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Cruzados da Copa, dia 24: França, Paraguai e o futebol que queremos no campo e na vida

Twitter Copa do Mundo FIFA

(Twitter Copa do Mundo FIFA)

Dia 24. Sem zebras no primeiro dia das oitavas, a Copa galopa. 90 jogos já foram disputados e restam meros 14 pela frente. Copa do Mundo dita regras, deixa legados, debates, modifica o futebol dentro e fora de campo. Tendências são registradas, regras introduzidas, a maneira da cobertura jornalística analisada e incorporada. Neste pontapé inicial das oitavas os holofotes foram todos para cima do combate entre França e Paraguai. É justo até que se classifique assim mesmo, como um combate. Os Bleus levaram a vaga por um minguado 1 a 0, mas o andamento da partida levantou o debate do que queremos para o nosso futebol no campo e na vida, em nosso quintal, a brava Sudamérica. O jogo é um reflexo do que somos.

Necessário registrar de antemão – e para evitar nervosismos desnecessários – que não há problema algum no modelo de jogo paraguaio. Ferrolho daqueles, proteção total à área, disputa por cada palmo, tentativa mínima de ter a bola e respirar num contra-ataque para, quem sabe, sonhar. Legítimo, do jogo. A diferença entre os times, afinal, é mesmo abissal. O problema se encontra na postura. Temos, cá por Sudamérica, a ideia de que o campo de futebol é uma batalha e deve ser encarado como uma luta contra inimigos, especialmente em jogos mata-mata. Matar o jogo, torná-lo impraticável, chutar a ética e, se necessário for, utilizar de violência. Foi este o problema do Paraguai. Antijogo.

Criticamos, em geral, quando o mesmo ocorre em Libertadores contra equipes brasileiras, notadamente mais fortes. Subterfúgios que remetem a um futebol antigo, ultrapassado, sem câmeras suficientes para observar tudo. É louvável que se tenha alma, se viva o futebol, Gustavo Alfaro seja poético em coletivas e preleções para motivar seus jogadores. Mas entrar em campo como se fosse Solano López em cima de um cavalo, tal qual fez Galarza, é sem sentido em 2026. Foi lá o Camisa 23 peitar com toda a masculinidade exarcebada Mbappé e seus companheiros. Tentou dar tapa, deu cotovelada, carrinhos, buscou pilhar o máximo os franceses. Acabou com Mbappé a gargalhar em sua cara ao fim do jogo. Como fez Dembelé quando Velásquez cavucou a marca de pênalti. Porque no fundo é isso: infantil. Uma noção de mundo opaca, até de inferioridade, ao tentar achar que europeus seriam intimidados por tal postura.

Velásquez, Galarza, Alonso e companhia talvez tenham se esquecido que Mbappé, Dembelé e companhia cresceram também com dificuldades, em locais onde intimidação é parte do cotidiano. Não são lordes inocentes cultivados dentro de um castelo amedrontados. Sabem jogar o jogo e devolver a pilha da mesma maneira. Reflexo da bola, da vida. Sem cotoveladas, tapas, cavucadas em marcas de pênalti, tropeço por cima do goleiro para retardar a reposição de bola. Para vencer e avançar é necessário, também, ter postura. Vale repetir: aqui em bandas brasileiras reclamamos, de maneira justa, quando o antijogo é utilizado para equilibrar forças desniveladas, inclusive com a conivência da arbitragem. A coerência exige lamentar, também, o que houve neste França x Paraguai. Um entendimento que deve invadir os países sul-americanos, iniciar uma mudança de rota. Porque, no fundo, o resultado é quase sempre o mesmo. A França avançou, segue favorita, as equipes brasileiras são campeãs da Libertadores de maneira consecutiva desde 2019.

Menos de 24 horas antes de França x Paraguai tivemos um duelo de forças tão desiguais campo quanto. Sem nenhum resquício de antijogo, Cabo Verde levou a atual campeã mundial, Argentina, ainda mais ao limite. Novamente: não se trata de modelos de jogo, que inclusive foram diferentes. É possível e legítimo disputar e ganhar jogos de várias maneiras. É apenas um desserviço ao futebol a postura que ganha entusiasmo pela América do Sul. Intimidação barata, cotoveladas, chutes, marcas de pênalti cavucadas. O Paraguai o fez desde o início do Mundial e mesmo sem estar à frente do placar. Mbappé riu ao fim do jogo, fez graça. Provocou, como já fizeram argentinos com holandeses em 2022. Pertence ao futebol, diria Vanderlei Luxemburgo. O antijogo, não. Pelo menos não mais num jogo que evolui e faz parte de nossas vidas.