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Meio cheio, meio vazio: Flamengo cumpre cartilha básica na altitude de Oruro

Gabigol Bruno Henrique Flamengo estreia Libertadores 2019

(Flamengo / Divulgação)

Gabigol estreia Flamengo Libertadores San José 2019

(Flamengo / Divulgação)

Impossível ignorar a altitude de 3.700 metros acima do nível do mar de Oruro. Não se trata de mero esoterismo – embora possa haver até um fator psicológico na equação. É científico. A capacidade física é mais limitada, piques custam caro aos pulmões, a bola viaja bem mais rápido. O jogo muda. Neste copo cheio, a vitória de 1 a 0 do Flamengo sobre o San José, numa estreia de Libertadores – a primeira fora de casa em sua História – tem um peso significativo e deve ser celebrada. Mas há a metade vazia: mesmo diante da barreira da altitude, o Flamengo voltou a apresentar problemas rotineiros já no nível do mar. Difícil que não os traga das alturas para os desafios, de novo, com os pés no chão.

San José no início: laterais avançados, espaços pelo meio

Algo é bem claro já com 11 jogos oficiais em 2019: Abel Braga vai impôr seu estilo ao time e não se encaixar em uma sequência de trabalho desenvolvido nas últimas temporadas, com leves e necessários ajustes. Fica claro não só pelas atuações e decisões do técnico, mas também em entrevistas já concedidas, como ocorreu na mais recente ao blog de Mauro Cezar Pereira, no UOL. A transição de alma da equipe parece mesmo ocorrer. Era até esperada. Mas o técnico parece determinado a tornar o Flamengo em um time velocista, com saídas rápidas, bolas longas, contra-ataque e pouquíssima posse de bola mesmo com tantos jogadores habilidosos. É até compreensível que o Flamengo, por vezes, se comporte assim. Adapte-se a adversários e panoramas. Mas, por enquanto, é um time de uma nota só.

Esperava-se uma melodia diferente em Oruro justamente devido às condições adversas. Um time mais agrupado, com poucas saídas rápidas, manutenção da posse de bola não só como opção de ataque, mas como arma para se defender. Mas o Flamengo de Abel parece ter implodido o passado. Mesmo 3.700 metros acima do nível do mar, pega a bola e acelera, buscando o gol rival, saídas rápidas, explosões de Bruno Henrique e Gabigol. Diante de um adversário extremamente limitado tecnicamente, pode até resolver. No alto de Oruro, o Flamengo voltou a campo em um 4-1-4-1. Novamente Cuellar como o volante que lembra um para-brisa, ao correr aos dois lados, enquanto Arão atua como meia ao lado de Diego. Nas pontas, Bruno Henrique à esquerda, Arrascaeta uma vez mais à direita. Não funcionou.

Fla no início: aposta na velocidade, Gabigol faz-tudo e Arrascaeta à direita

O uruguaio é jogador já conhecido no futebol brasileiro e, por isso, a expectativa por uma adaptação mais rápida era compreensível. Mas o meia fora de seu habitat, entre a esquerda e o centro, não se acha. Pior: em Oruro, a conhecida ineficiência para voltar e ajudar na composição defensiva da equipe chegou ao ápice. Na prática, o uruguaio foi menos um em campo: além da parte tática, claramente prejudicado pela questão física. Por ali, o San José decidiu apostar suas fichas no primeiro tempo. Jair Torrico avançava ao fundo, pressionando Pará, com apoio de Ramallo. Em um 4-4-2, o San José avançava em bloco, acionando demais os lados do campo para levantar bolas à área. Mas logo percebeu: o espaço em frente à defesa rubro-negra era farto. O Flamengo protege mal a sua área. E convida a finalizações de longe. Ramallo, com minutos de jogo, arriscou de forma perigosa para defesa com segurança de Diego Alves.

O Flamengo insistia no contra-ataque, acelerava o jogo e com poucos minutos de partida já era possível ver atletas, como Renê, esbaforidos após um pique. A altitude recomenda mais calma. Mas este Flamengo está baseado em uma direção: contra-ataque e aceleração de jogo, mesmo em condições hostis para tal postura. A eficiência, então, deveria ser excepcional. Mas o time, uma vez mais, teve problemas. Em 2018, Cuellar iniciava o jogo e passava a Paquetá, responsável por levar a bola à frente com troca de passes com os outros meias. Arão não tem essa característica. Recebe, passa e corre para infiltrar. Funciona como volante, não como meia. Gabigol, então, se viu obrigado a retornar ao meio, buscar a bola e tentar acelerar com Bruno Henrique. Aceleração, obviamente, requer passes rápidos, verticais, para tornar o jogo mortal. Diego tem compreendido pouco essa questão. Perdeu ótima chance no primeiro tempo ao receber livre, no meio. Em vez de possibilitar o andamento da jogada com Renê, à esquerda, tornando o contra-ataque perigoso, girou sem necessidade para, enfim, tocar em Renê. Mas era tarde: o San José, bagunçado defensivamente, já havia voltado ao campo de defesa.

Diego até deu chute perigoso, quando teve farto espaço por dentro. Mas pode ser muito mais efetivo ao tornar o jogo mais rápido, principalmente dentro da ideia de Abel. Quando fez isso em 2018, como contra o Corinthians no Maracanã, pelo Brasileiro, teve ótima atuação. Os 34 anos, claro, pesam e evitar uma sequência de jogos a cada três dias pode ser ideal até para aproveitá-lo em outro posicionamento. Há possibilidade de que jogue com outros meias, como em 2018. Arrascaeta, por exemplo. Abel, ainda no primeiro tempo, tentou levar o uruguaio ao seu habitat. Jogou-o na esquerda, com Bruno Henrique indo à direita. O San José se adaptou. Se as jogadas passavam muito por Jair Torrico, o lateral-direito Segovia passou a investir contra Arrascaeta e Renê. Dali, o cruzamento rasteiro a Saucedo só não virou gol graças a ótima defesa de Diego Alves, no chão, em velocidade. E o placar foi ao intervalo sem alterações.

San José ao fim: aposta em bolas aéreas para Saucedo e chutes pelo meio

Extenuado, Arrascaeta deu lugar a Everton Ribeiro, de volta ao time após ser poupado devido a dores no joelho direito. A simplicidade de colocar um jogador em seu habitat melhorou o Flamengo. Pela direita, Everton Ribeiro acelerou e controlou o ritmo com desenvoltura, preocupando Torrico e dando mais opções de troca de passes a Arão e Diego. O Flamengo melhorou. Teve mais mobilidade, com trocas de posições constantes mesmo na altitude. Bruno Henrique, de volta à esquerda, recebeu boa bola de Diego, cortou ao meio e viu Gabigol sair da direita para o centro, entre os zagueiros. O passe, preciso, só não foi melhor do que a finalização, com nojo na bola, que morreu no cantinho esquerdo de um apavorado Lame, que saiu em vão. 1 a 0.

Pressionado pelo placar, Nestor Clausen modificou o time. Já trocara minutos antes do gol Sanguinetti, atacante, pelo meia brasileiro Marcelo Gomes. Fez mais duas trocas e colocou Gutiérrez para vigiar a frente da defesa e Alessandrini para abrir à esquerda. Deixou Saucedo solitário na área em busca de bolas aéreas. Um 4-1-4-1. Tentava aproveitar os chutes pelo espaço à frente da área ainda concedido pelo Flamengo e apostar na altitude com as bolas aéreas. Marcelo Gomes, com categoria, bateu bonito no alto para outra ótima defesa de Diego Alves. E o Flamengo aceitava a pressão de um time limitado, disposto a sair no contra-ataque. Compreensível que a altitude e sua consequente falta de oxigenação complicassem na reta final do jogo tomadas de decisões. Mas parecia uma decisão pouco lógica continuar a acelerar o jogo. Maior desgaste, maior chance de oferecer campo ao San José, adaptado às condições da partida.

Fla ao fim: mesma postura, mas com Everton Ribeiro mais à vontade

A rigor, o Flamengo teve duas chances, justamente em contra-ataque. Everton Ribeiro e Gabigol finalizaram para boas defesas do goleiro rival. O San José, mesmo limitadíssimo, nervoso, empilhava finalizações. Teve 23 no jogo todo, nove no alvo – várias impedidas devido à ótima noite de Diego Alves. O Flamengo tentou incríveis 42 lançamentos* e teve 11 finalizações – só seis no alvo. Venceu o jogo postado da mesma maneira – Bruno Henrique, esgotado, deu vaga a Vitinho, Diego foi substituído por Ronaldo. O time rubro-negro teve 46% de posse de bola. Desta vez foi o suficiente, mas é pouco.

A vitória traz tranquilidade ao dia a dia do clube, mas a Libertadores já se apresenta novamente em uma semana, contra a LDU, no Maracanã. Difícil crer que o Flamengo descerá o morro de Oruro pronto para modificar a maneira de jogar a se impôr com troca de passes, infiltrações e arriscando para ser dono do jogo a todo tempo em casa. Há problemas a resolver. Foi apenas o segundo jogo da temporada no qual a equipe não sofreu gols – e aí vale o destaque para as ótimas atuações de Léo Duarte – o que torna incompreensível sua barração após um 2018 tão consistente – e principalmente Rodrigo Caio, afiado no tempo de bola pelo alto e seguro nas antecipações. Mas correu enormes riscos com tantas finalizações ao seu gol. Entre um copo meio cheio e meio vazio, o Flamengo cumpriu a cartilha básica. O protagonismo exige mais. Bem mais.

*Números do app Footstats Premium

FICHA TÉCNICA
SAN JOSÉ 0X1 FLAMENGO

Local: Estádio Jesus Bermúdez, em Oruro (BOL)
Data: 5 de março de 2019
Árbitro: Nestor Pitana (ARG – Fifa)
Cartões amarelos: Hernandez, Segovia e Alessandrini (SAN) e Diego, Léo Duarte, Bruno Henrique e Diego Alves (FLA)
Gol: Gabigol (FLA), aos 14 minutos do segundo tempo

SAN JOSÉ: Lampe; Segovia, Rodriguez, Toco e Jair Torrico; Ramallo, Didi Torrico, Fernández (Gutiérrez, 22’/2T) e Hernández (Alessandrini, 22’/2T) ; Sanguinetti (Marcelo Gomes, 10’/2T) e Saucedo.
Técnico: Néstor Clausen

FLAMENGO: Diego Alves; Pará, Léo Duarte, Rodrigo Caio e Renê; Cuellar; Arrascaeta (Everton Ribeiro / Intervalo), Willian Arão, Diego (Ronaldo, 39’/2T) e Bruno Henrique (Vitinho, 31’/2T); Gabigol
Técnico: Abel Braga