
(Gilvan de Souza / CR Flamengo)

O 10 procura o 9. Classudo, maroto, ele recebe a bola com o lado externo do pé e serve o 16 na frente do gol. O corte seco, com sabor de vingança, faz o adversário deslizar para um lance eterno. A batida é forte, sem chances para o goleiro. A massa explode. Há poucas simbioses capazes de tornar um só arquibancada e campo como Flamengo e Maracanã. Histórias foram traçadas, decepções até contadas, mas inúmeros momentos de glória contados de geração em geração entre uma subida e outra de rampa. Na noite de 19 de agosto de 2026, a massa e o time se entrelaçaram. Em transe, o Maracanã presenciou uma exibição de gala, numa mistura de técnica e fibra, narrada ao som de “Meeengo!” como um passado que invadiu o presente. 2 a 1 sobre o Cruzeiro na Libertadores numa noite em que passado e presente se encontraram para ganhar o eterno.
O grito de força oitentista, uníssono e constante, é locomotiva que faz o torcedor raiz viajar no tempo e apresentar a magia de Zico e companhia aos guris de hoje. Pois, a rigor, o Flamengo de todos os tempos se caracterizou pelo que estava ali no primeiro tempo. Garra acima do normal, disputa a cada bola e técnica de pé em pé. Não havia bola perdida ou lance impossível. O adversário, mesmo forte, se amedrontava como fez o Cruzeiro de Artur Jorge. Impactado com a massa, com o rolo compressor rubro-negro em campo. Tanto faz. É um Flamengo que bebe de sua história, até a mais recente, para se readaptar na temporada e defender os dois títulos ainda em curso. Reveu conceitos, conversou entre si e estancou qualquer sangria. Ainda há um longo caminho, mas a reinvenção é promissora.

Beira o negacionismo fechar os olhos para o readquirir de características do time de 2025. Especialmente no jogo de ida, no Mineirão, foi um Flamengo plenamente à Filipe Luís. Não é coincidência. Houve conversas no Ninho, recados de jogadores e desejo de retomar algumas ideias do passado. Pressão imediata após a perda de bola, maior controle do jogo com gosto pela posse, o retomar de construção no goleiro sem desafogo, time sem centroavante de ofício para pressionar a saída rival. Em nada teve com um time quase acadelado contra São Paulo e Internacional, por exemplo. E por vezes desde o início da trajetória de Leonardo Jardim com a preferência por esperar e buscar o contra-ataque.

Jardim tem grande mérito. Saber ouvir quem está no campo e conhece a cultura do clube e permitir a adaptação. Se foi plenamente à la Filipe Luís no Mineirão, no Maracanã ele pôs pitadas generosas de suas ideias. Mesclou de forma inteligente. Um time que ainda priorizava a posse, o controle, mas bem mais agressivo, em busca de rápida definição das jogadas. Pressiona, avança, finaliza. E o toque fundamental: Pedro. Em casa, o abafa no adversário vem também da arquibancada. E o centroavante foi mobilizado como poucas vezes. Doação extrema. Com um posicionamento curioso: dois passos para trás, puxando a defesa adversária. Um baile.
As escalações quase iguais dos dois times em relação ao jogo de ida indicavam quase uma satisfação dos técnicos com o que ocorreu. Artur Jorge promoveu apenas o retorno de Lucas Romero, quase obrigado diante da ausência de Matheus Henrique. Wiliam permanceu na lateral, Fagner no banco. Jardim mandou Pedro a campo. Os minutos iniciais indicaram como seria o jogo. Os laterais cruzeirenses tentavam marcar Lino e Plata. Gerson buscava afundar pelo centro, mas não conseguia. Rapidamente o Flamengo retomava a bola e atacava o enorme latifúndio no centro do campo. Por vezes ensaiou a jogada do primeiro gol. Pedro dava passos para fora da área, arrastava marcação e gerava dúvidas. Romero e Fabrício Bruno tentavam cobrir com avanços. Lino na esquerda, por exemplo. O buraco era inevitável. Por ali entraram Ayrton Lucas, o próprio Arrascaeta. Quando houve a possibilidade de finalização limpa, o 10 não titubeou. Tapa com nojo, no descair do canto de Otávio. Já era o fim do primeiro tempo.

O gol chegou tarde. Pois o Flamengo pressionava de tal maneira que causou espanto e quase desespero entre jovens cruzeirenses, como Jonathan Jesus e o goleiro Otávio. Bolas rifadas, antecipações mal feitas, um time afoito e que discutia entre si ao ver camisas rubro-negras com trocas de posições. Lino, outro acerto de Leonardo Jardim, tem maior liberdade para ocupar o centro do campo, entrar na área e finalizar. Jorginho, soberbo e onipresente, instruía o time, dominava o centro do campo e afundava pelo meio. Gerson teve dificuldades. Não só com a marcação que o impedia de girar e sair para o jogo, mas com as vaias pesadas na arquibancada. Todos os pilares rubro-negros funcionavam muito bem. A dupla de zagueiros, a melhor da América do Sul, Jorginho, Arrascaeta e, desta vez, Pedro combativo, quase como meia. A superioridade era até espantosa, o Cruzeiro era encurralado, formava linha de cinco, até seis para tentar negar espaços.

Por isso talvez tenha sido até surpreendente quando os mineiros voltaram melhores na segunda etapa. A pressão antes inexistente apareceu e complicou o Flamengo, mais desligado e fatalmente sem o gás da intensidade insana do primeiro tempo. As segundas bolas eram cruzeirenses, as interceptações também. Foram 15 minutos de dificuldades rubro-negras com uma bola salva na linha por Jorginho, uma chance perdida por Kaio Jorge em sua especialidade, a bola enfiada em velocidade, e o gol de Romero. Um chute bonito, com efeito, mas passível de defesa por Rossi que demorou a entender a trajetória da bola. Um lance que iniciou com retomada no meio de campo, bote de Jonathan Jesus. Mentalmente, o Cruzeiro havia virado momentaneamente o jogo. E foi exatamente isso. Momentaneamente.
Aos poucos o Flamengo voltou ao modo da primeira etapa. Fez, de novo, abrir o buraco pelo meio da defesa cruzeirense com participação de Jorginho e Pulgar. Emerson Royal, de novo, com absurdo de utrapassagem e segurança pela direita. Pedro recuou de novo ao centro e fez o time voltar a ter as tabelas por dentro, com movimentação e arrasto dos adversários. Fabrício Bruno voltou a caçar rubro-negros na intermediária, dando espaços às costas. Não tardou a basicamente repetir o lance do primeiro gol. Arrascaeta achou Pedro por dentro, que de novo com o lado externo do pé serviu quem aparecia na esquerda. Lino, fatal, deu o corte que havia sofrido na ida e sacramentou o gol. O Maracanã explodiu e, mentalmente, se acalmou.
Jardim quis manter o fôlego, pôs Paquetá e Carrascal nas vagas de Arrascaeta e Plata. Afoito pelo empate, o Cruzeiro cedeu ainda mais espaços, onde Carrascal soube trabalhar bem. O time rubro-negro perdeu chances, finalizou mal. Parecia difícil que a vaga escapasse ainda que Artur Jorge tentasse a todo custo modificar o Cruzeiro. Pôs o jovem João Costa, depois o improvisou na lateral esquerda, com Bruno Rodrigues, Lucho Rodríguez tentando abafar o Flamengo. Mas o buraco continuava. Bastava aos mandantes retomar e sair para o jogo com muito espaço, especialmente quando Pedro deu lugar a Bruno Henrique. A diferença entre os elencos é brutal e foi fundamental.
Ciente de que se tratava de uma noite especial, a massa rubro-negra fez o transe acontecer ao evocar o “Meeengo!”. Um só grito, de maneira contínua, para chacoalhar a estrutura adversária. Arquibancada e campo eram um só. Entre cobranças mútuas, vibração além do normal, o Flamengo deixou claro ao Cruzeiro que havia ali uma hierarquia sul-americana. Era o tetracampeão da América em casa, com um mantra de sua gente a homenagear o passado e celebrar o presente. São tempos especiais esses que vivem os rubro-negros desde 2019. Uma geração que ainda hoje serve em campo e abre espaço para novos rostos, como Lino. Um Flamengo que retomou a pegada copeira de 2025, um tanto do estilo de jogo daquele time e com novas características incluídas por Jardim. Com 52% de posse, 24 finalizações e 17 desarmes* uniu ontem ao hoje, foi exuberante e lembrou que o campeão atual está muito vivo.
*Números do app SofaScore
FICHA TÉCNICA
FLAMENGO 2X1 CRUZEIRO
Data: 19 de agosto de 2026
Local: Maracanã
Árbitro: Gustavo Tejera (URU)
VAR: Andrés Cunha (URU)
Acréscimos: 2’/1T e 6’/2T
Público e renda: 68.510 pagantes / 72.481 presentes / R$ 8.117.578,50
Cartões amarelos: Bruno Henrique (FLA) e William e João Costa (CRU)
Gols: Arrascaeta (FLA), aos 34 minutos do primeiro tempo; Lucas Romero (CRU), aos cinco minutos e Samuel Lino
FLAMENGO: Rossi, Emerson Royal, Léo Ortiz, Léo Pereira e Ayrton Lucas (Varela, 30’/2T); Pulgar, Jorginho (Evertton Araújo, 34’/2T), Arrascaeta (Lucas Paquetá, 18’/2T), Plata (Carrascal, 18’/2T), Samuel Lino e Pedro (Bruno Henrique, 30’/2T)
Técnico: Leonardo Jardim
CRUZEIRO: Otávio, William (Fagner, 33’/2T), Fabrício Bruno, Jonathan Jesus e Rojas (Lucho Rodríguez, 35’/2T); Lucas Romero e Gerson (Bruno Rodrigues, 39’/2T); Arroyo, Matheus Pereira e Wesley (João Costa, 20’/2T); Kaio Jorge
Técnico: Artur Jorge