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Tite e o pacote completo

Tite Seleção Brasileira 2017

Tite durante a partida entre Uruguai x Brasil, pelas Eliminatórias sul-americanas

Tite Seleção Brasileira 2017

O zagueiro uruguaio e são-paulino Lugano, certa vez, foi preciso ao analisar Tite em uma entrevista à ESPN Brasil. “É um encantador de serpentes”. Havia ali um misto de ironia e admiração. Uma alfinetada em um rival em duas frentes, seleção uruguaia e São Paulo, e o reconhecimento de como o técnico brasileiro é capaz de dominar as situações ao seu redor a ponto de praticamente se blindar de críticas da imprensa. Não que Tite as mereça agora, em pleno voo no ressurgimento da Seleção Brasileira após a estupenda goleada sobre o Uruguai em pleno Estádio Centenario. Mas Adenor Bacchi é no comando do time nacional um técnico com pacote completo.

Não há dúvidas do conhecimento tático do treinador, abraçado ao seu 4-1-4-1 e capaz de inventar soluções para adaptar a característica de um atleta ao esquema. Mas Tite, aos 55 anos, faz com sagacidade a leitura da garotada com que convive na Seleção Brasileira. É necessário se comunicar com todos, da maneira deles. Não o contrário. É uma geração que vive enterrada em smartphones e salta do ônibus com fones de ouvido maiores do que os tênis. Tite mostra conhecimento e busca até auxílio de videos via whatsapp para convencê-lo de suas estratégias. Linguagem digital. Sem invadir território alheio. Uma arte de sedução.

Tite gosta de falar. Chama ao canto, não poupa doses de ensinamentos da vida profissional, entre jogador e técnico, e passa histórias adiante. Pode ser que até exagere. Mas se veste com o perfil paizão e entende os caminhos da motivação. Sabe que é preciso acariciar a alma de jogadores em determinados momentos. Fez com Neymar. Rebelde, irritadiço com Mano, Felipão e Dunga, o camisa 10 amadureceu e embarcou naturalmente no protagonismo do time ao abdicar da faixa de capitão. Está leve, livre, solto, líder técnico e goleador. Sem confusões. Fez também com Thiago Silva. Aos poucos, o trouxe de volta à Seleção e evitou qualquer atrito pela faixa de capitão. O zagueiro do PSG, hoje, é banco. Sem bico. Com sorrisos. Mérito do Tite, este sedutor da bola. Que é, também, estritamente técnico.

Da China, trouxe homens de confiança sob desconfiança. Paulinho e Renato Augusto. Prepara um pacote especial, treinamentos específicos para deixá-los em ponto de bala. Auxiliado, claro, por sua comissão técnica. Mas Tite tudo controla, abraça facetas necessárias para decolar no futebol moderno. E os convence de suas missões, apaziguando o ambiente. Calcula os passos, projeta cenários. E escolhe palavras. Sabe lidar com a imprensa. Entendeu o cenário desastroso de Dunga. Assumiu o posto de ser o oposto. Entende a consequência fundamental de uma boa relação com câmeras e microfones.

Utiliza sorriso, abastece de informações nas coletivas. Tem o lado boleiro e também se farta de tatiquês. Agrada nichos e nichos. Divulga relatórios de análises e conta histórias de vida. Não critica diretamente a diretoria da CBF e se descola inteligentemente de qualquer imagem negativa por extensão. O seu campo dá resultados acima da expectativa. O Brasil lhe abraça. O ambiente é favorável. Passo a passo. Blindado a ponto de visitar o seu Corinthians, comemorar gols efusivamente em um clássico contra o Santos, e ser defendido. É, mesmo, um encantador de serpentes. Sabe como reunir diversos perfis em um trabalho só. Observa o ambiente, conserva a imagem. Experiente que é sabe que nem tudo pode. A virada pode estar na próxima esquina, no próximo jogo. Mas o pacote completo de Tite, raro, explica muito a reviravolta na Seleção Brasileira.

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