Sobre haters e cagadores de regra – de novo
5 de agosto de 2026

Flamengo reúne passado e presente e atropela Cruzeiro na Libertadores

Gilvan de Souza / CR Flamengo

(Gilvan de Souza / CR Flamengo)

Gilvan de Souza / CR Flamengo
(Gilvan de Souza / CR Flamengo)

O 10 procura o 9. Classudo, maroto, ele recebe a bola com o lado externo do pé e serve o 16 na frente do gol. O corte seco, com sabor de vingança, faz o adversário deslizar para um lance eterno. A batida é forte, sem chances para o goleiro. A massa explode. Há poucas simbioses capazes de tornar um só arquibancada e campo como Flamengo e Maracanã. Histórias foram traçadas, decepções até contadas, mas inúmeros momentos de glória contados de geração em geração entre uma subida e outra de rampa. Na noite de 19 de agosto de 2026, a massa e o time se entrelaçaram. Em transe, o Maracanã presenciou uma exibição de gala, numa mistura de técnica e fibra, narrada ao som de “Meeengo!” como um passado que invadiu o presente. 2 a 1 sobre o Cruzeiro na Libertadores numa noite em que passado e presente se encontraram para ganhar o eterno.

O grito de força oitentista, uníssono e constante, é locomotiva que faz o torcedor raiz viajar no tempo e apresentar a magia de Zico e companhia aos guris de hoje. Pois, a rigor, o Flamengo de todos os tempos se caracterizou pelo que estava ali no primeiro tempo. Garra acima do normal, disputa a cada bola e técnica de pé em pé. Não havia bola perdida ou lance impossível. O adversário, mesmo forte, se amedrontava como fez o Cruzeiro de Artur Jorge. Impactado com a massa, com o rolo compressor rubro-negro em campo. Tanto faz. É um Flamengo que bebe de sua história, até a mais recente, para se readaptar na temporada e defender os dois títulos ainda em curso. Reveu conceitos, conversou entre si e estancou qualquer sangria. Ainda há um longo caminho, mas a reinvenção é promissora.

Tactical Pad
Fla no primeiro tempo: Pedro por fora, Jorginho afunda e pressão total

Beira o negacionismo fechar os olhos para o readquirir de características do time de 2025. Especialmente no jogo de ida, no Mineirão, foi um Flamengo plenamente à Filipe Luís. Não é coincidência. Houve conversas no Ninho, recados de jogadores e desejo de retomar algumas ideias do passado. Pressão imediata após a perda de bola, maior controle do jogo com gosto pela posse, o retomar de construção no goleiro sem desafogo, time sem centroavante de ofício para pressionar a saída rival. Em nada teve com um time quase acadelado contra São Paulo e Internacional, por exemplo. E por vezes desde o início da trajetória de Leonardo Jardim com a preferência por esperar e buscar o contra-ataque.

Cruzeiro no início: perdido, com um buraco no centro

Jardim tem grande mérito. Saber ouvir quem está no campo e conhece a cultura do clube e permitir a adaptação. Se foi plenamente à la Filipe Luís no Mineirão, no Maracanã ele pôs pitadas generosas de suas ideias. Mesclou de forma inteligente. Um time que ainda priorizava a posse, o controle, mas bem mais agressivo, em busca de rápida definição das jogadas. Pressiona, avança, finaliza. E o toque fundamental: Pedro. Em casa, o abafa no adversário vem também da arquibancada. E o centroavante foi mobilizado como poucas vezes. Doação extrema. Com um posicionamento curioso: dois passos para trás, puxando a defesa adversária. Um baile.

As escalações quase iguais dos dois times em relação ao jogo de ida indicavam quase uma satisfação dos técnicos com o que ocorreu. Artur Jorge promoveu apenas o retorno de Lucas Romero, quase obrigado diante da ausência de Matheus Henrique. Wiliam permanceu na lateral, Fagner no banco. Jardim mandou Pedro a campo. Os minutos iniciais indicaram como seria o jogo. Os laterais cruzeirenses tentavam marcar Lino e Plata. Gerson buscava afundar pelo centro, mas não conseguia. Rapidamente o Flamengo retomava a bola e atacava o enorme latifúndio no centro do campo. Por vezes ensaiou a jogada do primeiro gol. Pedro dava passos para fora da área, arrastava marcação e gerava dúvidas. Romero e Fabrício Bruno tentavam cobrir com avanços. Lino na esquerda, por exemplo. O buraco era inevitável. Por ali entraram Ayrton Lucas, o próprio Arrascaeta. Quando houve a possibilidade de finalização limpa, o 10 não titubeou. Tapa com nojo, no descair do canto de Otávio. Já era o fim do primeiro tempo.

Fla no segundo tempo: fôlego novo e espaço por dentro

O gol chegou tarde. Pois o Flamengo pressionava de tal maneira que causou espanto e quase desespero entre jovens cruzeirenses, como Jonathan Jesus e o goleiro Otávio. Bolas rifadas, antecipações mal feitas, um time afoito e que discutia entre si ao ver camisas rubro-negras com trocas de posições. Lino, outro acerto de Leonardo Jardim, tem maior liberdade para ocupar o centro do campo, entrar na área e finalizar. Jorginho, soberbo e onipresente, instruía o time, dominava o centro do campo e afundava pelo meio. Gerson teve dificuldades. Não só com a marcação que o impedia de girar e sair para o jogo, mas com as vaias pesadas na arquibancada. Todos os pilares rubro-negros funcionavam muito bem. A dupla de zagueiros, a melhor da América do Sul, Jorginho, Arrascaeta e, desta vez, Pedro combativo, quase como meia. A superioridade era até espantosa, o Cruzeiro era encurralado, formava linha de cinco, até seis para tentar negar espaços.

Ao fim, Cruzeiro com atacantes empilhados em busca do empate

Por isso talvez tenha sido até surpreendente quando os mineiros voltaram melhores na segunda etapa. A pressão antes inexistente apareceu e complicou o Flamengo, mais desligado e fatalmente sem o gás da intensidade insana do primeiro tempo. As segundas bolas eram cruzeirenses, as interceptações também. Foram 15 minutos de dificuldades rubro-negras com uma bola salva na linha por Jorginho, uma chance perdida por Kaio Jorge em sua especialidade, a bola enfiada em velocidade, e o gol de Romero. Um chute bonito, com efeito, mas passível de defesa por Rossi que demorou a entender a trajetória da bola. Um lance que iniciou com retomada no meio de campo, bote de Jonathan Jesus. Mentalmente, o Cruzeiro havia virado momentaneamente o jogo. E foi exatamente isso. Momentaneamente.

Aos poucos o Flamengo voltou ao modo da primeira etapa. Fez, de novo, abrir o buraco pelo meio da defesa cruzeirense com participação de Jorginho e Pulgar. Emerson Royal, de novo, com absurdo de utrapassagem e segurança pela direita. Pedro recuou de novo ao centro e fez o time voltar a ter as tabelas por dentro, com movimentação e arrasto dos adversários. Fabrício Bruno voltou a caçar rubro-negros na intermediária, dando espaços às costas. Não tardou a basicamente repetir o lance do primeiro gol. Arrascaeta achou Pedro por dentro, que de novo com o lado externo do pé serviu quem aparecia na esquerda. Lino, fatal, deu o corte que havia sofrido na ida e sacramentou o gol. O Maracanã explodiu e, mentalmente, se acalmou.

Jardim quis manter o fôlego, pôs Paquetá e Carrascal nas vagas de Arrascaeta e Plata. Afoito pelo empate, o Cruzeiro cedeu ainda mais espaços, onde Carrascal soube trabalhar bem. O time rubro-negro perdeu chances, finalizou mal. Parecia difícil que a vaga escapasse ainda que Artur Jorge tentasse a todo custo modificar o Cruzeiro. Pôs o jovem João Costa, depois o improvisou na lateral esquerda, com Bruno Rodrigues, Lucho Rodríguez tentando abafar o Flamengo. Mas o buraco continuava. Bastava aos mandantes retomar e sair para o jogo com muito espaço, especialmente quando Pedro deu lugar a Bruno Henrique. A diferença entre os elencos é brutal e foi fundamental.

Ciente de que se tratava de uma noite especial, a massa rubro-negra fez o transe acontecer ao evocar o “Meeengo!”. Um só grito, de maneira contínua, para chacoalhar a estrutura adversária. Arquibancada e campo eram um só. Entre cobranças mútuas, vibração além do normal, o Flamengo deixou claro ao Cruzeiro que havia ali uma hierarquia sul-americana. Era o tetracampeão da América em casa, com um mantra de sua gente a homenagear o passado e celebrar o presente. São tempos especiais esses que vivem os rubro-negros desde 2019. Uma geração que ainda hoje serve em campo e abre espaço para novos rostos, como Lino. Um Flamengo que retomou a pegada copeira de 2025, um tanto do estilo de jogo daquele time e com novas características incluídas por Jardim. Com 52% de posse, 24 finalizações e 17 desarmes* uniu ontem ao hoje, foi exuberante e lembrou que o campeão atual está muito vivo.

*Números do app SofaScore

FICHA TÉCNICA
FLAMENGO 2X1 CRUZEIRO

Data: 19 de agosto de 2026
Local: Maracanã
Árbitro: Gustavo Tejera (URU)
VAR: Andrés Cunha (URU)
Acréscimos: 2’/1T e 6’/2T
Público e renda: 68.510 pagantes / 72.481 presentes / R$ 8.117.578,50
Cartões amarelos: Bruno Henrique (FLA) e William e João Costa (CRU)
Gols: Arrascaeta (FLA), aos 34 minutos do primeiro tempo; Lucas Romero (CRU), aos cinco minutos e Samuel Lino

FLAMENGO: Rossi, Emerson Royal, Léo Ortiz, Léo Pereira e Ayrton Lucas (Varela, 30’/2T); Pulgar, Jorginho (Evertton Araújo, 34’/2T), Arrascaeta (Lucas Paquetá, 18’/2T), Plata (Carrascal, 18’/2T), Samuel Lino e Pedro (Bruno Henrique, 30’/2T)
Técnico: Leonardo Jardim

CRUZEIRO: Otávio, William (Fagner, 33’/2T), Fabrício Bruno, Jonathan Jesus e Rojas (Lucho Rodríguez, 35’/2T); Lucas Romero e Gerson (Bruno Rodrigues, 39’/2T); Arroyo, Matheus Pereira e Wesley (João Costa, 20’/2T); Kaio Jorge
Técnico: Artur Jorge