

Há quase nove anos tracei algumas linhas por aqui. Abordava o ódio das redes, alguns haters que se dedicam a importunar e não admitiam, de forma alguma, entender e respeitar opinião alheia. Quase uma década depois retorno ao tema e percebo que o panorama não está muito diferente. Todos recusamos a evoluir neste quesito. Gosto de opinar, entendo que um jornalista não tem nenhuma serventia se não tem um ponto de vista estabelecido sobre um tema. Isso mais desagrada do que agrada. Há quem compreenda, troque ideias. Há quem simplesmente desague ódio.
No início do ano, nem sei exatamente o porquê, se fui alertado por alguém – definitivamente não foi ego search, a pior prática que você pode praticar nas redes sociais e que já abandonei há mais de década – me chegou uma mensagem na qual um jovem, de óculos na foto do perfil, me atacava no Twitter. Dizia ele que estava no mesmo voo que eu para Brasília, viajava para a cobertura da Supercopa, e acrescentava: “vai ser uma prova de resistência até lá para não xingar muito esse maluco”. Não o notei no voo e só soube dessa mensagem dias depois.

Achei curioso o ódio tão dedicado a uma pessoa que frequentava o mesmo local – um mero voo para Brasília. Nunca o tinha visto. Fiz buscas. O rapaz é um daqueles influencers que se dedicam a fazer quiz pelas ruas, um presente misterioso, essas coisas. Achei graça, bobo. E a vida seguiu. Meses depois, já nesse pós-Copa, o Flamengo enfrentou o São Paulo no Maracanã. Empate, torcida frustrada e fui ao auditório para a entrevista coletiva do técnico Leonardo Jardim. Sentado, aguardava o início quando, na fileira da frente, aparece um rosto familiar. Era ele. O valentão. Acompanhado de outros dois, cabisbaixo, como um peixe fora d´água. Não me xingou. Não me ameaçou. Nada fez. Talvez nem tenha notado que eu estava ali. O mundo real é diferente, afinal.
Na maioria das vezes há falta de consequências no mundo virtual, o que resulta nesse tipo de marchão também virtual. Nem sei o nome do rapaz, usa um apelido. Nem sei, tampouco, se deveria estar ali num espaço destinado a profissionais. E tampouco sei, aliás, por que ele gostaria de me xingar tanto no voo até Brasília. Coisa de maluco. Atualmente tem dessas. Estou mais exposto pelo fato de trabalhar em uma tv esportiva. Como disse um amigo meu assim que ia assumir o cargo: sempre se prepare. Vão falar de tudo. De corte de cabelo à forma física, do jeito de falar à maneira de pegar no microfone. No sofá vão te xingar por dias até que a maioria, enfim, vai se acostumar. Outros já vão gostar de cara. É do jogo.
Mas, como disse, tenho gosto pela opinião. Não costumo me furtar de assuntos e por tecer críticas por vezes você acaba atacado pelas milícias digitais de clubes. Sim, jornalista tem time, torce. Mas ali no ofício o compromisso é – ou deveria ser – com a profissão tão somente. Que se danem clubes, dirigentes, jogadores. Deve-se ser justo, ouvir lados, exercer com correção. E isso requer uma casca dura para levar pancadas dessa turma. Repito o que digo há quase uma década: a opinião de um jornalista, especialmente com quem tem décadas de estrada, não é à toa. Está embasada ali, implicitamente, com inúmeras conversas com fontes, percepções do ambiente, leituras de determinadas situações. O torcedor, chateado, gosta de lançar o “cagador de regra” se algo não o agrada. É uma opinião.
Cada um pode ter a sua, especialmente nos dias atuais, com plataformas disponíveis e redes dedicadas à livre expressão – embora exista o limite indicado pelas leis, obviamente. A função de redes como o Twitter – X é o caramba – deveria ser a de informar, opinar, trocar ideias. Não é, afinal, muitas vezes o objeto final do trabalho de jornalistas. É uma janela que possibilita a troca de ideias entre torcedores e profissionais, algo impensável nos meus tempos de garoto. Qual a sua percepção desse jogador, do que está acontecendo? Curto essa interação. Não estou em um altar no qual desprezo as opiniões alheias, muitas vezes há pontos interessantes. Tampouco sou falso progressista, acima de tudo e de todos. Sigo vários que conheço de anos de estrada e outros tantos que conheci ali e fazem parte do meu dia a dia. Seja com futebol ou outro tema. Uns viraram amigos, outros conhecidos muito presentes. Tem o Salem, a Sabrina, o Paulo Sérgio, o Daniel, o Patrick, o Celo e tantos outros. Errei bastante, já perdi a linha e a paciência, tento sempre melhorar. Não é cagar regra, caro hater. É se comunicar. Afinal, em algum momento o mundo real e o virtual se convergem. Seja num voo para Brasília ou no auditório do Maracanã.