
Léo Pereira Flamengo clássico 2026

Já foi dito aqui neste mesmo espaço: romper com Filipe Luís de maneira inexplicável fatalmente traria mudanças a um Flamengo acostumado a se impor com posse de bola desde 2016. Mudanças, no entanto, não são necessariamente negativas. Há como ser diferente e melhor, a depender do ponto de vista. Diante do Cruzeiro, o Flamengo teve menos posse de bola e venceu. Já contra o Botafogo, no Engenhão, o time teve sua melhor apresentação em 2026 com tudo um pouco: a verticalidade objetiva de Leonardo Jardim e o controle por posse de Filipe Luís. 3 a 0 no placar foi bem tímido em um clássico no qual o Flamengo teve respeito ao próprio legado. E sobrou.

Sim, sobrou. Fisicamente, o elenco chega a um ponto cada vez mais próximo ao ideal. Algo que aponta no mínimo falta de sorte de Filipe Luís por não conseguir aproveitar um grupo tão farto e já em ótimas condições físicas. Mas hoje é um Flamengo de Leonardo Jardim. Não ainda com nome e sobrenome para os livros por ser tão marcante, como os de Jorge Jesus e do próprio Filipe, mas as ideias do português estão já claras. Algumas já funcionam, outras nem tanto. O time perde a posse e já pressiona o adversário. Lino e Carrascal, os pontas, caem muito para dentro e abrem o corredor todo aos laterais. Jogo mais à esquerda, jogo mais à direita, como neste sábado. Depende do adversário.
Pois lá estava o Flamengo no 4-2-3-1. Foi competente, eficiente ao induzir o Botafogo ao erro, mas também contou com ajuda de Martín Anselmi e do próprio elenco alvinegro. O time, em plena crise após a eliminação precoce na Libertadores, não se encontra em campo. Não seria uma linha de três, mas agora de quatro. Ou seria de cinco? De seis? Barrera fazia as vezes pela esquerda para tentar auxiliar Alex Telles e Barboza. Danilo circulava por dentro, recuava para iniciar o jogo. Mas a pressão rubro-negra funcionava. Desarme, um, dois toques e finalização. Especialmente pela direita. Porque Carrascal caía ao centro e trazia Alex Telles. Um corredor se apresentava para Varela receber a bola de Léo Ortiz. E a pitada fatal: o descontrole botafoguense.

Óbvio que o momento delicado frita mentes, enerva jogadores e torcida. Mas o mínimo racional é exigido para lidar entre profissionais. O Botafogo, especialmente contra o Flamengo, se destempera além do indicado. Barboza é a figura simbólica. Chiliques, socos no ar, xingamentos, nervosismo completamente injustificado. É inevitável que tal comportamento contagie companheiros e até torcida. Ao tentar xerifar no setor esquerdo da defesa e caçar adversários à la Kannemann abria ainda mais espaço. O Flamengo chegava fácil e foi surpreendente ter aberto o placar apenas com 13 minutos. Justamente no setor. Bola de Ortiz a Varela, que foi derrubado depois de conseguir o passe por….Barboza. Não fosse a conclusão de Lino, com desvio em Bastos, para o gol o pênalti fatalmente seria assinalado.

Não que o Botafogo não tenha ameaçado. Apostava nos contra-ataques, com velocidade de Matheus Martins, saídas rápidas com Danilo e Medina, estreante que quase completou cruzamento ao gol no início do jogo. Mas era mais exceção. O Flamengo estava bem postado, alternava lados e movimentava bastante o ataque. Por ter mais volume, trocar passes empurrava o Botafogo ao campo defensivo. Barrera sofria para ajudar o lado esquerdo da defesa. O time rubro-negro, vertical, utilizava também espaço por dentro. Carrascal, Paquetá e Lino. O atacante, aliás, é quem mais tem desfrutado de certa liberdade concedida por Jardim. Não fica mais rente à lateral. Cai pelo meio, arrisca dribles, tenta finalização. Não à toa apareceu dentro da área para finalizar e abrir o placar.
O time rubro-negro, superior, apostou também no jogo por dentro. Por ali Jorginho achou Lino nas costas da defesa, mas o atacante finalizou mal. Por ali Pedro recebeu e tentou um elástico. Errou e , mas acabou derrubado pelo descontrolado Barboza em uma entrada que valeria vermelho, mas ficou no amarelo. A punição veio com um golaço de Léo Pereira na cobrança de falta. E, depois, na justa expulsão ao segurar Pedro pelo meio. 2 a 0 no intervalo dão tranquilidade e, talvez, relaxamento.

Anselmi fez duas trocas, uma até surpreendente. Com um a menos seria esperado que imaginasse um jogo de velocidade, no contra-ataque, para tentar superar os zagueiros rubro-negros. Jogo mais talhado a Matheus Martins do que a Arthur Cabral. Mas foi mesmo o primeiro a ser substituído por Ferraresi. Cabral permaneceu, sem sucesso. Com a linha defensiva remontada, ainda assim o Botafogo sofreu pela direita e com a movimentação do ataque rubro-negro. Paquetá e Carrascal trocavam bastante. À direita, o Camisa 20 ficou à vontade para lançar Varela. Dali ao cruzamento de Pedro para o terceiro gol foi um pulo.
Com o jogo absolutamente controlado, o Flamengo pôs em prática a farta trocação de passes à qual sempre foi acostumado. Um pouco mais objetiva do que nos tempos de Filipe Luís e rendeu chances com Samuel Lino a finalizar por dentro, Paquetá da mesma maneira. Mas, no geral, o time rubro-negro parecia satisfeito com a vitória por três gols. Não acelerou mais ou aproveitou a superioridade numérica para construir uma goleada. Leonardo Jardim entendeu o momento. Fez trocas a fim de observar e preservar o físico dos atletas. Plata e Luiz Araújo em constante alternância entre dentro e fora. Arrascaeta sequer entrou no gramado sintético. 3 a 0 inapeláveis.
578 passes trocados, 18 finalizações, 23 desarmes e 58% de posse de bola*. Um Flamengo muito superior ao Botafogo se apresentou no Engenhão e venceu mais uma vez – a décima nos últimos 11 jogos no estádio. O time dá sinais de que vai brigar no topo muito em breve. É competitivo. Pressiona. Finaliza. Diferente, mas com respeito ao legado, sobrou.
*Sofascore
FICHA TÉCNICA
BOTAFOGO 0X3 FLAMENGO
Data: 14 de março de 2026
Local: Nilton Santos, o Engenhão
Árbitro: Anderson Daronco (Fifa – RS)
VAR: Rodrigo D’Alonso Ferreira (SC)
Acréscimos: 11’/1T e 6’/2T
Público e renda: 14.789 pagantes / 16.176 presentes / R$ 628.290,00
Cartões amarelos: Barboza, Allan, Arthur Cabral (BOT) e Pulgar, Jorginho (FLA)
Cartão vermelho: Barboza (BOT), aos 53 minutos do primeiro tempo
Gols: Samuel Lino (FLA), aos 12 minutos e Léo Pereira (FLA), aos 46 minutos do primeiro tempo e Pedro (FLA) aos três minutos do segundo tempo
BOTAFOGO: Raul, Vitinho, Bastos, Barboza e Alex Telles; Allan (Newton / Intervalo), Medina, Danilo (Edenilson, 35’/2T), Barrera (Ponte, 9’/2T), Matheus Martins (Ferraresi / Intervalo), Arthur Cabral (Junior Santos, 25’/2T)
Técnico: Martín Anselmi
FLAMENGO: Rossi, Varela, Léo Ortiz, Léo Pereira (Vitão, 19’/2T) e Alex Sandro (Ayrton Lucas, 19’/2T); Pulgar (Evertton Araújo, 24’/2T), Jorginho (Plata, 40’/2T); Carrascal (Luiz Araújo, 40’/2T), Lucas Paquetá e Samuel Lino; Pedro
Técnico: Leonardo Jardim