
(Twitter Copa do Mundo FIFA)

Dia 17. Já bate aquele vazio. De repente a Copa começa a se despedir silenciosamente, de forma quase sorrateira. A fase de grupos com sua enxurrada de jogos chegou ao fim. Olhamos para o calendário e os jogos serão mais pingados. Neste domingo apenas um África do Sul x Canadá. Tá certo, ainda teremos ali na frente dias com dois ou três jogos para nos divertir e, mais do que isso, nos emocionar, sofrer, gargalhar. Sentir a Copa. É que, repito, bate o vazio ao saber que ela se encaminha para a segunda metade. Foram 72 partidas até aqui. Faltam apenas 32. Que puxa, diria o melancólico Charlie Brown, o dono do Snoopy.
A grande história da Copa por enquanto é de Cabo Verde, embora deveras manchada com a acusação de estupro ao capitão Ryan Mendes. Baitas história e matéria da repórter Camila Alves do GE, por sinal. O encontro entre Vozinha e Messi, aliás, promete. É a típica magia de Copa. Um goleiro quarentão e veterano, de carreira até então inexpressiva, de frente para o melhor do mundo – e assim o será até decidir. Messi, como disse por aqui certa vez, apenas se diverte. Entra no segundo tempo, cobra falta rasteira, faz seu gol número 19 em Copas do Mundo. E vibra, sorri como numa pelada de amigos em Rosario. Levezas da Copa.
100% DE APROVEITAMENTO ✅! Argentina vence a Jordânia por 3×1, sendo todos os gols de bola parada, e um de Lionel Messi que se isola na artilharia da Copa! A Argentina termina essa fase de grupos com três vitórias e segue pra enfrentar Cabo Verde no mata-mata pic.twitter.com/pfstlOiwV9
— CazéTV (@CazeTVOficial) June 28, 2026
Vozinha deixou de ser coadjuvante para se tornar um dos protagonistas desta Copa. Sua vida já foi contada e recontada . Interessante, sempre, é buscar os detalhes ao redor. Eduardo Tironi, melhor chefe que tive na vida, certa vez me explicou a necessidade de o jornalismo observar atentamente tudo que ocorre nas beiradas. Ali podem estar excelentes histórias. Lembrou dos Jogos Olímpicos de 1968, no México, quando Tommie Smith e John Carlos, norte-americanos, terminaram no pódio dos 200 metros rasos. Em um Estados Unidos que explodia com os conflitos raciais, ambos celebraram o pódio com luvas negras e a mão erguida, saudação do grupo Panteras Negras. A foto é histórica. E nela está o segundo colocado, o australiano Peter Norman. Solidário aos norte-americanos no pódio, Norman usou no peito o símbolo da OPHR (Olympic Project for Human Rights). O gesto foi mal recebido pelos governantes de seu país e o atleta caiu num limbo até sua morte em 2006. A grande história estaria ali.
In the 1970s, Peter Norman was one of the fastest sprinters on Earth, an Australian athlete who shocked the world by winning silver in the 200 meters at the 1968 Mexico City Olympics. But his greatest moment had nothing to do with speed.
— Emmett Voss (@Emmett_Voss) February 11, 2026
At the medal ceremony, American runners… pic.twitter.com/AwoAXWRBd7
Observar a Copa requer atenção, dedicação e sensibilidade. Seja você jornalista ou apenas um torcedor. Há tanto para ser contado, histórias tão vivas que ali aguardam. Há uma aura mística que envolve a Copa do Mundo, com seus desafios, os eleitos para que brilhem, quem a persegue e parece que nunca a conquistará, como a Holanda, ou quem nunca mais voltará a erguê-la, caso da Inglaterra. Depois do início fulminante de Harry Kane e companhia, um jogo tímido diante do Panamá. Em um gol posteriormente anulado, panamenhos vibravam na arquibancada como se a verdadeira conquista fosse aquela. E, de fato, seria. Mas o VAR tirou a graça.
Uma Copa que, de certa maneira, parece encerrar um ciclo dourado no futebol. Messi e especialmente Cristiano Ronaldo devem se despedir dos Mundiais depois de seis edições consecutivas. Os dois que se acostumaram a polarizar o mundo da bola nos últimos 15 anos. Talvez se encontrem frente a frente, talvez não. Mas é satisfatória a sensação de ter certeza que estamos vendo História. Contaremos mais à frente para filhos e netos quando os dois já estiverem na parede há muito, ao lado de tantos outros. O tempo passa, é inevitável. O vazio bate. Mas faltam ainda 32 jogos. Não deixe a Copa morrer, não deixe a Copa acabar.
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