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Cruzados da Copa, dia 22: o dolorido rito do adeus em Copas
3 de julho de 2026

Cruzados da Copa, dia 23: Cabo Verde inverte a lógica e torna eliminação épica

Dia 23. A sensação de presenciar momentos épicos é estranhamente comum em Copas do Mundo. Basta um drible, um gol, uma cabeçada para abraçar o eterno. A seleção de Cabo Verde não deixou dúvidas desde a estreia. Estava pronta para ser cantada em prosa e verso para sempre, forjar capítulos memoráveis no imaginário popular. Atrevida como são os estreantes, Cabo Verde ousou mais. Decidiu se colocar de frente à atual campeã mundial, desafiá-la e, quem sabe, até mesmo eliminá-la num capítulo tão improvável que varreria o mundo como o dia em que Messi se despediu das Copas. Não foi o que aconteceu. Celebra-se, quase sempre, a vitória heroica, o triunfo que levou à glória. Cabo Verde inverteu a lógica. Tornou épica uma eliminação.

Não se trata de um pacto com o fracasso. Borrifá-lo com glamour a ponto de achar positiva uma desclassificação. Não. Cabo Verde foi além disso. Quando a bola deixou os pés de Lopes Cabral e viajou em uma curva bela até o ângulo de Dibu Martínez, o mundo prendeu a respiração. O mundo, mesmo. Assim permite a Copa. Não restringe a magia do futebol aos seus. É democrática. Há espaço para que todos admirem e se emocionem com Vozinha e os seus companheiros. A bola completou a curva com perfeição, estufou a rede argentina. E ganhou de vez a História.

A partir dali importava pouco se Cabo Verde, de fato, eliminaria a tricampeã mundial. Conseguiu fazê-la sofrer, se desesperar, apelar às várias artimanhas do universo da catimba sul-americana. Colocou em xeque a possibilidade e fez explodir o mundo da bola. Pois, sim, gostamos de fábulas. Histórias surpreendentes, o improvável. A simpática e estreante seleção de um arquipélago africano despiu as vestes de café com leite e se pôs de pé, olho no olho. O quarentão Vozinha se fez de garoto propaganda do time que travou três campeões mundiais sem perder nenhum jogo no tempo normal. Espanha, Uruguai e, por fim, a Argentina. É disso, também, que se trata a Copa do Mundo. Democratizar o futebol a ponto de permitir que Vozinha pare Messi por diversas vezes. Fazer Lopes Cabral conseguir transformar gol em emoção e euforia pelos quatro cantos do mundo. Da Copa do Mundo.

Cabo Verde chegou à Copa e traçou linhas douradas no livro dos Mundiais. Cativou, honrou, jogou futebol. E justificou por si só em trajetória tão impressionante como épica o inchaço para 48 seleções promovido por dona Fifa. Desejamos craques reconhecidos que brilhem, batam recordes, promovam duelos inesquecíveis, equipes que redesenhem o caminho do futebol. Tudo verdade. Mas é irresistível não ansiar, também, por histórias como a de Cabo Verde. Um time de um país de meio milhão de habitantes, de língua portuguesa, africano, recheado de personagens. Que joga bola e que deixou esta Copa. Mas inverteu a lógica, tornou uma eliminação épica. E, assim, ganhou logo na estreia uma passagem para todo o sempre.

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