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Cruzados da Copa, dia 16: Bielsa e a loucura que não cabe em uma Copa
27 de junho de 2026

Cruzados da Copa, dia 17: não deixe a Copa morrer, não deixe a Copa acabar

Twitter Copa do Mundo FIFA

(Twitter Copa do Mundo FIFA)

Dia 17. Já bate aquele vazio. De repente a Copa começa a se despedir silenciosamente, de forma quase sorrateira. A fase de grupos com sua enxurrada de jogos chegou ao fim. Olhamos para o calendário e os jogos serão mais pingados. Neste domingo apenas um África do Sul x Canadá. Tá certo, ainda teremos ali na frente dias com dois ou três jogos para nos divertir e, mais do que isso, nos emocionar, sofrer, gargalhar. Sentir a Copa. É que, repito, bate o vazio ao saber que ela se encaminha para a segunda metade. Foram 72 partidas até aqui. Faltam apenas 32. Que puxa, diria o melancólico Charlie Brown, o dono do Snoopy.

A grande história da Copa por enquanto é de Cabo Verde, embora deveras manchada com a acusação de estupro ao capitão Ryan Mendes. Baitas história e matéria da repórter Camila Alves do GE, por sinal. O encontro entre Vozinha e Messi, aliás, promete. É a típica magia de Copa. Um goleiro quarentão e veterano, de carreira até então inexpressiva, de frente para o melhor do mundo – e assim o será até decidir. Messi, como disse por aqui certa vez, apenas se diverte. Entra no segundo tempo, cobra falta rasteira, faz seu gol número 19 em Copas do Mundo. E vibra, sorri como numa pelada de amigos em Rosario. Levezas da Copa.

Vozinha deixou de ser coadjuvante para se tornar um dos protagonistas desta Copa. Sua vida já foi contada e recontada . Interessante, sempre, é buscar os detalhes ao redor. Eduardo Tironi, melhor chefe que tive na vida, certa vez me explicou a necessidade de o jornalismo observar atentamente tudo que ocorre nas beiradas. Ali podem estar excelentes histórias. Lembrou dos Jogos Olímpicos de 1968, no México, quando Tommie Smith e John Carlos, norte-americanos, terminaram no pódio dos 200 metros rasos. Em um Estados Unidos que explodia com os conflitos raciais, ambos celebraram o pódio com luvas negras e a mão erguida, saudação do grupo Panteras Negras. A foto é histórica. E nela está o segundo colocado, o australiano Peter Norman. Solidário aos norte-americanos no pódio, Norman usou no peito o símbolo da OPHR (Olympic Project for Human Rights). O gesto foi mal recebido pelos governantes de seu país e o atleta caiu num limbo até sua morte em 2006. A grande história estaria ali.

Observar a Copa requer atenção, dedicação e sensibilidade. Seja você jornalista ou apenas um torcedor. Há tanto para ser contado, histórias tão vivas que ali aguardam. Há uma aura mística que envolve a Copa do Mundo, com seus desafios, os eleitos para que brilhem, quem a persegue e parece que nunca a conquistará, como a Holanda, ou quem nunca mais voltará a erguê-la, caso da Inglaterra. Depois do início fulminante de Harry Kane e companhia, um jogo tímido diante do Panamá. Em um gol posteriormente anulado, panamenhos vibravam na arquibancada como se a verdadeira conquista fosse aquela. E, de fato, seria. Mas o VAR tirou a graça.

Uma Copa que, de certa maneira, parece encerrar um ciclo dourado no futebol. Messi e especialmente Cristiano Ronaldo devem se despedir dos Mundiais depois de seis edições consecutivas. Os dois que se acostumaram a polarizar o mundo da bola nos últimos 15 anos. Talvez se encontrem frente a frente, talvez não. Mas é satisfatória a sensação de ter certeza que estamos vendo História. Contaremos mais à frente para filhos e netos quando os dois já estiverem na parede há muito, ao lado de tantos outros. O tempo passa, é inevitável. O vazio bate. Mas faltam ainda 32 jogos. Não deixe a Copa morrer, não deixe a Copa acabar.

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