

Dia 0. Pensei algumas vezes, talvez por dias, se deveria iniciar o traçar de linhas por aqui durante essa Copa do Mundo. Já tinha pensado em fazê-lo em 2018, 2022. Na hora bateu a preguiça. Mas cá estamos. A dividir linhas, pensamentos, pitacos, percepções, análise. De tudo um pouco, sem formato definido. O nome dado desde já é Cruzados da Copa – pouco original, confesso. Mas o que importa em si é o espaço. Talvez seja algo um tanto quanto similar à finada – ou congelada – newsletter do bom Chute Cruzado. Simplesmente um quintal para desaguar as palavras que vêm à cabeça e não ficar limitado aos 280 caracteres da ex-rede do passarinho. Pois bem. É chegada a Copa.
Assim mesmo. Copa, com uma intimidade que nós brasileiros passamos a ter dada a tradição nesta competição. Um festival de futebol, onde todos se assumem como profundo entendedores de bola, analistas táticos, especialistas em comportamento humano. É uma democracia de opiniões que gosto. E me diverte. Tudo que a Copa abraça parece nos encharcar num completo torpor durante um mês – ok, agora mais do que um mês. O clima que começa a se instaurar com as convocações, os álbuns de figurinhas. Compremos o guia nas bancas, uma tradição agora já colocada na estante como um velho relógio clássico da Renascença. E vamos marcar os intervalos da vida na Copa. Em 90 a bandeira queimada pelo vizinho Geraldo por conta do Maradona. Em 94 o auge da euforia. Em 98 ainda no colégio, em 2002 na faculdade, 2006 já no trabalho e por aí vai. Lembranças enormes, amizades que se fizeram e desfizeram pelo caminho, outras que permaneceram. A Copa marca nossas vidas com exatidão por vezes irritante.
Como profissional estive em duas. 2010 e 2014. Sou grato pelas duas coberturas com experiências tão distintas, um torneio em casa e outro fora. É fechar o olhos e simplesmente fácil de lembrar os passos até a tribuna do Ellis Park em Joanesburgo, em 2010, para Argentina x Nigéria. Procurei o assento destinado ao meu ingresso – sim, precisamos de ingressos além do credenciamento geral da dona Fifa – e sentei. Olhei para o lado e lá estava um senhor de óculos, sorridente, cabelos grisalhos furando qualquer retranca do boné que usava. Era Tostão. O craque de 70 ali, do meu lado. E me cumprimentou com um “oi”. Respondi, educadamente, um tanto incrédulo. Mas lá estava Mestre Tostão a comentar o jogo do meu lado, vez e outra, como se fosse aquele guri um velho companheiro de concentração. Messi deveria bater assim. Tévez do outro jeito. Olha a movimentação, dizia. Foi incrível.

Do outro lado estava Acaz Felleger, falecido assessor de imprensa encarregado por Felipão, Hulk, Alex, entre outros. Tecia louros a Messi sem parar. Mais para outro canto, a jornalista Marília Ruiz, que de tímida não tinha nada. Pediu logo uma foto com Tostão no que embarquei com gosto. E decidi aproveitar o momento. Havia ali a obrigação do ofício, deveria mandar textos à redação do LANCE! no Rio. Mas aproveitei. Deixei me levar pelo ambiente, o waka waka aos berros no alto-falante no intervalo, a cantilena dos hermanos na arquibancada. Gostoso. Afinal, era Copa. Ou Mundial, como chamam nossos companheiros de Sudamérica. Sempre achei curioso.
Sou forjado em uma geração que ainda ansiava pelas ruas pintadas, as bandeirinhas espalhadas, as tabelinhas de papel distribuídas por empresas de todos os gêneros. Outro dia, cá perto de casa, fecharam uma rua para que crianças pintassem um pouco do chão. Passo por ali, vejo o asfalto em verde e amarelo e sorrio. Uma arte que aos poucos parece cada vez mais rara, mas que ainda pulsa. Tudo por conta da Copa. Um evento megalomaníaco que representava a união de povos em torno de um só esporte. Por isso doi ver notícias de cerceamento de liberdade nos Estados Unidos, árbitro somali deportado para casa, interrogatórios a quem dali a alguns dias pode fazer uma nação berrar de euforia, como o atacante iraquiano. Jornalisticamente o holofote da Copa está aí. Ou deveria.
Vidas mudam, carreiras acabam a cada quatro anos. Desta vez o intervalo foi mais curtinho, a Copa do Qatar ocorreu no fim de 2022. Mas cá estamos prontos para acompanhar a Copa como um garoto que colecionava figurinhas, minicraques, tampinhas de refrigerante. Tudo de novo. Ficamos mais leves, prontos para confraternizações, ávidos pela discussão sobre A ou B na seleção, rimos com o tio engraçado que faz piadas atrás de piadas em frente à tv. Colecionaremos, de novo, momentos para nossa história, o cantinho particular de cada um que levamos para a vida. Vou embarcar nessa, com palavras todos os dias, pitacos sobre os jogos, dividir histórias. Os seis leitores assíduos estão mais do que convidados. Com a Copa todos temos intimidade.