Fabrício Vasco gol Carioca 2018 semifinal
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Riascos Vasco
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Emoção à flor da pele e troca de golpes: a primeira decisão entre Vasco e Botafogo

Andrés Ríos final Carioca

(Flickr / Vasco)

Andrés Ríos final Carioca

(Flickr / Vasco)

Se há um grande mérito ainda existente no Campeonato Carioca é a tendência em estimular a rivalidade como uma maneira de trocar golpes com o adversário de forma emocionante. Algo espontâneo, quase irresponsável, sem medo. Franco. Considerados os campeonatos de menor relevância esportiva – esqueçam a Primeira Liga – na temporada, os Estaduais talvez ainda tenham essa função: manter a rivalidade pulsante, à flor da pele, com golpe, contragolpe, pequenas grandes histórias. Provocação clara. O Campeonato Carioca cumpre bem. Ao contrário de outras praças esportivas, a rivalidade não termina em sopapos em campo que travam o futebol. Há dificuldades técnicas e táticas, mas a vitória do Vasco sobre o Botafogo por 3 a 2, no Estádio Nilton Santos, o Engenhão, fez isso. Provocou. Exaltou rivalidade. Emocionou. Um gol aos 48 minutos da etapa final de um time que parece incorporar aos poucos o espírito de quem se nega a perder.

Botafogo no início: time à frente, de novo com espaços

Talvez esse senso geral existente de que o campeonato vale menos do que outros ao longo do ano seja o principal fator a permitir aos times que se atirem no escuro mesmo em uma decisão. Mostram as armas. Tentam agredir o rival. Mas, como dito, há falhas. Falhas que contribuem para a emoção. Erros crassos. Como o de Paulão, que tentou sair jogando aos três minutos de jogo após bola recuada por Wellington, entregou a pelota nos pés de Renatinho, que tocou na saída de Martín Silva. Com meros três minutos, 1 a 0. E festa botafoguense na arquibancada. Mal havia dado tempo de entender o que se pretendia de cada lado do campo. Mas logo ficou claro: atacar e atacar. Dois times no 4-2-3-1, tentando explorar suas melhores características para agredir o rival. Um pulo no abismo.

Neste panorama, o Botafogo foi diferente do time que de forma eficiente derrubou o Flamengo na semifinal. Um meio-termo como a equipe que apanhou feio para o Fluminense na final da Taça Rio. Marcava, mas não de forma tão próxima. Cedia espaços ao Vasco. Jogava, mas para isso tinha de deixar o rival jogar. Lindoso saía ao campo vascaíno com Luiz Fernando, Valencia e Renatinho. Marcelo prendia o pé no campo para dar o mínimo de consistência defensiva. Mas o jogo era aberto. O Vasco, já atrás no placar, também queria jogar. E dava espaços, campo, da mesma maneira.

Para os torcedores sentados na arquibancada ou na tv, a notícia era ótimo. Sinônimo de um jogo lá e cá, com chances e emoção. Para os times, nem tanto. Largar-se tanto ao ataque significa correr perigos sistematicamente. Não ser organizado, equilibrado. O Vasco levava perigo com os avanços de Giovanni Augusto ao entrar na área e, principalmente, Yago Pikachu. À vontade mais avançado, o lateral cumpria bem o papel de perturbar Moisés. Mas assim como na semifinal contra o Fluminense, Pikachu surpreendeu. Saía da direita para a esquerda. Penetrava na área. Confundia a marcação. Numa dessas investidas, o gol. Aliás, um golaço. Wagner recebeu de Giovanni Augusto, limpou para o meio e inverteu o jogo. Mal posicionada, a defesa do Botafogo deixou apenas Igor Rabello na área. O lançamento foi perfeito e Pikachu caprichoso na finalização, de primeira, no canto de Gatito. 1 a 1.

Vasco no início: Pikachu, de novo, onipresente

O impacto sofrido pelo Vasco com o gol de Renatinho logo com três minutos de jogo tinha virado de lado. Espaçado, permitindo ao time cruzmaltino avançar à área com facilidade. Havia campo para jogar. E lançar. Desábato, em boa tarde, recuperou a bola e achou Wagner sozinho pela esquerda. E lá foi meia. Sem combate, sem aperto. Com um latifúndio para trabalhar. O movimento foi parecido com o primeiro gol. Riascos deixou a área e recebeu de calcanhar de Wagner. A ginga do colombiano trouxe dificuldade para Marcinho, que não achou o atacante. A zaga boafoguense ainda tentava achar o posicionamento na área quando Riascos passou à linha de fundo e rolou para Pikachu, que entrou como um centroavante na área. O passe chegou meio embolado, na disputa de bola com Rodrigo Lindoso, mas a bola foi ao gol. 2 a 1.

Um jogo elétrico, emocionante. Mas desorganizado. Um ataque significava espaços para trabalhar a bola e assustar o adversário. No Botafogo, a saída de jogo sofria dificuldades. Rodrigo Lindoso estava em tarde ruim. Pegava a pelota dos pés dos zagueiros e tentava lançar ou passar. Errava. E chamava o Vasco ao campo com o time ainda desorganizado. Leo Valencia, pela esquerda, estava bem menos efetivo do que nos últimos jogos. Procurava o meio, mas não encontrava com quem jogar. Luiz Fernando estava mais apagado. Um Botafogo pior do que o Vasco. Mas o jogo, lembre-se, era franco. Igor Rabello quase marcou de cabeça em falta alçada por Leo Valencia. Martín Silva fez boa defesa. O jogo estava quente. E ainda com espaço.

Parece redundante, mas realmente impressionava a quantidade de passos que os jogadores davam ao avançar com a bola sem tanto incômodo. Nenhuma vigília de perto, marcação mais cerrada. Campo, campo, campo. Ninguém estaria seguro. Quando Fabrício apenas olhou Marcinho rolar para Luiz Fernando na direita, Paulão e Erazo o acompanharam ao apenas observar a cabeçada certeira de Brenner no fundo do gol de Martín Silva. 2 a 2. Em 44 minutos de jogo. Emocionante, vibrante. O intervalo serviu para um respiro.

Botafogo ao fim: mesma estrutura, ainda espaçado

Na segunda etapa, os times diminuíram o ímpeto. O calor era forte no Engenhão e a parte física cobrava seu preço. A marcação adiantada do Botafogo já não era tão evidente. Os times poupavam forças. O Vasco já tinha Paulinho na vaga de Giovanni Augusto desde o fim do primeiro tempo, por lesão. Wagner ao meio, o garoto ficava na esquerda. É liso, passa por um, dois, três. Mas realmente parece encontrar dificuldades devido a problemas físicos. Justificativa dada por Zé Ricardo para deixá-lo no banco de reservas. Talvez por ter entrado mais cedo na partida, o desgaste foi maior. Ali no início do segundo tempo, Paulinho rendeu melhor. Deu chute de difícil defesa para Gatito. Mas com o passar do tempo erros de passe e dribles aconteciam. Natural.

Alberto trocou Leo Valencia, inofensivo, por Rodrigo Pimpão. Mandou o sinal: exploraria a velocidade por aquele lado, pensando em um contra-ataque em jogo tão espaçado. Segurou, então, Rafael Galhardo. O lateral já tinha feito boa entrada na área no primeiro tempo, chutando cruzado próximo ao gol de Gatito. Wellington continuou a tentar a infiltração. Desábato vigiava bem o setor com as investidas de Renatinho. Um jogo igual. Corrido, emocionante. Zé Ricardo respondeu com Andrés Ríos na vaga de Riascos.

Um jogo mais inteligente, mas menos veloz. Não havia uma tentativa clara de modificar o posicionamento das equipes. Houve troca de peças. Ambos continuavam no 4-2-3-1 ao avançar e no 4-4-2 ao defender. Com Thiago Galhardo no lugar de Wagner, Zé Ricardo quis devolver maior velocidade ao jogo. Na verdade, inverteu as características dos setores. Se antes, com Riascos e Wagner, tinha velocidade no ataque e maior cadência no meio, com Thiago Galhardo e Andrés Ríos era justamente o contrário. Talvez uma tentativa de aproveitar a tarde ruim de Lindoso, mais avançado do que de costume, e aproveitar Marcelo mais solitário no combate. Carli e Igor Rabello tentavam sair para o combate. O Botafogo se complicava. E talvez apostasse no empate como resultado final.

Ocorre que cometeu dois erros. Continuou a dar campo ao Vasco que esteve de pulmões renovados. E buscava justamente lançar bolas rasteiras entre os zagueiros. Paulinho quase marcou assim, mas bateu em cima de Gatito. Thiago Galhardo foi à direita, chamou Igor Rabello para a linha de fundo e rolou para trás. Andrés Ríos completou para o gol e venceu Gatito, batido no lance, mas Marcinho salvou o terceiro gol vascaíno. As cartadas de Alberto para igualar a velocidade foram Marcos Vinícius e Kieza nos lugares de Renatinho e Brenner. Faltava cabeça ao Botafogo, tentando mais bolas longas, mesmo com espaço.

Vasco ao fim: maior velocidade no meio e aos lados

O segundo erro foi talvez esquecer do jogo mais recente do rival. Uma classificação arrancada aos 48 minutos do segundo tempo. O Vasco de 2018 tem aprendido a não desistir do resultado. Tem perseguido a vitória mesmo qquando ela lhe parece improvável. O escanteio de Thiago Galhardo teve o desvio em Wellington no meio da área e o belo voleio de Andrés Ríos para o gol no segundo pau.3 a 2. Aos 48 minutos do segundo tempo. De novo. Emoção até o último minuto. De times que se lançaram ao abismo.

Não houve pontapé, dedo no rosto, tapa na cara. Faltou organização. Mas jamais disposição. Na primeira decisão do Campeonato Carioca, a rivalidade foi colocada em campo como deve ser. Na bola. Um jogo muito aberto, recheado de espaços. Característica de clássicos cariocas, característica especialmente deste clássico. O terceiro 3 a 2 entre Vasco e Botafogo. 15 gols em três jogos. Promessa de mais entretenimento para a finalíssima no Maracanã.

FICHA TÉCNICA
BOTAFOGO 2X3 VASCO

Local: Estádio Nilton Santos, o Engenhão
Data: 1 de abril de 2018
Horário: 16h
Árbitro: Rodrigo Carvalhaes (RJ)
Público e renda: 16.337 pagantes / 19.117 presentes / R$ 541.370,00
Cartões Amarelos: Renatinho, Rodrigo Lindoso e Carli (BOT) e Fabrício, Wellington, Rafael Galhardo e Andrés Ríos (VAS)
Gols: Renatinho (BOT), aos três minutos e Yago Pikachu (VAS), aos 28 minutos e aos 30 minutos e Brenner (BOT), aos 44 minutos do primeiro tempo; e Andrés Ríos (VAS), aos 48 minutos do segundo tempo

BOTAFOGO: Jefferson; Marcinho, Carli, Igor Rabello e Moisés; Marcelo e Rodrigo Lindoso; Luiz Fernando, Renatinho (Marcos Vinícius, 40’/2T) e Leo Valencia (Rodrigo Pimpão, 19’/2T); Brenner (Kieza, 27’/2T)
Técnico: Alberto Valentim

VASCO: Martín Silva; Rafael Galhardo, Paulão, Erazo e Fabrício; Desábato e Wellington; Yago Pikachu, Giovanni Augusto (Paulinho, 34’/1T) e Wagner (Thiago Galhardo, 28’/2T); Riascos (Andrés Ríos, 18’/2T)
Técnico: Zé Ricardo