

(Twitter FifaWorldCup)

Dia 37. Nem faço ideia exatamente de quando tenha surgido o tipo de comportamento, mas se convencionou há bastante tempo por aqui em terras brasilis a necessidade de aval de opiniões estrangeiras. Precisamos, no geral, delas. Certamente foi Nelson Rodrigues, lá no pós-Maracanazzo de 1950, quem detectou essa característica primeiro e cunhou o termo “complexo de vira-lata”. Tudo que vem de fora é ótimo, superior, capaz de direcionar nossas vidas e opiniões. Um tipo estranho de legitimidade. Tem acontecido, e muito, no futebol nesses tempos de Copa do Mundo.
Há uma necessidade geral em legitimar Pelé como o maior de todos os tempos com o carimbo de fora. Há alguns anos dei minha opinião aqui no bom Chute Cruzado sobre o tema. Pelé é o Big Bang da bola, tudo partiu dele. E, portanto, é insuperável, faça o que faça Messi. E o argentino fez muito de lá pra cá. A cereja de bolo pode ser neste domingo. Certamente é quem mais se aproximou do Rei. A majestade segue e seguirá por lá. Mas precisamos da legitimação estrangeira. Eles têm que concordar, dar a assinatura final sobre o tema. Bom, danem-se todos eles. Uma história mais do que centenária do esporte não pode se resumir a opiniões de A ou B. É o que é.
O Brasil fala muitas línguas. Português, dialetos, sotaques, ritmos.
— Pelé (@Pele) November 25, 2025
Mas existe uma linguagem brasileira que nenhum país do mundo precisou aprender para entender.
Ela foi verbo, gesto, símbolo. Foi a gramática perfeita do futebol.
Onde quer que estivesse, em qualquer… pic.twitter.com/1zenqXHQbr
Um correr de olhos por sites e jornais – sim, ainda existem – e é fácil observar alguma nota que aborda a imprensa estrangeira. Qual olhar dela para temas variados na Copa e, em especial, sobre o futebol brasileiro. É algo que serve simplesmente como curiosidade, em pouco ou quase nada agrega. Falta altivez para nós. Isso faz, ao mesmo tempo, com que sejamos condescendentes com o apagamento de gênios da nossa história futebolística. Garrincha, por exemplo, passou a inexistir em listas de melhores de todo os tempos. Zizinho e Ademir da Guia, igualmente. Paulo Sérgio e Souza, jornalista, autor do livro “Zico – o Rei do Maraca” lembra que Queixada anotou nove gols em seis jogos na Copa de 50. Quatro em apenas uma partida. Está apagado. Ninguém fala, ninguém diz que vê.
Há uma questão, também, geracional. A turma mais jovem, no geral, ignora bastante o passado. Passa a considerar tudo a partir da própria existência, como um autoelogio de que toda sua época é a melhor. O passado deve ser apagado. Reflete no futebol. Contar que viu em Messi o maior de todos os tempos é se autodeclarar uma testemunha ocular da História. Um individualismo típico dos tempos atuais. Pelé, com toda tecnologia atual, a evolução da medicina esportiva, seu dom e sua capacidade física seria mais longevo do que Messi. O Rei aos 28 anos colecionava três Jules Rimet. Junte isso ao complexo de vira-lata e, de fato, fica difícil para Pelé concorrer com o tempo e as novas gerações. O Rei deveria ser mais cultivado, defendido por nós mesmos. Sempre com um pé na realidade. Os argumentos a favor de quem fez da Camisa 10 o sinônimo de craque seguem aí, não faltam. Maradona e Messi, aliás, vestiram a 10 por ter existido antes Pelé. Não precisamos do aval ou legitimidade além fronteiras. A troca cultural, o entendimento entre os povos é ótimo. Engrandece. Mas somos capazes de delimitar e entender o mundo por nós mesmos.
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