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Cruzados da Copa, dia 30: um mês de uma Copa dos craques inacessíveis

Dia 30. Um mês de Copa. E realmente parece que foi ontem. Até 2022 tudo já estaria encerrado, estaríamos de volta à normalidade. Mas, como sempre disse, esta Copa nos desmama aos poucos. Temos pela frente pouco mais de uma semana, ainda que sejam apenas seis jogos restantes. Deu Espanha e seu futebol detestável – perdão aos puristas – contra a Bélgica, com a sonolência de sempre, embora com méritos e, óbvio, qualidade. Ninguém chega a uma semifinal de Copa do Mundo à toa. Diante do marasmo espanhol – repito, para mim – o guri que se destaca é mesmo Lamine Yamal. Apenas 18 anos, um irmãozinho que é uma figura e já história para contar. Tão novo e já tão intocável, na trilha que os protagonistas do futebol atual percorrem.

Nesta sexta mesmo Neymar virou notícia por ser um visitante intocável em um parque temático em Orlando. Óbvio que por se tratar de uma celebridade há todo um aparato de segurança, vários engravatados ao lado para evitar que se forme um grande tumulto e atrapalhe a vida de outros turistas. Natural. Mas a imagem de Neymar num carrinho de golfe, acenando a alguns, tentando sorrir para outros que corriam ao lado e lutava com seguranças em busca de uma selfie, causa desânimo. Nem é culpa dele neste caso. Mas esse distanciamento existente hoje entre estrelas da bola e os que o fazem famosos e milionários um tanto quanto me inquieta. É papo antigo, sei disso, mas logo me veio à memória Nilton Santos.

Tínhamos na redação do LANCE!, lá pelos anos 2000, uma enorme agenda com telefones de todos os tipos. Jogadores, técnicos, colunistas da casa, dirigentes, assessores. Residencial, celular. Enfim, tudo. Não era raro alguém ligar para Antônio Lopes, então técnico do Vasco, e pedir uma opinião. Dona Elza, sua mulher, atendia e dizia para ligar de novo “depois da novela”. PVC, então colunista, pedia para ligar mais tarde, já que dava banho nos filhos ou os buscava na escola. Pois bem. Nilton Santos, a Enciclopédia do futebol, bicampeão mundial, talvez o maior de todos no Botafogo ao lado de Garrincha, tinha lá seu número anotado. Por vezes dava opinião. Em 2005, durante um evento em General Severiano, o ídolo botafoguense completou 80 anos. Sentado em uma cadeira no salão, dava entrevistas e autógrafos para quem se aproximava. Era um senhorzinho simpático, com voz doce, e ao menos naquele dia muito acessível pessoalmente. Sorria, agradecia. E me falou algumas palavras sobre a alegria de estar ali. Entendia que era também o que era por eles, os torcedores.

Arquivo Diário LANCE!

Não conheço Lamine Yamal em seus pormenores, mas parece difícil que esteja fora dessa rede invisível que a todos protege. Neymar, Vinícius Júnior igualmente. Sobre Messi e Cristiano Ronaldo, melhor nem falar. Vivem um mundo à parte, encastelados. Óbvio que o mundo mudou, o assédio aumentou, as redes são tóxicas e cada post em uma rede social vale uma fortuna. Ainda assim é muito gelado. Zico segue acessível, assim como um par de jogadores de fama, status, campeões do mundo. São dias em que todos são tão precoces. Não é fácil, de fato, ter a cabeça no lugar ao ser estrela da seleção espanhol e do Barcelona ao mesmo tempo. Yamal tem muito tempo para se consolidar ainda mais na carreira, se tornar um dos grandes, sentar em mesas como as que estão hoje Messi, Cristiano Ronaldo, Mbappé. É um alento que agita a Espanha, a deixa mais diferente e menos monótona. A Fúria – abandonaram o apelido, mas é legal – pode ser campeã. Mas é difícil imaginar Yamal, daqui a 60 anos, num evento dando autógrafos, tirando selfies ou qualquer tecnologia da época. O mundo mudou, o futebol e a Copa, também.

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