Bruno Cosendey Vasco gol
Nomes novos e o dissipar da pressão: a virada do Vasco sobre o América-MG
6 de maio de 2018
Wellington Vasco 2018
Atormentado por fantasmas, Zé Ricardo permite ao Vasco ser engolido pelo Bahia
10 de maio de 2018

No Maracanã abarrotado, Flamengo mostra sua evolução diante de um tímido Inter

Lucas Paquetá Flamengo comemorando gol Maracanã 2018 Internacional

(Gilvan de Souza / Flamengo)

Everton Ribeiro Flamengo Maracanã Internacional 2018

(Gilvan de Souza / Flamengo)

Rubro-negros saíram do Maracanã com sorrisos de orelha a orelha. Abraços foram dados em desconhecidos. Gols comemorados à exaustão. O Flamengo é o líder do Campeonato Brasileiro. O que isso significa após meras quatro rodadas? Em termos de disputa de título, não muito. Claro que é precoce. Mas a vitória de 2 a 0 sobre o Internacional em um Maracanã abarrotado demonstrou uma evolução do Flamengo. De todo o Flamengo. Dentro de campo, um time mais ajustado, parecendo revigorado desde que desceu ao inferno antes do confronto com o Ceará. Fora de campo, uma diretoria mais sintonizada com o desejo de sua gente: reduziu o preço dos ingressos e fez do Maracanã um mar rubro-negro capaz de ajustar a sintonia com a equipe. Evolução.

É cedo. Mas também é visível. São três boas partidas em sequência. Um Flamengo que ainda busca se entender, ajustar. 4-1-4-1 ou 4-2-3-1? De um a outro. Os dois no mesmo jogo. Um novo velho esquema. Pois Mauricio Barbieri preferiu adequar a equipe inicialmente ao 4-2-3-1. Quem faz a função de segundo volante, no entanto, é o diferencial. Em vez de Willian Arão, que corre e infiltra, Lucas Paquetá, quase alinhado a Cuellar, que acelera, segura e distribui passes com visão privilegiada do jogo. Rege o time. O Flamengo melhora assim. Pressiona a saída de bola rival, tenta se impôr, controlar o jogo. Conseguiu no Maracanã, quando teve quase 60% de posse no primeiro tempo. E a postura do Inter ajudou. Em um 4-1-4-1, o time de Odair Hellmann foi ao Rio para impedir o Flamengo de jogar apenas. Não tentou, ele, arriscar, tomar a iniciativa de um contra-ataque. Apenas se a ele fosse oferecido. A ideia era bloquear espaços somente. Deu certo por pouco tempo.

Fla no início: Paquetá muito à direita, com Vinicius sozinho à esquerda

Durante 20 minutos, o Inter teve fôlego. D’Alessandro, pela direita, buscava fazer o vaivém e trocar com Pottker, do outro lado. Patrick, por vezes, também caía à esquerda, quando Pottker avançava para ajudar Leandro Damião. Mas, na prática, o Flamengo não tinha muitas dificuldades em conter o Inter. A bola passava pelos pés rubro-negros na maior parte do tempo. O time pressionava, dificultava a saída de bola colorada, girava a bola, de um lado ao outro. Mas havia dois problemas: primeiro, a impaciência. Depois de dois jogos usando pouco o velho artíficio, o abuso de cruzamentos voltou. Foram 30, segundo o Footstats, em toda a partida.

E o segundo foi o posicionamento de Paquetá. De novo onipresente, o garoto ficou mais postado à direita. Auxiliava Cuellar no início do jogo, mais ao cair mais à direita ocupava por vezes a mesma faixa de Everton Ribeiro, que buscava a esquerda para tentar equilibrar o time embora naturalmente escapava do centro à direita, e Geuvânio. Do outro lado, Vinicius Junior, mais solitário, encontrava dificuldades com a marcação mais pesada e ausência de apoio de Renê. Quando a bola chegou ao lado esquerdo, o lateral por vezes travou na intermediária, deixando o garoto sozinho com Fabiano, Moledo e até Gabriel Dias. Três contra um. Por mais que se livrasse de um, Vinicius Junior já encarava a sobra mais severa. Com o corpo de um garoto de 17 anos, difícil levar o tranco e seguir. O Flamengo era melhor, mais bem posicionado. Evolução. Mas futebol tem daquelas. As duas melhores chances foram gaúchas.

Duas cabeças de Leandro Damião paradas por Diego Alves. A primeira em um cruzamento de Fabiano pela direita, sempre um tormento a Renê ao subir constantemente, e outro de Pottker pela esquerda. O Flamengo tinha presença de área com Henrique Dourado, mas arriscava pouco. A bola não chegava a ele limpa. Em uma única chance, quando Rodinei passou pela esquerda, o atacante escorou e quase marcou. Ainda assim, o Maracanã não cessava em pedidos por Guerrero, que aumentaram no intervalo. Era óbvia a sua entrada no segundo tempo. Mas Barbieri segurou por minutos. Antes, preferiu corrigir o posicionamento de Lucas Paquetá.

Inter no início: D’Alessandro e Patrick movimentam bem: retraído

Logo no início do segundo tempo, as mudanças ficaram claras de lado a lado. Paquetá saiu da direita e foi mais à esquerda, onde atua melhor, sente-se mais à vontade e pode dialogar com Vinicius Junior. Fixado mais naquele setor, o desgaste físico é menor. O Inter tentou dar companhia a Damião no ataque, com o avanço de Pottker, em um 4-1-3-2. Mas ainda esperava o Flamengo. Dava coro ao time impulsionado pela arquibancada. Um erro fatal. Assim que Guerrero voltou ao campo após seis meses, na vaga de Dourado, o Maracanã explodiu. Energizou o time rubro-negro e o deixou mais à vontade para empurrar o Inter em seu campo. D’Alessandro permaneceu mais centralizado entre Patrick e Gabriel Dias. Mas já parecia cansado. Ao seu estilo, esbravejava, tentava pilhar os mais novos do time rival. Em vão. De cabeça em pé, Paquetá ditava o ritmo do Flamengo. Acionava Everton Ribeiro, tentava achar Vinicius, buscava Guerrero. Aí um parênteses.

Claro que o peruano é um jogador muito mais técnico do que Henrique Dourado. Mas são complementares. Um oferece o que outro não pode dar. Guerrero, como de hábito, saiu mais da área e deu sossego ao miolo de zaga colorado. Mas passou a perturbar Rodrigo Dourado, já amarelado, ao circular às suas costas. Por ali, passou a ajeitar bolas e servir os lados fazendo o pivô. Mas o time perdeu a presença de área de Dourado. Trata-se de uma opção de estilo. Cada uma pode se adaptar a um rival ou a um jogo específico. O Flamengo ganha opções, não uma disputa interna de “eu ou ele”. Um raciocínio que parece infantil.

Hellmann tentou aplicar velocidade no ataque para incomodar o Flamengo. Damião por Lucca. Não deu muito tempo. O time da casa rondava a área colorada, girava a bola de uma ponta a outra e com Guerrero trabalhava na entrada da área. O peruano cobrou dali uma falta perigosa. Minutos depois, Cuesta atropelou Paquetá em falta. O garoto mesmo cobrou na barreira. Na volta, ele ajeitou e bateu de novo. A bola triscou na defesa e morreu no fundo da rede de Danilo Fernandes. O placar, enfim, refletia o jogo. 1 a 0 em um Maracanã elétrico, em transe. Abraços em desconhecidos. Muletas jogadas ao alto. Aplausos. Time e torcida se abraçavam novamente, naquela sinergia irresistível de não admirar. Evolução.

Ao fim, Fla dominante em campo, com Everton Ribeiro à direita

Só então Odair Hellmann tentou liberar o seu Inter ao sacar Gabriel Dias e colocar Brenner, atacante. Lucca iria à esquerda e Pottker iria à direita, de novo em um 4-1-4-1. Mas o camisa 99 colorado colocou tudo a perder. D’Alessandro aí tem sua parcela. De tanto pilhar os garotos rubro-negros, deixou mesmo seu companheiro irritadiço. Pottker reclamou de um lateral com Renê e deu uma cabeçada em Vinicius Junior. Bem expulso em raro momento de lucidez e Luiz Flavio de Oliveira, com arbitragem totalmente contraditória e conivente com a cera gaúcha existente desde o primeiro tempo. D’Alessandro, 37 anos, tentou tirar Paquetá, 20 anos, do eixo. Não conseguiu. Ali, naquele momento, uma espécie de passagem de bastão do tempo. O veterano, inconformado, apelava a velhas táticas. O novato, com o quê de deboche da nova geração, tapou os ouvidos e saiu andando. Ao rolar da bola, aplicou um chapeu no argentino que o deixou transtornado, berrando. O Inter estava descompensado.

Inter com menos um: lançou-se ao ataque tardiamente

Barbieri sentiu o bom momento e chamou a arquibancada. Tirou Geuvânio, esforçado, mas errante e alvo de fúria da arquibancada, e pôs Jean Lucas. Everton Ribeiro à direita. Paquetá mais à frente. O time se ajustou ao 4-1-4-1. Evolução. E passou a pressionar o Inter, em busca de um gol redentor. Na cobrança de escanteio, Guerrero achou Everton Ribeiro no contra-ataque. Vinicius passou serelepe à esquerda, nas costas de Fabiano. O camisa 7 ignorou e lembrou, ainda que de forma mais lenta, seus tempos de Cruzeiro, comprovando por que se sente melhor à direita. Levou a bola por ali e passou a corta para dentro, driblando dois e batendo no contrapé de Danilo Fernandes. 2 a 0 em uma festa apoteótica do Flamengo com sua gente. O primeiro momento da tentativa de resgate. Após dois jogos fora, o time jogou bem e se impôs em seus domínios.

Dez anos depois, o Flamengo volta a liderar um Campeonato Brasileiro no início de sua disputa. Em 2008, tinha na quarta rodada os mesmos dez pontos de 2018, mas perdia no saldo para o Cruzeiro. Na quinta rodada, chegou aos 13 pontos e inverteu as posições. Na época, em um clube ainda combalido, tudo era visto com desconfiança e surpresa. Dez anos depois, tudo é visto com alívio. O Flamengo se estruturou para lançar-se candidato ao título desde início. Por enquanto, indica que será. Em meio a tantas linhas tortas, em uma semana o Flamengo escreve um texto com caligrafia de dar gosto no início do Brasileiro. Talvez tenha se recuperado a tempo? Manterá o pique da remada? É cedo. Provavelmente haverá turbulências, Barbieri será posto a prova. Mas dentro e fora de campo, o Flamengo se ajusta. Joga bem, parece consciente em campo e fora dele ao convidar sua gente ao estádio a preços mais acessíveis. É, sem dúvidas, uma evolução.

FICHA TÉCNICA
FLAMENGO 2X0 INTERNACIONAL

Local: Maracanã
Data: 07 de maio de 2018
Horário: 16h
Árbitro: Luiz Flávio de Oliveira (SP)
Público e renda: 55.283 pagantes / 60.182 presentes / R$ 1.415.585,00
Cartões Amarelos: Cuellar, Lucas Paquetá, Geuvânio e Vinicius Junior (FLA) e Fabiano, Victor Cuesta, Rodrigo Dourado e Brenner (INT)
Cartão vermelho: William Pottker (INT), aos 33 minutos do segundo tempo
Gols: Lucas Paquetá (FLA), aos 25 minutos e Everton Ribeiro (FLA), aos 41 minutos do segundo tempo

FLAMENGO: Diego Alves; Rodinei, Léo Duarte, Rever e Renê (Trauco, 46’/2T); Cuellar e Lucas Paquetá; Geuvânio (Jean Lucas, 39’/2T), Everton Ribeiro, Lucas Paquetá e Vinicius Junior; Henrique Dourado (Guerrero, 13’/2T)
Técnico: Mauricio Barbieri

INTERNACIONAL: Danilo Fernandes; Fabiano, Rodrigo Moledo, Victor Cueta e Iago; Rodrigo Dourado e Gabriel Dias (Brenner, 29’/2T); D´Alessandro, Patrick e William Pottker; Leandro Damião (Lucca, 17’/2T)
Técnico: Odair Hellmann

Os comentários estão encerrados.