Oito mil dias e 22 títulos depois, o reencontro decisivo no novo Fla-Flu para a História
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No êxtase do Maracanã, a explosão de um Flamengo que ganhou gosto pela taça

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Guerrero sai para comemorar o gol de empate contra o Fluminense no Maracanã

Os livros agora já dizem. Foi em 7 de maio de 2017, um domingo com o Maracanã colorido e pulsante, que tudo novamente se inverteu. Mais de duas décadas depois, o grito rubro-negro explodiu, livre, representando a festa de sua gente que encheu o estádio de vermelho e preto para fazer festa. Um libertar de uma geração. Se em 95 deu Flu sobre Fla, agora tudo foi espelhado. Deu Fla sobre Flu. De novo, no apagar das luzes. De novo, com aflição. De novo, histórico. Com novos herois e novos vilões. Um campeão que não permitiu ser abatido uma vez sequer em todo o campeonato. Um campeão que ganhou o ingrediente que precisava em sua mistura: o gosto pela taça. Um justo campeão chamado Flamengo.

Flamengo no primeiro tempo

Mas o futebol, vocês sabem, não gosta lá muito de justiça. Há uma combinação necessária de eficiência, sorte e gana para colecionar faixas. E gana não faltou a nenhum dos lados. O Fluminense queria demais. Abel prometeu o mesmo time, com postura diferente. Homem de palavra. Mesma escalação, no 4-3-3, mas a diferença: desta vez, não se intimidou com o Flamengo que defendia com seis homens. Partiu para cima, tentando alternar os laterais com os pontas no cair pelo centro e confundir os marcadores rivais. A missão era abafar o adversário e arrancar a vantagem o quanto antes. Conseguiu em três minutos.

Foi o suficiente para Sornoza cobrar um escanteio na cabeça de Renato Chaves, que resvalou para a outra ponta. Ali, Henrique Dourado superou um hesitante Réver e ceifou de cabeça, dentro da rede de Muralha. A parte verde, branco e grená, ainda com pó-de-arroz à sua frente, explodiu numa festa empolgante. Assustou a massa rubro-negra, pois o time mal tinha entrado em campo e a vantagem já se dissipara. Sim, amigos, era um Fla-Flu que, como de costume, inverteu a lógica. Rasgou a vantagem de um dos lados e ameaçou reduzir ilusões a pó em minutos. No 4-1-4-1, com Renê na lateral, Trauco no meio e Berrío e Everton nos flancos, o Flamengo entendeu que precisaria entrar no jogo. Conseguiu também por que o Fluminense deu passos para trás e recuou a marcação.

E à sua maneira, claro. O time rubro-negro equilibrou as forças. Adiantou o time e, geralmente com Rafael Vaz na saída de bola, girava o jogo, de um lado para o outro, esperando um buraco para arrematar. Mas o Fluminense, já recuado, fizera a lição de casa depois do primeiro jogo. Guerrero era vigiado por Renato Chaves ou Henrique, que tentavam antecipar para impedir as matadas de peito mortais que davam sequências às jogadas pelos lados. O jogo ficou truncado.

O Flu oferecia campo e aguardava o contra-ataque, mas aproveitava para lançar bolas na área, fosse em lateral ou escanteio. O Flamengo mantinha a posse de bola sem achar espaços para triangulações com laterais e pontas. Berrío, velocista, mal trotava diante da falta de espaço. No meio, a equipe não era aguda, com Trauco em tarde ruim. Não havia campo nem de um lado, nem de outro. Os flancos estavam bloqueados. Como tinha a bola, cabia ao Flamengo ser incisivo para recuperar a vantagem. Quase conseguiu.

Fluminense no início do clássico

Curiosamente, num contra-ataque, fazendo o Flu provar de seu próprio veneno. Márcio Araújo esticou na esquerda, Renê, em tarde soberba, cortou para dentro e cruzou. Na sobra na segunda trave, Everton levantou torcedores dos dois lados da aquibancada. A pancada saiu alta, mas Cavalieri buscou. O Fluminense, em sua estratégia, arriscava demais ao dar campo ao rival. Zé Ricardo tentava se livrar das amarras de Abel. Inverteu Berrío com Everton nas pontas. Mas Fla-Flu, vocês sabem, não permite ninguém se acomodar confortavelmente na arquibancada. O Flamengo era melhor? Quase gol do Fluminense.

Nos dois últimos lances do primeiro tempo, Wellington apareceu sozinho pela direita. Em um chutou no peito de Rafael Vaz. No outro, recebeu passe açucarado de Henrique Dourado em um contra-ataque. De novo, carimbou em Vaz. Com 1 a 0 no placar, o Maracanã tentou respirar. Tudo estava aberto, mesmo com o jogo amarrado. Existiam cartas a lançar no segundo tempo. O Fla-Flu ainda escolhia quem eleger com herois e vilões como uma boa fábula da bola.

Na volta para a segunda etapa, um jogador começou a se agigantar em campo. Renê, o reserva que de última hora se transformara em titular, defendia e atacava com a mesma eficiência. Aos três minutos, ele evitou o que fatalmente seria o segundo tricolor ao interceptar com perfeição um cruzamento açucarado de Wellington, pela direita, para Henrique, no meio da área. Claramente o Fluminense já se lançava mais à frente. Léo já não se preocupava tanto com a parte defensiva. Sim, o Fluminense queria demais. Talvez porque já soubesse que o Flamengo tinha um preço a pagar. O desgaste.

Flamengo ao fim da partida

Alguns rubro-negros já evitavam piques. Guerrero não era o jogador que se movimentava demais como em outras partidas. Não por falta de tentativas. Mas o corpo cobrava pela sequência desgastante. Everton tentava, mas também não tinha mais pulmões para ocupar a faixa esquerda na frente e atrás. Trauco errava o que tentava. Zé Ricardo tentou mudar e sacou Berrío e o lateral peruano. Gabriel e Rodinei entraram. Abel respondeu com Maranhão na vaga de Wellington. Espaços se abriram em campo e os times queriam velocidade. O Fla-Flu indicava que não seria decidido nos pênaltis. E não foi.

Com o toque de bola, o Flamengo alargava a marcação tricolor, abrindo brechas para disparadas de Rodinei pela direita às costas de Léo. Uma estratégia para evitar a correria, o desgaste e ter a bola em seus pés. Mas na reta final da partida, a ideia foi para o espaço com o surgir de um sentimento: sim, o Flamengo frio, racional, de toque de bola queria muito o título também. Decidiu arriscar. Colocar coração na final. E chutar de longe sem esperar o momento ideal. Arão chutou, a bola desviou em Henrique e saiu pela linha de fundo. O Maracanã pulsava. Tricolores entoavam o cântico de João de Deus. A massa rubro-negra erguia as mãos em busca de vibrações. Fla-Flu guarda sempre o melhor para o fim. Foi assim em 95. Por que não seria em 2017? Pois, sim, foi.

A bola viajou em escanteio cobrado por Gabriel. Réver fez falta ao disputar bola por cima com Henrique. Mas Cavalieri falhou e bateu roupa. Então o Fla-Flu apontou o seu heroi. Sem caô. O chute foi seco, de primeira, com vontade na perna esquerda. Vontade de ser campeão. A rede balançou e o Maracanã explodiu. Guerrero, em êxtase, tirou camisa, berrou, apontou. Deixou-se perder em um sentimento que invadiu o lado rubro-negro. Ali estava ele, o Fla-Flu. Mais um capítulo em sua história. A torcida rubro-negra entrou em transe. 22 anos depois, o final seria diferente.

Fluminense na reta final do clássico

O Fluminense, valente, resistira demais. Marcos Junior e Pedro já estavam em campo. O Tricolor era só ataque. Faltavam minutos para reescrever o Fla-Flu. Então Márcio Araújo disparou e parou em Cavalieri. Depois, Rodinei disparou uma vez, fez Cavalieri ser expulso e Orejuela ir para o gol. Então Rodinei arrancou de novo, avançou e Orejuela, tonto, deu uma volta em si até relembrar que era o goleiro. A arquibancada queria o chute. Rodinei esperou. A arquibancada exigia o chute. Rodinei avançou mais. A arquibancada iria xingar Rodinei. E ele bateu, mansinho, para tocar a bola dentro do gol e realizar a mágica do clássico.

22 anos depois, Fla sobre Flu. O Maracanã, em festa com sua maioria, parecia posar para fotos e vídeos que serão eternizados. Uma celebração com vozes ecoarão por dias, meses, anos, décadas. Sorrisos foram abertos. Lágrimas rolaram por rostos. Um cenário que parecia, de novo, tornar lei: quem gosta de futebol deve, ao menos uma vez na vida, ser agraciado e presenciar um Fla-Flu decisivo num Maracanã lotado. Um clássico que tornou em campeão invicto um Flamengo consistente, que colecionava bons desempenhos, mas que carecia de uma taça para abrir o apetite pelas conquistas. E sem caô nenhum: agora já não carece mais.

FICHA TÉCNICA
FLAMENGO 2 X 1 FLUMINENSE

Local: Maracanã
Data: 7 de maio de 2017
Horário: 16h
Público: 58.399 pagantes / 68.165 presentes / R$ 3.242.130,00
Árbitro: Wagner do Nascimento Magalhães (RJ)
Cartões amarelos: Pará e Márcio Araújo (FLA) e Lucas, Léo, Henrique Dourado e Wellington (FLU)
Cartão vermelho: Diego Cavalieri (FLU), aos 47 minutos do segundo tempo
Gols: Henrique Dourado (FLU), aos três minutos do primeiro tempo; Guerrero (FLA), aos 39 minutos e Rodinei (FLA), aos 50 minutos do segundo tempo

FLAMENGO: Alex Muralha, Pará, Rever, Rafael Vaz e Renê; Márcio Araújo; Berrío (Gabriel, 11’/2T), Willian Arão, Trauco (Rodinei, 16’/2T) e Everton (Juan, 43’/2T); Guerrero
Técnico: Zé Ricardo

FLUMINENSE: Diego Cavalieri, Lucas, Renato Chaves, Henrique e Léo; Orejuela, Wendel (Marcos Junior, 42’/2T) e Sornoza; Wellington (Maranhão, 17’/2T), Henrique Dourado e Richarlison (Pedro, 41’/2T)
Técnico: Abel Braga

  • Jr

    Vale lembrar que antes mesmo do Réver cometer falta, Guerrero foi agarrado como em uma luta de judô. Mas, era futebol.
    Já dizia Muricy: a bola pune.