discernimento em tempos de VAR. Uma resvalada de braço em Bidon, a quem pilhava e era pilhado de volta durante todo o jogo. A expulsão é o típico lance que explica por que quase todo jogador no Brasil se joga ao chão e leva as mãos ao rosto. Historicamente fraco, o árbitro Rafael Klein pode ter seguido qualquer tipo de regra, mas a decisão inusitada e sem bom senso de expulsar Carrascal na volta do intervalo e não logo após o lance quebrou qualquer estratégia de Filipe Luís. O Flamengo, menos mobilizado, viu o Corinthians atento aos mínimos detalhes. A pressão no apito foi imensa e o elenco paulista demorou quase 21 minutos para retornar a campo sem qualquer reação oposta. Detalhes…
Filipe teve, então, de trocar o pneu com o carro em pleno andamento. E o senso de urgência coletivo surgiu. Um Flamengo mais ligado, em busca do gol de empate, mais organizado. Promoveu a estreia de Paquetá e sacou Pedro, adiantando Plata. O planejamento do clube, porém, ficou nu a cada troca. Desde a saída de Gabigol, o Flamengo sente a falta de um centroavante capaz de alternar com o Camisa 9. Bruno Henrique, de novo, entrou na função quando Filipe tentava oxigenar o time. Mas não tem característica de segurar a posse, ser o alvo em bolas levantadas e pouco teria espaço diante de um Corinthians cada vez mais entrincheirado. Em bolas alçadas, o Flamengo chegou mais perto do empate, como a cabeçada de Pulgar no travessão. Impossível crer que o clube de milhões não tenha condições de encontrar um centroavante no mercado. Não se trata de simplesmente atender ao modelo de jogo de Filipe. O clube tem uma lacuna latente.
Os rubro-negros até pressionaram bem o Corinthians. Dorival, incomodado, mandava o time sair de novo ao campo ofensivo em vez de aguardar o bote pelo contra-ataque. Tinha sentido. Léo Ortiz, em péssimo momento, e Léo Pereira, em tarde ruim, não encontravam alternativas. Pulgar, um tanto quanto perdido, caçava os meias corintianos em um movimento de vaivém. Foi a vez de Dorival oxigenar o time e aproveitar espaços. O Flamengo alçou mais bolas à área e numa delas Paquetá perdeu chance inacreditável, encharcado pela ansiedade da reestreia. O gol de Yuri Alberto, depois de confirmação do VAR, apenas sacramentou o óbvio: o Corinthians, preparado e muito mobilizado, seria supercampeão do Brasil com méritos.
É difícil apontar que o Flamengo apresentou um jogo muito ruim apenas pelo resultado. No primeiro tempo tinha ideias claras, com o jogo por dentro. Mas Filipe, talvez, tenha pecado principalmente em deixar o presente fora. Seria claramente um jogo pegado, disputado, contra um adversário de pura energia. Arrascaeta e Jorginho, por exemplo, tinham dando indícios já contra o São Paulo que precisam de mais tempo. Neste momento baixam a competitividade da equipe. É possível que o treinador tenha entendido que se tratava de uma disputa de taça, mas não de uma partida fundamental para a temporada. É, no fundo, até verdade. O problema é que o ambiente do futebol não tolera derrotas seguidas. São três e uma perda de taça. O peso se acumula, a atmosfera ganha em densidade. Créditos são perdidos. O Flamengo precisa reagir e entender: 2025 já é um belíssimo quadro na parede.
*Números do SofaScore
FICHA TÉCNICA
FLAMENGO 0X2 CORINTHIANS
Data: 01 de fevereiro de 2026
Local: Mané Garrincha, em Brasília (DF)
Árbitro: Rafael Klein (RS – Fifa)
VAR: Rodolpho Toski Marques (PR – Fifa)
Acréscimos: 6’/1T e 8’/2T
Público e renda: 71.244 / R$ 12.690.257,00
Cartões amarelos: Breno Bidon, Depay, Gabriel Paulista, Matheus Pereira (COR)
Cartão vermelho: Carrascal (FLA), no intervalo
Gols: Gabriel Paulista (COR), aos 25 minutos e Yuri Alberto (COR), aos 52 minutos do segundo tempo
FLAMENGO: Rossi, Varela, Léo Ortiz, Léo Pereira e Alex Sandro (Ayrton Lucas, 35’/2T); Pulgar, Jorginho (De La Cruz, 35’/2T), Plata (Everton Cebolinha, 35’/2T) e Carrascal; Arrascaeta (Bruno Henrique, 22’/2T) e Pedro (Lucas Paquetá, 12’/2T)
Técnico: Filipe Luís
CORINTHIANS: Hugo Souza, Raniele, Gustavo Henrique e Gabriel Paulista (André Ramalho, 37’/2T); Breno Bidon (Charles, 37’/2T), Carrillo (Garro, 15’/2T), André (Matheus Pereira, 30’/2T), Memphis Depay (Kaio César, 30’/2T) e Yuri Alberto
Técnico: Dorival Júnior