
Maradona instrui Messi durante treino em Pretoria

Dia 18. Enfim um respiro. Não que mais jogos não sejam necessários, ao contrário. Mas depois de uma overdose de partidas de Copa do Mundo, o domingo trouxe apenas um confronto, a abertura do mata-mata entre África do Sul x Canadá. Eustáquio matou o sonho dos Bafana Bafana, como é conhecida a seleção sul-africana. Simpatizo bastante com os Bafana e lamentei a eliminação deles. Vá lá que a seleção tecnicamente não era grande coisa. Mas é aquilo. Subjetividade em Copa é tudo. Você simpatiza e, pronto, acabou. Tenho apreço pelos sul-africanos porque a Copa de 2010 foi especial. E a mente viajou em memórias nesse domingo.
Cobrir uma Copa é um privilégio por si só. As histórias acontecem ali, o tempo todo, por pouco mais de um mês. Estar por dentro do grande evento esportivo que paralisa o mundo é encantador. E, de repente, você se vê em frente a figuras históricas. Algumas no fim, outras no início. A melhor possibilidade para um jornalista está longe da seleção brasileira, cheia de holofotes, análises repetitivas, coletivas com mesmice. O universo da bola se expande em outras seleções. Gentileza de uns, arrogância de outros. Alegria de vários. Em 2010 cobri, entre tantas, a Argentina por algumas vezes. Utilizavam a universidade de Pretória, a cerca de uma hora de Joanesburgo, para as atividades e concentração. Era o Reino do Maradona. Ou Maradonius, como brinquei em página dupla do LANCE! em referência a Pretorius, fundador da cidade.

Diego era mesmo especial. Diferente. A concorrência era pesada, jornalistas do mundo todo. Quando o portão se abria a correria era inevitável até a arquibancada modesta de um dos campos. No centro do campo, geralmente com um gorro, Maradona brincava com a bola. Caía na gargalhada com seus jogadores, aprontava mil desafios ao fim da atividade. Chutar bolas na trave, em cima dos companheiros que perdiam o rachão. Subia na mesa da sala de coletiva para abraçar um amigo jornalista italiano dos tempos de Napoli. Ao fim, encarava uma pelada com sua comissão técnica no gélido clima noturno de Pretória. Gênio até do entretenimento. Mais tímido, ainda um guri de 22 para 23 anos, Messi também brincava com a Jabulani. E a metros de todos nós estavam ali, Messi e Maradona, juntos. O “Diós” ensinava ao garoto, já melhor do mundo, como bater na bola. Cena rara e que, olhando para trás, dá saudade.
Nem tudo se restringe aos astros do campo na Copa. A torcida é o grande elemento que move uma Copa do Mundo. Fantasiados, engraçados, extremamente felizes. É Copa, afinal. E todos, absolutamente todos, têm uma história para contar. Em Polokwane encontrei um comissário de bordo que fazia bate e volta Paris-África do Sul para assistir à seleção francesa. Assistia um, voltava para Paris e, em seguida, estava de novo na África. Um treino da Holanda, em Joanesburgo, um jipe laranja me chamou atenção. Encostei, conversei e eram quatro malucos que saíram de Amsterdam de carro até a África do Sul. Cruzaram parte da Europa e toda a África de carro para assistir à seleção deles. Também renderam página dupla no jornal, com fotos espetaculares da epopeia. Ganharam minha torcida no restante da Copa. Quase deu.

Sinto falta disso. Histórias de Copa. Seus personagens, dentro e fora de campo. Ainda achamos em alguns veículos, mas a maioria é varrida por vídeos curtos em tempos de redes sociais. Restam 31 jogos pela frente. Os grandes embates que ficarão pela sempre estão na esquina. A Copa nos deu um breve respiro neste domingo. As memórias, então, invadem. Achei legal compartilhar um pouco por aqui com os três leitores assíduos de sempre. A Copa ainda promete.
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