Lucas Paquetá Willian Arão Flamengo 2018 Atlético-MG
Flamengo apresenta sua versão ‘doida’, vence o Galo, mas ainda busca equilíbrio
24 setembro 02:38
Uribe Fla-Flu 2018 Campeonato Brasileiro
Um passeio de 50 minutos: Flamengo atropela Fluminense e pulsa no Brasileiro
14 outubro 00:36

O melancólico círculo derrotista: inofensivo, Flamengo cai diante do Corinthians

Willian Arão Flamengo 2018

(Gilvan de Souza / Flamengo)

Willian Arão Flamengo 2018

(Gilvan de Souza / Flamengo)

À primeira vista, a análise de que o Flamengo seria favorito contra o Corinthians na semifinal da Copa do Brasil não estaria incorreta. Jogadores mais técnicos, maior investimento. Um simples ajuste no foco, no entanto, deixaria claro que a diferença enorme, mesmo, ocorre na mentalidade. Os paulistas há quase dez anos formaram um núcleo duro no departamento de futebol que resiste a inúmeras tempestades causadas em seu entorno e segue a incrível trilha de conquistas em uma era de ouro. Competência que conserta eventuais erros. No Ninho do Urubu ocorre o contrário. Sem um rumo bem definido, o departamento de futebol rubro-negro se tornou frágil a ponto de comprometer toda a imagem de um trabalho de reestruturação financeira travado nos últimos cinco anos. A incompetência que permite ao terreno ser fértil a erros. Diante de universos tão antagônicos, não foi surpreendente a eliminação do Flamengo com uma derrota de 2 a 1 na Arena Corinthians diante de um rival claramente limitado. Um enorme círculo derrotista entranhado.

Um círculo justamente por repetir com constância erros básicos. É repetitivo até apontá-los. O consequente vazamento de escalações, por exemplo. Em um ambiente blindado, bem estabelecido e de confiança mútua dificilmente os treinos fechados de Maurício Barbieri seriam tão facilmente detalhados ao público via imprensa. Sim, jornalistas cumprem seu papel de informar e trabalham com a notícia que lhes é vazada. Mas a rotina de revelações indica fragilidade enorme do comando de futebol rubro-negro em qualquer tentativa – se existente – de controlar o ambiente. Cortar a raiz do vazamento. Um reflexo até de um desdém com a hierarquia. A falta de consequências torna o ambiente permissivo. As armas são dadas aos rivais. Jair Ventura teve boa ideia do que Barbieri tramaria para o jogo de volta. O técnico rubro-negro não teve tamanha benesse. O núcleo do CT Joaquim Grava, como dito, é duro. O Flamengo já sai em enorme desvantagem.

Corinthians no início: pouco mais avançado e com Jadson livre

Há, claro, o enorme ambiente de pressão no entorno do futebol rubro-negro por resultados. Natural. Ingenuamente muitas cabeças que comandaram ou ainda comandam o clube, com forte influência no departamento de futebol, acreditaram que o resultado em campo apareceria como o resultado final de uma planilha de gastos. Ledo engano. É necessário trabalhar, intervir, corrigir a rota. Mudá-la, se necessário. O Corinthians, por sua vez, entendeu que Osmar Loss tinha perdido o comando e decidiu estancar a crise. O Flamengo, não. Colocou a pasta das projeções debaixo do braço e confiou no correr do cotidiano, ainda que totalmente contaminado. É um clube refém da terra prometida, da hegemonia do futuro. E de maneira até tola não entendeu que não deveria apostar tudo em uma temporada de ouro. Uma era vitoriosa é construída através dos anos, taça a taça. Conquistas do presente que aliviam pressões no futuro. O Flamengo faz o contrário. Acumula frustrações para inflar o caldeirão que borbulha avidamente, principalmente em ano eleitoral. Sem cumprir metas compatíveis com o investimento, o círculo vicioso segue. Ciclos já encerrados continuam em pleno desgaste. E, claro, o reflexo ocorre no campo.

Willian Arão é volante de alguma qualidade, que teve ótimo momento em 2016 sob o comando de Zé Ricardo. Peça-chave no 4-2-3-1 da passagem do técnico na campanha do terceiro lugar do Brasileiro. De lá para cá quase dois anos se passaram, o camisa 5 caiu em desgraça e perdeu a empatia com a arquibancada. Esteve perto de ser negociado e teve participações ruins no ano, como no empate com o River Plate pela Libertadores no início da temporada. Em meio a um Flamengo que novamente se esfarela com o ano em curso, o volante entrou em algumas partidas recentes com fôlego redobrado, o suficiente para agradar quem atribui a queda do time a uma simples falta de raça. Mas com trejeitos de jogador de fim de semana, o volante mais atrapalha do que contribui. Um gol contra o Atlético-MG funcionou como um canto de sereia para arrancar elogios ingênuos. Foi a chave para um jogo ruim do Flamengo na Arena Corinthians.

Pressionado pela necessidade da vaga, Mauricio Barbieri decidiu manter o volante na equipe. Do outro lado, teve de promover o retorno de Diego, camisa 10 e líder do elenco. Uma vez mais não foi um 4-2-3-1 na Arena Corinthians, como não já acontecera no último domingo, no Maracanã. Arão não mantém posicionamento algum. Contribui pouco para a troca de passes característica deste Flamengo de 2018. Toca e arranca ao ataque, abrindo enormes espaços. Já o fizera contra o Atlético-MG, um jogo de perde e ganha sem controle de lado a lado. Mais técnico, o Galo pressionou o Flamengo e, mesmo derrotado, incomodou. O Corinthians, limitado tecnicamente, teria naturalmente mais dificuldades. Mas em jogos decisivos bastam segundos de deslize. Um mínimo espaço. O Flamengo oferecia um buraco enorme.

Fla no início: tentativa de mobilidade, comprometida com exageros de Arão

A intenção de Barbieri pareceu ser resgatar a intensa movimentação que tornou o Flamengo líder do Campeonato Brasileiro. A troca de posições da linha atrás do centroavante. Diego estava deslocado à esquerda, mas aparecia na direita, trocando com Everton Ribeiro. Paquetá, por algumas vezes, tentou trabalhar pela ponta esquerda. É louvável a tentativa, mas ela só seria bem-sucedida se houvesse entendimento entre os meias. Willian Arão tornava esse movimento muito desorganizado. Atacava a área pela direita, aparecia pela esquerda, embolava com os meias, depois tinha dificuldades para retomar a posição na marcação. Não há perdão de um rival que, organizado, sabia de suas limitações, mas em seus domínios tinha abandonado a covardia do Maracanã.

A rigor, Jair Ventura deixava apenas Jadson mais adiantado. Tentava impedir que o Flamengo chegasse ao fundo, limitando as ações do rival à intermediária. Sem um atacante de drible e finalização no Flamengo, o Corinthians se portou bem, atento apenas para bolas aéreas, bem vigiadas pela dupla Léo Santos e Henrique. Ralf dava segurança por dentro, apoiado por Douglas e Mateus Vital. Ao lado, Romero e Clayson. Era um time preocupado com seu sistema defensivo, mas que atacava. Saía rápido. E tinha campo. Como teve campo Jadson. Avançou pela meia direita, observou Danilo Avelar passar por Everton Ribeiro tranquilamente e Pará ser atraído para dentro da área por Mateus Vital. Arão teoricamente deveria estar posicionado no setor. Até estava, no início da jogada. Mas acabou perseguindo a bola até o lado esquerdo, esvaziando a direita. Sozinho, em frente à área, ele observou a bola viajar com extrema precisão para Avelar dar a batida rasteira, no fundo da rede. 1 a 0.

A estratégia corintiana funcionava. Jadson não dava referência alguma para Rever e Léo Duarte. Estava mais avançado, mas no subir do time paulista, segurava os passos para ser o armador e enxergar o campo. Tarefa que, no Flamengo, deveria ser de Paquetá. O garoto se tornou mais uma das vítimas da fragilidade do Ninho do Urubu. O futebol vistoso, onipresente do primeiro semestre deu lugar a atuações pós-Copa, desde o jogo contra o São Paulo, recheadas de soberba, com dribles desnecessários e perdas de bola que comprometem a atuação do meia. Paquetá enxerga bem o jogo. Mas deve estar ligado, atento para tentar encaixar passes em profundidade e desbaratar um sistema defensivo chato como o corintiano. No círculo derrotista do Ninho segue um processo de decadência que pouco será atrativo aos seus sonhos europeus. Coube a Arão assumir esse papel por um instante. Em seu grande momento no jogo, ele enxergou Pará ultrapassar entre Clayson e Danilo Avelar. Passe de rara felicidade que encontrou Pará. O cruzamento encontrou o braço de Henrique e fez a bola mergulhar no gol de Cássio. 1 a 1.

Seria o momento indicado de o Flamengo crescer. Frear a empolgação da Arena Corinthians, girar a bola, ser incisivo. Buscar a vitória. Não o fez. Mesmo com o Corinthians mais recuado e sufocado sem saída de bola mais qualificada após a troca de Fagner por Gabriel devido a lesão, o time rubro-negro não conseguia se impôr. Diego, à esquerda, trazia o jogo para dentro e colecionava passes laterais. Arão continuava a correr desordenadamente. Everton Ribeiro errava as tentativas de dribles. Mesmo com 60% de posse de bola na primeira etapa, de acordo com o Footstats, o Flamengo não conseguiu nem mesmo chegar perto do segundo gol. Pouco.

Corinthians ao fim: bem postado na defesa, aguardando

Barbieri, no entanto, pareceu estar satisfeito. Talvez pudesse devolver Diego ao meio e abrir um velocista como Berrío ou um driblador, como Marlos ou Vitinho, já no retorno do intervalo. Voltou com a mesma equipe. Foram dois bons momentos. Ambos criados por Diego. No primeiro, o camisa 10 sofreu falta na entrada da área, pela esquerda. A cobrança, direta, assustou Cássio. Depois, o meia achou Paquetá pelo centro e rolou bem. O camisa 11 bateu forte, para boa defesa de Cássio. Mas o jogo era mais igual do que a reta final do primeiro tempo. O Corinthians era atacado, mas também atacava. Continuava a ocupar os espaços por dentro, dando enorme trabalho a Cuellar. Sem que o time conseguisse reter tanto a bola, o trabalho do colombiano se tornou maior. Principalmente nas coberturas a Trauco, pela esquerda.

Forçado a modificar com a lesão muscular de Diego, o técnico rubro-negro pôs Vitinho em campo. Se o jogo pelo centro já tinha dificuldades, sem um meia a dificuldade aumentou. O Corinthians ficou ainda mais à vontade para contragolpear por dentro, sem acionar necessariamente os lados. O gol saiu assim. No enorme latifúndio central rubro-negro. Everton Ribeiro desarmado, lançamento de Vital para Jadson. A rebatida de Léo Duarte no campo de defesa encontrou um vazio. A bola voltou para Vital, que acionou Romero à esquerda. Qual a opção do paraguaio? Exatamente. Utilizar o vazio do meio rubro-negro. Ele rolou confiante para Pedrinho, na entrada da área. O garoto gingou na frente de Trauco e Arão. O chute teve boa direção, mas a bola pareceu defensável. Diego Alves não chegou. 2 a 1.

Fla ao fim: meias por dentro, pontas dribladores e bolas alçadas

E o círculo derrotista do Flamengo pareceu, de novo, muito palpável. Barbieri tentou. Mas o técnico pareceu bem mais inseguro de suas decisões. Está, também, extremamente exposto. Primeiro sacou Arão, amarelado, para a entrada de Lincoln. Tentou ter dois atacantes na área. A convicção durou sete minutos. Dourado saiu, Marlos Moreno entrou na esquerda. Vitinho foi à direita. Everton Ribeiro assumiu o centro com Paquetá. A bola era do Flamengo. Não houve solução. Por mais que tocasse a pelota de um lado a outro, o time parecia desconfiado de si mesmo. Descrente que, desta vez, chegaria ao empate. Longe do time confiante que empurrou o Grêmio ao campo de defesa e tinha a certeza de que conseguiria o gol de empate. Retrato de um Flamengo esfarelado. A bola alçada por Trauco na área, ao fim, encontrou o pé de Pará. A carimbada de primeira na trave direita de Cássio indicou que a noite não seria mesmo rubro-negra. De novo, o time cairia.

A eliminação torna ainda mais frágil o comando do futebol rubro-negro, um barco completamente à deriva em meio a uma temporada que exigia inteligência felina para lidar com os percalços. Até mesmo o momento da mudança no comando técnico parece ter passado. O Flamengo de 2018 segue como uma incógnita ainda maior do que em 2017. Mesmo a três pontos do líder no Campeonato Brasileiro, a disputa real pela taça sem algum movimento de impacto a 12 rodadas do fim parece muito improvável. Para 2019, com uma nova diretoria, apenas a implosão do modus operandi do Ninho do Urubu e suas entranhas com um giro a uma estaca zero para formar um núcleo duro no futebol parece ser capaz de retomar o orgulho rubro-negro. O círculo derrotista do Flamengo não indica, por ora, o seu fim. Melancólico.

FICHA TÉCNICA
CORINTHIANS 2X1 FLAMENGO

Local: Arena Corinthians
Data: 26 de setembro de 2018
Horário: 21h45
Árbitro: Ricardo Marques Ribeiro (MG – Fifa)
Público e renda: 44.249 pagantes / 44.606 presentes / R$ 3.663.322,30
Cartões Amarelos: Douglas (COR) e Lucas Paquetá, Willian Arão e Marlos Moreno (FLA)
Gols: Danilo Avelar (COR), aos 13 minutos e Henrique (COR – contra), aos 17 minutos do primeiro tempo e Pedrinho (COR), aos 23 minutos do segundo tempo

CORINTHIANS: Cássio; Fagner (Gabriel, 22’/1T), Léo Santos, Henrique e Danilo Avelar; Ralf, Douglas, Mateus Vital (Araos, 37’/2T) e Clayson (Pedrinho, 22’/2T); Jadson e Romero
Técnico: Jair Ventura

FLAMENGO: Diego Alves; Pará, Léo Duarte, Rever e Trauco; Cuellar; Diego (Vitinho, 18’/2T), Willian Arão (Lincoln, 28’/2T), Lucas Paquetá e Everton Ribeiro; Henrique Dourado (Marlos Moreno, 35’/2T)
Técnico: Mauricio Barbieri