


Dia 32. Os intervalos entre jogos agora serão maioria. Mais frequentes, maior vazio no peito, angústia crescente pelo fim e mais tempo para reflexão. Ligo a tv no domingo em um amistoso entre Fluminense e Bahia que preenche a grade. Gol anulado, discussão, sururu pronto e técnico no fim dizendo ter sido feito de otário diante do árbitro. Era um amistoso. É uma ducha de água gelada. Durante pouco mais de um mês na Copa vivemos um período quase de sonhos. Há futebol, magia, supercraques, gênios, jogos inesquecíveis. E há também espaço para erros já debatidos aqui de arbitragem, interferência externa de dirigentes – e presidente! – em suspensões. Não é perfeito, mas é algo que no geral nos aproxima do mínimo desejado. Leveza. E dura só um mês. Aprendemos pouco com a Copa sobre o respeito ao jogo.
GOL ANULADO E CONFUSÃO!
— ge (@geglobo) July 12, 2026
O Bahia balançou as redes do Fluminense, mas o árbitro marcou uma irregularidade que não ficou tão clara e revoltou os jogadores do clube baiano. Foi bem anulado?#futebol #fluminense #bahia #amistoso pic.twitter.com/PXzc3ov3xP
Em pouco menos de uma semana a bola volta a rolar no Brasileiro e teremos, aos poucos, o choque da nossa realidade. Há um ambiente hostil, pesado, que estimula a desconfiança eterna sobre a idoneidade da competição, dos árbitros, das artimanhas políticas. E, no fundo, essa desconfiança tem sentido com ambiente tão permissivo. Não sabemos lidar com o futebol. O sangue latino e quente, ainda bem, é distinto da maior parte da Europa, a paixão berra mais alto por essas bandas. Cultural. Mas não justifica voltarmos a assistir, impassíveis, chiliques sobre qualquer dúvida em meros laterais, bolinhos de jogadores em torno de um árbitro acuado, teorias da conspiração em profusão a cada jogo, debates longos em programas esportivos sobre falas polêmicas de dirigentes e outras pequenezas. Somos mau perdedores e muito mal educados esportivamente. Um reflexo também da sociedade, assunto que nem vale ser aprofundado aqui.
Cada vez mais perder é proibido na nossa cultura futebolística e diante disso aceitamos qualquer subterfúgio para evitar a dor de uma derrota ou frustração. O antijogo é admitido como arma para contra-atacar um adversário superior e mais qualificado. Entristece, embora não surpreenda, ter observado comentários em defesa do que fez o Paraguai, por exemplo, contra a França por parte de jornalistas, analistas, representantes da bola que tradicionalmente sobem ao altar da isenção, tudo olham de cima, se denominam filósofos do cotidiano, progressistas, até puristas e defensores do bom futebol. A favor do que defendem, aparentemente, vale trocar de lado de maneira cínica e aceitar bordoadas, cotoveladas, provocadas baixas, cavucadas em marcas de pênalti, pressão constante sobre o apito. Tornam o futebol o refúgio do oposto do que vendem ser. São parte enorme do problema.
Não se trata de um debate aqui sobre modelos de jogo, táticas ofensivas ou defensivas para bater o adversário. O choque com a Copa ocorre especialmente na postura. Não há como defender Embolo, da Suíça, se queremos pôr fim à arte de ludibriar a arbitragem. Assim que o primeiro caso idêntico vier à tona em Brasileiro ou Libertadores, as opiniões vão divergir, abraçar viés clubista e ser iniciadas com um “veja bem”. Não há exceção. A atitude de Embolo deve ser combatida por aqui, sem mergulhos ao léu. Árbitros não devem ser envolvidos por bolinhos ameaçadores, xingados por comissões técnicas descontroladas, cotoveladas e antijogo como picotar faltas devem ser exterminados. A tolerância não deve estar de acordo com a defesa de clube A ou B. Tudo ainda parece uma utopia.
Esta tolerância com o mau comportamento resulta em uma distorção do jogo e da vida que gera choque quando o oposto é apresentado. Se o seu clube por aqui admite e utiliza tudo isso como armas é natural que entenda ser ofensa o combate a esse pacote. A Copa, porém, vem nos avisar que o mundo da bola, em geral, se comporta de outra maneira. Mergulhadores são punidos. Árbitros não são cercados de forma violenta. No esporte há derrotas, algumas bem doloridas, e na maioria das vezes a culpa não é de terceiros. É um sentimento enraizado há anos no futebol brasileiro – também sul-americano – e que contamina junto a Seleção. Devemos evoluir. Deixar o jogo ser jogado, com contato físico como lhe é característico. Menos controle e interferência, maior mediação. E, do outro lado, maior educação. Se ficamos encantados com a Copa há porquês que ela nos apresenta e insistimos em ignorar. Parece ser mais forte do que os mais impuros instintos. Quem defende a leveza, por vezes, é combatido. A esperança, de fato, é pequena para que algo mude em tão pouco tempo. Há lamentos sobre o retorno do futebol daqui, do fim da magia da Copa. Tem explicação. Há de se insistir, combater. Devemos respeitar, acima de tudo, o jogo pelo qual nos apaixonamos.