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A luta com o coração e a conquista do alívio: Flamengo lava a alma na Libertadores

Everton Ribeiro Flamengo classificação Libertadores 2018

(Gilvan de Souza / Flamengo)

Everton Ribeiro Flamengo 2018 classificação oitavas

(Gilvan de Souza / Flamengo)

Impossível abordar o desafogo de alma do Flamengo sem considerar a carga emocional que invadiu o Maracanã. Era pesada. Quase palpável. Que atravessava praticamente uma geração de novos rubro-negros. Pois datava de 2010 a última vez em que o Flamengo rompeu a fase de grupos da Libertadores. Um saldo de quase uma década que cabia ao elenco atual pagar. A memória do vexame de 2017 ainda estava viva. No campo. Na arquibancada. Não é fácil lutar contra o coração, assustado. Tentar controlar pernas e amansar a cabeça. Fazer da razão o fator dominante. O pensamento voa, indica receio. Faz hesitar. Errar. Mas duas pinturas de Everton Ribeiro decretaram o fim da espera. Uma vitória. Não apenas os 2 a 0 sobre o Emelec. O Flamengo superou o coração e conquistou o alívio. Enfim, pode respirar com uma conta zerada.

Os recentes fracassos na fase de grupos da Libertadores tornaram o torcedor rubro-negro, geralmente um ser confiante até o limite da arrogância, um tanto quanto amuado. Um gato escaldado, temendo pelo pior que invariavelmente aparecia com requintes de crueldade. As condições estavam ali. Bastaria uma vitória sobre o lanterna do grupo, no jogo que marcava o retorno da torcida ao Maracanã após a punição devido ao caos na final da Sul-Americana. O coração, assustado, dizia que o flerte com o fracasso era alto. Imagine, então, jogar nessa atmosfera.

No início: Cuellar soberbo e Diego recuando de novo

Com Diego de volta ao time titular, Barbieri não teve dúvida: repetiu a escalação que lhe rendeu a melhor atuação na temporada, contra o Ceará. Um 4-2-3-1, com Paquetá responsável por iniciar o jogo ao lado de Cuellar. Everton Ribeiro de volta ao seu habitat, pela direita, com Diego tentando aproximar de Dourado, e Vinicius Junior à esquerda. Parece mesmo ser este o seu Flamengo ideal. Um time que tenta manter a posse e avançar por dentro, empurrando o adversário. Mas as pernas não obedeciam direito no início de jogo. Principalmente pela postura ousada do franco atirador Emelec.

Virtualmente eliminado, o time equatoriano precisava de uma vitória para manter o fio de esperança. Tentou, então, surpreender, tomar as ações do jogo. Adiantou a equipe e pôs a tocar bola pelos lados, tentando a velocidade de Preciado, na esquerda, e Rojas, à direita. Inicialmente, deu certo. O Flamengo teve dificuldade para marcar o toque de bola curto e muito rápido, que partia do meio com Matamoros para as pontas. E se desorganizava. Cuellar, por vezes, ficou sozinho com o adiantar de Paquetá, que se juntava a Diego e Everton, enquanto Vinicius aproximava de Dourado na área. Os lados ficavam um tanto quanto descobertos. O volante colombiano e Renê tiveram papel fundamental. Em um jogo corrido, sem dono, com a bola cruzando o campo de lado a lado com velocidade, eram eles os responsáveis por dar o bote à frente e fazer o time andar. Seriam, juntos, responsáveis por 11 desarmes durante a partida. Diminuíram, então, o sufoco inicial do Emelec.

Emelec no início: pressão no Fla e depois recuo estratégico, forçando pelas pontas

O Flamengo, nervoso, se equilibrou um pouco a partir da metade do primeiro tempo. Quando Paquetá, em noite ruim, encontrou melhor o posicionamento pelo lado direito, dialogando com Everton Ribeiro, deixando Diego mais à esquerda. O camisa 10, porém, pecava. Diante do Ceará, jogou bem à frente, próximo ao atacante e com possibilidade de finalização. Até começou assim, tentando dar velocidade ao entendimento com Vinicius Junior. Mas depois voltou a insistir em um pecado que tem sido mortal em suas atuações: recuar para iniciar o jogo. Tentou algumas vezes e mostrou as dificuldades recentes: a posse excessiva, a maior lentidão para fazer a bola andar. Ainda assim, o time teve ótimas chances: Juan, em cabeçada que Dreer e a trave impediram após falta alçada por Everton Ribeiro, e Henrique Dourado, imperdoável, falhou de frente para o goleiro quando uma sobra de jogada de Vinicius Junior se ofereceu à sua frente.

O bom momento chamou a torcida, dividida entre o receio de um jogo tenso e a vontade de apoiar para mudar o panorama. O Emelec, ciente, deu passos atrás e esperou mais o Flamengo. As chances perdidas, então, aumentaram a ansiedade. O coração berrava. A razão parecia se esvair. Time e torcida, juntos em um mar de ansiedade. O intervalo veio a calhar para relaxar almas por algum instante. Dar vazão a burburinhos que prendiam o fôlego. Não seria possível, de novo, flertar com o fracasso.

O segundo tempo fez dissipar, de início, qualquer tensão. Já com Léo Duarte na vaga do lesionado Juan, o Flamengo se apresentou nervoso, mas em bom sentido. Adiantou-se de início, quis morder o adversário e impedi-lo, uma vez mais, de tomar a iniciativa do jogo e tentar dar as cartas. A velocidade da partida continuou grande, mas com dois minutos a noite começava a se desenhar de forma agradável. Renê deu bote certeiro em Rojas e avançou, tabelando com Vinicius Junior. Uma típica jogada que o time carece pelo lado esquerdo. Além da força defensiva de Renê, que cumpria ótima jornada, uma presença no ataque para dar opção a Vinicius. O lateral invadiu a área e cruzou. Jaime cortou mal e a bola sobrou para Diego, que ainda ajeitou a bola antes de bater em cima do goleiro. No rebote, Everton Ribeiro, embalado, encheu o pé esquerdo no ângulo de Dreer. Um estufar na rede. Um estufar na alma. 1 a 0.

Ao fim: Fla, tenso, ainda espaçado, aberto e com o jogo “solto”

Por segundos, o Maracanã berrou. Por outros tantos segundos, suspirou. Cortou a tensão que pairava, pesada, pelo ar. Graças a Everton Ribeiro. O camisa 7 cresce de produção a olhos vistos. Não, não é a ausência de Diego que lhe permite o melhor desempenho. O camisa 10 estava em campo também. A dele, Everton, não é centralizado. O meia rende melhor no seu habitat, da direita puxando para o centro. Driblando, tocando curto, achando espaços ou abrindo outros para as subidas de, por exemplo, Rodinei. Paquetá inverteu de lado, pôs-se mais à esquerda, Diego caminhou para a direita. O Flamengo tentaria, então, controlar o jogo. Mas quem disse ser possível controlar o coração? Amansar a cabeça? É ingrata a luta. É enorme a pilha.

Sem nada a perder, o Emelec adiantou o time com duas trocas. Luna se aproximou de Orejuela e Montero assumiu a esquerda, com Preciado caindo à direita. Era tudo ou nada. O Flamengo sabia disso. E deixou-se envolver. O peso dos anos de fracassos voltou a campo, tornando o jogo em uma briga louca, aberta, com enorme correria de lado a lado. A razão mandava o Flamengo manter a posse, girar o jogo, acalmar o embate. O coração, assustado, criava o desespero. O flerte com o fracasso. Aumentava o cheiro de mais uma noite trágica na Libertadores. Diego, amarelado e irritadiço, errava demais. Paquetá, tentando compensar a má apresentação técnica com disposição, também errava muito. Passes e passes nos pés rivais. Só do camisa 11 foram nove, de acordo com o Footstats.

Emelec ao fim: avançado, buscando o jogo franco e a esperança

A bola rondava demais a área de um Flamengo que desejava evitar um novo desastre. Corria muito risco. Não por opção. Afoito, quase desesperado, deixava a bola correr, o coração mandar. Preciado, pela direita, tocou por cobertura e obrigou Diego Alves a fazer ótima defesa, com um tapinha salvador. Barbieri, já expulso depois de reclamar com o fraco árbitro peruano, trocou Dourado por Marlos Moreno, Diego por Jonas. O time estava espaçado demais e com o volante posicionado à frente da defesa, com Ceullar à caça dos rivais na intermediária, a pressão arrefeceu. Paquetá voltou a dublar a função de centroavante que tanto fez em 2017. Em meio ao desespero, uma dose de razão: era hora de segurar a bola.

Ao tentar sumir com a bola em seus pés, o garoto foi derrubado por Mejía na direita. Everton Ribeiro, então, usou talento com plasticidade para vencer a luta. Na viagem da bola, o Maracanã, suspenso, parecia não acreditar no fim de uma verdadeira maldição. O chacoalhar da rede indicava não apenas outro golaço do camisa 7. Indicava que o Flamengo, enfim, estava livre. E tomava, a partir dali, de novo o controle de suas ações. Vencia um coração nervoso, escaldado por vexames.

Sim, o Flamengo deixou o Maracanã classificado para as oitavas da Libertadores, quartas da Copa do Brasil e na liderança do Brasileiro. Um céu de brigadeiro que nem mesmo o mais otimista rubro-negro parecia acreditar depois do início de ano claudicante. Há, claro, de se reconhecer defeitos e entender que existem inúmeros pontos a trabalhar para manter o voo de cruzeiro. Definir já a permanência de Vinicius Junior ao menos até o fim da temporada, contratar um zagueiro para ser titular, laterais e um centroavante para substituir o peso de Guerrero no elenco. Antes, porém, tentar se manter na parte de cima da tabela do Brasileiro até a parada da Copa. Tudo necessário. Tudo sob a ótica da razão. Mas a noite se encerrou, mesmo, com o coração aliviado, o peito amansado. Depois de oito anos, o Flamengo cumpriu um ritual necessário. Livrou-se de um grande fantasma. Superou um trauma que tinha criado para si e está, de novo, nas oitavas da Libertadores. De lavar a alma.

FICHA TÉCNICA
FLAMENGO 2X0 EMELEC

Local: Maracanã
Data: 16 de maio de 2018
Horário: 21h45
Árbitro: Diego Haro (PER)
Público e renda: 36.754 pagantes / 40.390 presentes / R$ 2.779.990,00
Cartões Amarelos: Diego e Lucas Paquetá (FLA) e Lastra e Mejía (EME)
Gols: Everton Ribeiro (FLA), aos dois minutos do segundo tempo e aos 46 minutos do segundo tempo

FLAMENGO: Diego Alves; Rodinei, Rever, Juan (Léo Duarte, 46’/1T) e Renê; Cuellar e Lucas Paquetá; Everton Ribeiro, Diego (Jonas, 42’/2T) e Vinicius Junior; Henrique Dourado (Marlos Moreno, 36’/2T)
Técnico: Mauricio Barbieri

EMELEC: Dreer; Paredes, Jaime, Mejía e Bagüí; Arroyo (Burbano, 44’/2T) e Lastra; Rojas (Montero, 7’/2T), Matamoros (Luna, 7’/2T) e Preciado; Orejuela
Técnico: Alfredo Arias