Cruzados da Copa, dia 0: a nossa intimidade com a Copa
11 de junho de 2026

Cruzados da Copa, dia 1: Sombreros, Quiñones e Sampaio

Dia 1. Sombreros ao céu no Azteca. A cena está aqui na mente, não para de ir e voltar como se um editor aflito em sua ilha estivesse em busca do frame perfeito para o corte final. A Copa do Mundo chegou, meus amigos. E ela, envolvente e sedutora, nos abraça. É difícil explicar a quem não entende ou não se deixa envolver o quão impactante é o clima de Copa. Está no ar, quase palpável, capaz de nos fazer abdicar de tudo possível para acompanhá-la. Sigam-me os bons. Do início ao fim. E há até uma certa melancolia nisso tudo, aprofundada ao fim da fase de grupos: se ela começou já cavalga rumo ao fim. Aproveitemos, pois.

Poucos estádios no mundo podem colar na entrada o adjetivo de mítico. O Azteca é desses. Coroou Pelé e Maradona donos do mundo e só por isso seria o bastante. Recebe com afetuosidade, aconchego e jeitão de estádio em tempos de Arenas Fifa. Ali há História, identidade, um povo que celebra o futebol como se deve celebrar a vida. Sombreros ao céu. É fácil se pegar de repente torcendo pelos mexicanos em meio a tanta festa. Povo alegre, receptivo e amante da bola. Bastou a fúria de Quiñones para inaugurar de forma oficial a festa. Colombiano de nascença, com ar de Asprilla como disse Arnaldo Ribeiro, o atacante logo saltou ao primeiro lugar da lista de reforços dos tuiteiros, sempre atentos para a Copa como uma enorme possibilidade de mercado para o time do coração. Se oferecer o básico ao time saudita dele, ele vem e resolve. Está dado o aval. É divertida, a Copa.

Pois até quem é sempre alvo de fúria em canchas brasileiras, como o árbitro, é capaz de se tornar alvo de curiosidade, até de torcida. Há cá em terra brasilis uma certa identificação com Wilton Pereira Sampaio ao representar a pátria logo no jogo inaugural do Mundial. Comparações entre o estilo de arbitragem aqui e lá, memes sobre a câmera presa à cabeça e, principalmente, sobre a dificuldade de Wilton ao se expressar em inglês para anunciar a expressão sul-africana. As caras dos jogadores, claro, viralizaram. Mas há nesse bater de mão cheia em uma clara fragilidade de Wilton, o Sampaio para os amigos do mundo, o desejo de desabafar contra a figura do árbitro. Não é o Wilton. Tampouco o Sampaio. É o personagem de apito estridente na boca que, por vezes, acaba com a magia dos jogos.

Wilton não acabou, mas ganhou ainda mais fama internacional por avermelhar, assim digamos, três jogadores em meros 90 minutos mais acréscimos. Nos 64 jogos da Copa de 2022, vejam vocês, foram apenas quatro expulsões. É coisa nossa. A estreia desta Copa, aliás, foi o primeiro repeteco de uma partida inaugural nos Mundiais. Em 2010, África do Sul e México duelaram no Soccer City. Assisti ao golaço de Tshabalala num restaurante em Melville, bairro onde ficamos instalados, de um turco torcedor do Fenerbahçe que vivia com uma pistola na calça, abaixo da camisa. Rotundo que era, qualquer movimento mais avançado revelava o gatilho da peça. Tudo ao som de Waka Waka. 16 anos depois, Shakira segue no comando das canções-tema de Copa do Mundo. Mas Dai Dai não me pegou. Perdão, Shak.

A magia da Copa é capaz, também, de nos fazer ficar empolgados por um Coreia do Sul x República Tcheca – ou Tchéquia, como você preferir – às 23 horas de uma quinta-feira. Jogo com gol de latereio, chances incríveis perdidas por Son e sua carinha de Gato de Botas e virada sul-coreana. É possível se empolgar, mesmo, com tudo em Copa do Mundo. Contrariando esse mundo moderno de vídeos curtos, onde tudo é baseado em imagens, cá estamos no segundo dia de um texto mais longo no bom Chute Cruzado. À moda antiga mesmo. Começou – e ainda falta tanto. Passa devagar, Copa.