


A lógica apontava para um Fla-Flu com favoritismo. O Tricolor de Zubeldía, organizado, invicto por 16 jogos como mandante era escolha óbvia. Ainda mais diante de um Flamengo mergulhado no caos em meio à demissão sem sentido de Filipe Luís e a chegada de Leonardo Jardim. Se há algo, porém, que o Fla-Flu ensina a cada duelo é que lógica e e óbvio são palavras que não existem no seu dicionário. Em um clássico truncado, o Flamengo entrou asfixiado e saiu com um pouco de oxigênio na temporada ao garantir o tricampeonato carioca nas penalidades. Escolheu a segurança para sobreviver depois de ser sufocado por um maremoto típico da Gávea.
Vamos combinar desde já: foi um jogo feio. Bem feio. Amenizou, porém, observar um Maracanã com duas torcidas em uma linda disputa no gogó. Bandeiras rubro-negras de um lado, pó-de-arroz do outro. Atmosfera e estética capazes de seduzir até mesmo quem finge ser mais indiferente ao futebol. Pois não era, amigos, um clássico. Era um Fla-Flu. Confronto que transcende a bola. Forjou-se expressão popular. E, por si só, vale acompanhar. Mas eram também as duas grandes forças recentes do futebol carioca e das maiores do futebol brasileiro.
Não havia muita dúvida sobre o Flu de Zubeldía. Um time já montado, ajustado, no qual Savarino ainda aguarda sua chance de ser titular. Canobbio e Serna como armas pelos lados, Acosta ao tentar a liberdade pelo centro, John Kennedy à frente. Hércules e Martinelli quase alinhados. Um 4-2-3-1 já conhecido e muito competitivo. Gosto pelo contra-ataque. A incerteza estava do outro lado.
Leonardo Jardim assumiu o time a quatro dias da decisão diante da saída inesperada de Filipe Luís. Havia o questionamento: o português, de cara, já iria apostar em suas convicções ou daria tempo ao tempo e seria mais seguro por se tratar de uma decisão? A segunda opção foi a mais indicada. Jardim tem predileções distintas de Filipe Luís. Mas, a rigor, o time estava estruturado de maneira parecida ao do antecessor, na formação e na escalação. Um 4-4-2 que alternava a quase um 4-2-4. Uma ruptura logo em uma decisão seria desaconselhável, claro. Razão sobre emoção. O novo técnico tentou dar suas pitadas. Um time mais direto, objetivo, que não se furtava de usar bola longa para o pivô de Pedro em alguns momentos.

Era um Flamengo bastante preocupado em defender. Natural, diante de uma defesa tão vazada na temporada. Não significou, no entanto, ser retrancado. As características dos jogadores pedem uma postura diferente. O time rubro-negro teve muito mais volume e trabalhava a saída de bola com os dois zagueiros e um dos volantes. Ora Pulgar pela direita, ora Jorginho pela esquerda. Alex Sandro e Varela, portanto, ficavam mais enfiados pelos lados. Jardim admitiu no pós-jogo de forma clara: queria exigir um trabalho defensivo de Cannobio e Serna pelos lados para que tivessem menos força ao buscar o contra-ataque. De novo: o Flamengo teve mais volume. Mas caso não tivesse problemas Filipe Luís ainda estaria no banco de reservas.
É um time que apresenta neste ano um espaçamento entre os setores. Por trás dos volantes, Acosta conseguiu em alguns momentos ter alguma liberdade. Na beira do gramado, Jardim indicava o desejo claro: ter um time mais agrupado, com proximidade entre cada setor, a famosa compactação dita pelos colegas de análise tática. Com as mãos o técnico pedia que o time agrupasse. Dificultar as bolas do Fluminense. E, em parte, conseguiu. Foi um time muito menos exposto do que em outros jogos da temporada. Carrascal, em seu pior dia tecnicamente com a camisa do Flamengo, errava demais. Passes, tentativas de cair por dentro, se aproximar de Arrascaeta. E Samuel Lino, do outro lado, teve mais liberdade. Arriscou a cair por dentro, dribles. Mas quando não teve sucesso uma, duas ou três vezes a falta de confiança o abraçou. E aqui vale o parênteses.
É notório que a arbitragem brasileira vive uma crise. São árbitros despreparados, prepotentes, medrosos. Capazes de picotar e estragar com qualquer jogo. Na segunda etapa, Bruno Arleu contribuiui para o nível da partida descer ainda mais. De fato. Mas a simulação de Samuel Lino, vergonhosa, ao fingir uma agressão exemplifica que a mudança de postura dos jogadores também é urgente. Não cabe num futebol que se pretende organizado e ganhar ares de produto global. Deveria ter sido punido.

Pois bem. A segunda etapa foi ainda mais travada com um árbitro que teve gosto pelas faltas, a paralisação. E ainda a ousadia de conceder dois minutos de acréscimos em uma partida com dez substituições e atendimentos médicos. Os técnicos, em vão, tentaram melhorar o clássico. Zubeldía manteve a estrutura e apenas oxigenou com troca de laterais e Ganso para as penalidades. Jardim mexeu para aumentar a qualidade dada suas opções no banco de reservas. Paquetá, Cebolinha e Plata, este por dentro, já que era a única alternativa a Pedro. O jogo rubro-negro voltou a ser dominante. Mas falta agressividade. É um time que trabalha inevitavelmente na inteligência futebolística. Ver Alex Sandro e Jorginho em ação explica o porquê da vantagem rubro-negra em muitos jogos. O lateral antecipa, vê atalhos para marcação e tranquiliza. Falso lento. O volante que cadencia, indica, enxerga espaços, lidera, protege. Faz o time andar.

Nas penalidades, Rossi fez o que dele se espera: ser decisivo. O goleiro ainda exagera em saídas de bola, flerta com o perigo mesmo com experiências terríveis contra o próprio Fluminense e PSG. Mas impressiona a segurança que demonstra em cobranças de pênaltis. É, claro, uma vantagem. Desta vez garantiu um tricampeonato carioca.
Diante de um Fluminense que poderia ter sido mais ousado, agressivo contra um Flamengo claramente fragilizado por todo o contexto. É possível competir, mas o Tricolor vai precisar de jogadores de maior qualidade para dar um passo a mais. Até os tinha, como Arias e Thiago Silva. Não é trabalho fácil.

Como tampouco será o de Leonardo Jardim. O português foi inteligente ao manter a estrutura de Filipe Luís com leves pitacos de seu trabalho. Garantiu a taça e, com ela, comprou um pouco de tranquilidade depois de um início de ano infernal. A saída inexplicável de Filipe Luís com uma atuação intempestiva da diretoria do clube ainda tem o impacto imprevisível. Trata-se de um multicampeão que conseguiu levar o Flamengo, em que conhece cada profundeza, a conquistas seguidas. Jardim vai mudar o Flamengo, provavelmente cada vez mais. Outra filosofia. Outra ideia. É mais fácil fazê-lo com uma taça nas costas. Conseguiu. E, para isso, entendeu que o melhor caminho para estancar a crise é claro: o tricampeão carioca optou pela segurança. É o que precisava por agora.
FICHA TÉCNICA
FLUMINENSE (4) 0X0 (5) FLAMENGO
Data: 08 de março de 2026
Local: Maracanã
Árbitro: Bruno Arleu de Araújo (RJ)
VAR: Carlos Eduardo Nunes Braga (RJ)
Acréscimos: 1’/1T e 2’/2T
Público e renda: 62.985 pagantes / 69.315 presentes / R$ 5.270.903,50
Cartões amarelos: Renê, Serna, Acosta, Canobbio (FLU) e Samuel Lino e Jorginho (FLA)
Gols: –
FLUMINENSE: Fábio, Samuel Xavier (Guga, 29’/2T), Jemmes, Freytes e Renê (Arana, 30’/2T); Martinelli e Hércules (Otávio, 39’/2T); Canobbio, Acosta (Paulo Henrique Ganso, 39’/2T) e Serna (Savarino, 30’/2T) ; John Kennedy
Técnico: Luís Zubeldía
FLAMENGO: Rossi, Varela, Léo Ortiz, Léo Pereira e Alex Sandro; Pulgar, Jorginho, Carrascal (Lucas Paquetá, 18’/2T) e Samuel Lino (Everton Cebolinha, 18’/2T); Arrascaeta (Luiz Araújo, 40’/2T) e Pedro (Plata, 27’/2T)
Técnico: Filipe Luís