


Dia 28. Um dia vazio. Ainda dentro da Copa, mas sem Copa. Primeira data sem jogos, apenas oito seleções na disputa. A Copa se encaminha para o fim e já desperta reflexões. Tenho a mania – nada original até – de tentar encaixar a mais nova Copa do Mundo dentro da lista de todas as Copas que já acompanhei. Não discuto 1958 ou 1970, obviamente. Reverencio, assisti a alguns jogos desses Mundiais já na íntegra – viva a internet – e olho com carinho. Na atual faltam apenas oito jogos dos 104. A Copa mais inchada, lotada de seleções, com polêmicas parrudas de arbitragens, interferências externas, mas ainda assim deliciosa.
É recomendado aguardar o fim do torneio para encaixá-lo devidamente no ranking pessoal. Outro dia passeava pelo Twitter e vi uma pensata de um jornalista, suponho, espanhol. Disse José Ignacio Wert: “O melhor Mundial das nossas vidas é o que nos pega mais próximos dos 11 anos de idade”. Tendo a concordar bastante, como a maior das respostas ao post. Momento em que já não se é criança e tampouco adolescente, um meio do caminho no qual o futebol o arrebata de forma apaixonante e vira a prioridade da vida. Concordo demais. Diante disso ponho lá a Copa de 1994 no topo da minha lista. Uma Seleção Brasileira sob desconfiança, mas campeã com muitos méritos. Bebeto e Romário. Capitão Dunga. Só de fechar os olhos me lembro chorar de soluçar após o pênalti de Baggio. Tio João me ofereceu a milagrosa água com açúcar e me levou para ver a repercussão nas ruas. Parecia, ou melhor, era um completo carnaval. Mesmo.
El mejor Mundial de nuestras vidas es el que más cerca nos pillara de los once años de edad.
— José Ignacio Wert (@JoseIgnacioWert) June 27, 2026
1998 vem logo a seguir, pertinho, cronologicamente e na lista. Tão pulsante quanto 1994, mas já com tv a cabo, alguns debates, discussões, livros, revistas e álbuns devorados avidamente em Petrópolis. E a Seleção Brasileira, de novo, arrebatadora. Nem as cabeçadas de Zidane foram capazes de diminuir a sedução. Lembro do golaço de Owen contra a Argentina na casa do avô. Da estreia contra Escócia, a cambalhota de Cafu e uma bebêzinha recém-nascida, de dias, que já está prestes a ser mãe nesse ano. Do golaço de falta de Mihajlovic, ainda pela Iugoslávia, contra o Irã na tv do restaurante onde outro avô se atracava a um prato de guarnição francesa. Da dupla croata Suker e Vlahovic com Boban atrás. O tio que voltou correndo do banheiro quase com as calças na mão quando Ronaldo se jogou para balançar a rede da Holanda. Memórias, gostos. Alegrias, tristezas. A Copa nos permite desfrutá-la de várias maneiras.
Curti, de maneira bem infantil, a Copa de 90. Geraldo, o vizinho, e a queima da bandeira devido ao Maradona nunca sairão da cabeça. Em 2006, a cabeçada de Zidane vista num quarto de hotel, solitário, em Itu durante cobertura da intertemporada do Botafogo. E rimos, maldosos que somos, do Vanucci e sua performance após o título da Itália no treinamento de Dodô e companhia. 2010, inesquecível, a primeira cobertura de Copa. 48 dias na África do Sul com um tanto de histórias e um quartel-general com a equipe do LANCE! no coração de Joanesburgo e viagens por diversas sedes. Tantas histórias que, quem sabe um dia, as compartilho por aqui num só texto. De uma tentativa de assalto no Ellis Park às risadas que dávamos na casa alugada sob a batuta de portuguesas e de um sul-africano chamado Uncle Mark.

Formar um ranking é ação totalmente subjetiva e a discordância é fundamental para que gastemos horas e horas com um debate onde todos têm razão. Tendo neste momento a encaixar a Copa de 2026 como a quinta colocada da lista. Difícil que desbanque 2014 do quarto lugar. Copa em casa, com todos os seus, aquele sentimento nacionalista, jogos memoráveis – alô, 7 a 1 – e tantas histórias para contar daqueles já longíquos dias. 2026 nos apresenta ainda craques, como Cristiano Ronaldo, e gênios, como Messi, além de sei-lá-como-classificar Mbappé. Jogos bem disputados, belos gols e a possibilidade de puxar um celular e assistir a qualquer jogo onde e quando quiser. É mágico para quem tinha de ajeitar a parabólica nos idos de 90, 94. A Geração Z mal vai saber a delícia e o perrengue que era. Coitados.
Mal citei 2002, devem reparar. A última da minha listinha. Mesmo com pentacampeonato. Jogos na madruga, França x Senegal assistido em Teresópolis com amigos da faculdade. Já tínhamos um site, o Newsports, falávamos sobre o jogo, a Copa. Mas um Mundial pobre, com absurda interferência de arbitragem, horários poucos convidativos e nível técnico abaixo. Não desperta tanta saudade assim. Por isso é satisfatório perceber que as Copas recentes marcam ainda mais. 2022, a melhor final de todos os tempos, a coroação de Messi. E, agora, uma Copa bacana, enfim com textos diários por aqui – ideia em 2018 e 2022 que ficou no papel. E, claro, com um molequinho de nem um ano no colo que ama seus canarinhos pistola de pelúcia. Dei uma relida até aqui, nem curti muito o texto. Um jeito mais solto, intimista. Mas e daí? Talvez ideal para um dia sem jogo. Ou talvez ninguém nem leia isso até aqui. Ainda teremos mais pela frente. Fernanda Torres disse que a vida presta. E a Copa está nela.
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