Gustavo Henrique Flamengo
Joga e ganha: sob batuta de Gerson, Flamengo passa bem pelo Sport
8 de outubro de 2020
Flamengo Corinthians Bruno Henrique Itaquera Brasileiro 2020
A bola corre, o jogo flui: Flamengo massacra o Corinthians em Itaquera
19 de outubro de 2020

Em patamar abaixo, Flamengo vence um Vasco no limite em São Januário

Bruno Henrique gol Vasco Flamengo São Januário Brasileiro 2020

(Marcelo Cortes / Flamengo)

Diego Benítez Vasco Flamengo São Januário Brasileiro 2020

(Marcelo Cortes / Flamengo)

A diferença técnica entre Vasco e Flamengo existe já há algum tempo. A consequência direta é uma realidade inimaginável a quem sempre conferiu um duelo equilibrado entre os rivais. Não foi surpresa, portanto, mais um triunfo rubro-negro no Clássico dos Milhões em São Januário, como neste sábado. Uma vitória de 2 a 1 que mostrou que mesmo um Flamengo abaixo do seu patamar – até para os melhores dias com Domènec Torrent – pode superar o atual Vasco no seu limite. Distância abissal.

Não que o Flamengo não tenha feito esforço algum para conseguir a vitória. Ao contrário. Teve de suar e acelerar um jogo em que parecia acomodado e confiante na vitória. Mas os rubro-negros não tinham todas as suas fichas na mesa. Rodrigo Caio, Everton Ribeiro, Isla e Arrascaeta convocados. Diego Alves e Gabigol lesionados. Seis titulares fora e ainda assim o time conseguiu ser competitivo diante de um Vasco em seu máximo, envolto na eterna crise que permeia a Colina e parece não ter data de validade. Retrato fiel do panorama dos rivais.

Vasco no início: bem fechado e saídas sempre pela esquerda

Sem o demitido Ramon, o Vasco recorreu a Alexandre Grasselli, da base, para comandar a equipe. A ideia foi bem válida. 4-4-2 muito bem fechado, com Carlinhos, Andrey e Marcos Júnior à frente da defesa, sem ceder espaços por dentro para o rival. A alternativa era saída rápida pelo lado esquerdo. Benítez para acionar Talles Magno em velocidade, às costas do setor mais utilizado pelo Flamengo contra o Sport, principalmente com a presença de Gerson. Funcionou bem no primeiro tempo. Benítez, dedicado, acompanhava os avanços do 8 rival e na retomada de bola esticava para a abertura de Talles no espaço deixado por Matheuzinho. Por ali o Vasco preocupou mais a defesa rubro-negra. E também por ali saiu o gol precoce, com oito minutos de jogo. A ideia clara: um vacilo rubro-negro, uma retomada rápida e inversão de lado no buraco às costas de Matheuzinho.

O vacilo chegou com a displicência de Bruno Henrique ao recuar bola recebida de Thiago Maia. Cayo Tenório, atento, roubou a pelota e disparou em velocidade ao ataque. Com facilidade driblou Filipe Luís e, obviamente, cruzaria ao outro lado. Léo Pereira hesitou ao fechar o espaço. Gustavo Henrique tentou fechar o passe e, antes, olhou para trás, ciente de que Matheuzinho acompanhava Talles Magno. Mas o lateral, talvez por inexperiência, tentou também fechar o espaço para o passe e buscou a bola. Talles ficou livre, ajeitou o corpo com tranquilidade e bateu no canto rasteiro direito de Hugo Neneca. 1 a 0 que fez com que um foguetório aparecesse nos lados de São Januário. A caixa de som, rápida, fez o coro da torcida explodir em alto-falantes. Melhor início, impossível.

Fla no início: Matheuzinho e Gerson mais por dentro, liberando espaço

O Flamengo, então, acabou por sair da sua zona de conforto de maneira muito precoce. Novamente no 4-2-3-1, o time tinha configuração parecida com o último jogo, com Gerson na ponta direita. Mas o meia era bem vigiado e tinha mais dificuldade para driblar ou segurar a bola. Até Leandro Castán, feroz, o acompanhava a partir da entrada da área. Invariavelmente Gerson buscava o centro. Como Matheuzinho. O lateral avançava, mas ao passar do meio de campo buscava um jogo mais por dentro, bem diferente da ultrapassagem de Isla. E o jogo se tornou repetitivo. Vasco no aguardar da subida do Flamengo, geralmente lenta, para utilizar o lado esquerdo com Benítez, Talles Magno e, por vezes, também Henrique. Funcionava, muito pela lentidão do Flamengo.

Bruno Henrique não demonstrava a ferocidade de sempre pela esquerda. Recebia a bola e hesitava em partir para cima. Ainda assim criou as duas jogadas mais perigosas do time no primeiro tempo. Em uma delas, Miranda afastou a finalização perigosa com Fernando Miguel já batido. Thiago Maia, pelo centro, tentava dar o ritmo diante de um Diego com dificuldade para fazer o papel de meia com passes verticais. O camisa 10, por mais que tente acelerar, tende ainda a cadenciar o jogo na atual fase da carreira. O Vasco, dedicado, estava fiel à ideia e bloqueava bem o Flamengo, induzindo o adversário aos lados e a cruzamentos improdutivos da intermediária para Pedro. A vantagem vascaína prevaleceu até o intervalo. Antes, o time ainda teve razão ao clamar pela expulsão de Diego, já com amarelo, após entrada em Benítez. Ainda que o Camisa 10 tenha escorregado, o lance merecia um amarelo. O árbitro de forma equivocada relevou.

Na volta ao segundo tempo, o Flamengo pareceu que continuaria a insistir com o jogo pelo lado direito. Conseguiu o empate por ali, após falta sofrida por Pedro e levantada por Diego para a antecipada de cabeça de Léo Pereira. O 1 a 1 deu mais calma aos rubro-negros para inverter o jogo. Gerson e Matheuzinho seguraram mais as investidas pelo setor, dando menos espaço para Benítez lançar e Talles Magno receber a bola. E o Flamengo acelerava do outro lado, com Bruno Henrique bem colado à linha alteral. Cayo Tenório, instintivamente, teve de segurar qualquer ímpeto ofensivo. O Flamengo tomou conta do campo vascaíno, mas ainda tinha dificuldade para ter um jogo mais vertical. Girava a bola e tentava alçá-la na área, sem sucesso. Dome percebeu a necessidade de mudança. Até mesmo para evitar uma expulsão de Diego. Sacou o meia, pôs Gerson por dentro e esticou Michael à direita. Na esquerda, Bruno Henrique passou a fazer a movimentação que mais preocupa o time adversário. Em vez de ficar mais colado à linha lateral, sai da esquerda para o centro. Assim surgiu o gol da virada.

Vasco ao fim: lançado ao ataque, na base do abafa final

Uma jogada inteligente. Pedro dá passos atrás e leva Castán e Miranda na sua cola. Thiago Maia, com absoluta liberdade pelo meio, enxerga Bruno Henrique partir nas costas da Cayo Tenório e vencer Miranda na corrida. Fernando Miguel saiu mal, tentando afastar a bola. No tapa fraco, a bola sobrou para Bruno Henrique. Com inteligência e frieza, o atacante cortou o goleiro e bateu no contrapé, com o beijar da bola no pé da trave antes de entrar. 2 a 1. Com a vantagem no placar, o Flamengo entrou ainda mais no modo de dosar energias. Natural pela insana sequência que tem pela frente: mais três jogos até o domingo seguinte. O Vasco não viu outra alternativa ao não ser ter caráter mais ofensivo, no campo rival. Grasselli tirou Cayo Tenório, amarelado, e pôs Vinícius no ataque. Carlinhos recuou à lateral. Depois tirou Talles Magno e pôs Guilherme Parede. Abriu o time para pressionar o Flamengo pelos lados. Arriscou. O empate não chegou por centímetros.

Ao fim, Flamengo mais avançado, com Vitinho por dentro

Na boa jogada de Marcos Junior para Parede cruzar e Cano conferir. Gol corretamente anulado pelo VAR pelo impedimento de Parede, inquestionável principalmente em imagem demonstrada depois. Em lances não interpretativos questionar a validação da tecnologia, mesmo com imagem clara, diz muito sobre o universo do futebol brasileiro. Com o Vasco adiantado, o Flamengo teve três grandes oportunidades de matar a partida em contra-ataque. Michael desperdiçou duas, Pedro uma. Falta de capricho. Domènec Torrent, aflito à beira do gramado, reclamava da permissão em deixar o Vasco alçar bolas na área. Mas mesmo com todo esforço do time da casa, a vitória em São Januário mais uma vez foi rubro-negra.

Um Flamengo que teve 62%* de posse e foi eficiente ao finalizar três bolas no gol e marcar duas vezes. Sem jogo plástico, mas competitivo o suficiente para vencer um Vasco que deu o seu máximo, foi superior no primeiro tempo, finalizou mais bolas ao gol – quatro. Três pontos fundamentais e que apontam a maior distância de um rival para o outro na História. Ainda que, neste sábado, o Flamengo tenha se apresentado abaixo do patamar.

*Números do app SoFa Score

FICHA TÉCNICA
VASCO 1X2 FLAMENGO

Local: São Januário
Data: 10 de outubro de 2020
Árbitro: Flávio Rodrigues de Souza (SP)
VAR: Rodrigo Guarizo Ferreira
Público e renda: portões fechados
Cartões amarelos: Cayo Tenório e Talles Magno (VAS) e Diego, Thiago Maia, Bruno Henrique, Léo Pereira, Vitinho (FLA)
Gols: Talles Magno (VAS), aos oito minutos do primeiro tempo; Léo Pereira (FLA), aos dois minutos e Bruno Henrique (FLA), aos 24 minutos do segundo tempo

VASCO: Fernando Miguel, Cayo Tenório (Vinicius, 27’/2T), Miranda, Leandro Castán e Henrique; Marcos Júnior (Gabriel Pec, 47’/2T), Andrey, Carlinhos, Benítez; Talles Magno (Guilherme Parede, 37’/2T) e Cano
Técnico: Alexandre Grasseli

FLAMENGO: Hugo Neneca, Matheuzinho, Gustavo Henrique, Léo Pereira e Filipe Luís; Willian Arão e Thiago Maia; Gerson (Vitinho, 44’/2T), Diego (Michael, 22’/2T) e Bruno Henrique (Lincoln, 49’/2T)
Técnico: Domènec Torrent

Os comentários estão encerrados.