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Sobre estilos e gestões: Flamengo é travado pelo líder Palmeiras no Maracanã

Dudu Pará Flamengo Palmeiras 2018

(Gilvan de Souza / Flamengo)

Marlos Moreno gol Flamengo Cuellar

(Gilvan de Souza / Flamengo)

A bola correu mansa pela área e, por um instante, o Maracanã parou no tempo. Ali, completamente em transe com o empate minutos antes, teve a certeza da vitória. As crenças funcionariam. As mãos que se erguiam aos céus estariam justificadas. O pedido pelo improvável seria atendido. O fôlego, preso, explodiria em um urro coletivo. Camisas girariam mais forte, desconhecidos se abraçariam, copos de cerveja inundariam o ar. Gol escancarado, a bola oferecida, em súplica. O ajeitar de corpo, a certeza de que a chapada estufaria a rede poderia ali lhe conceder a História. E Paquetá errou. Chapou. Mas no alto. Mandou longe toda certeza. Toda crença. Permitiu dúvidas. O Campeonato Brasileiro ainda está aberto. Ainda polarizado após o empate em 1 a 1 entre Flamengo e Palmeiras. Distintas gestões e distintos estilos.

Há ao menos três anos os holofotes do futebol brasileiro repousam com alguma constância e interesse na polarização entre Flamengo e Palmeiras. A explicação é óbvia. São clubes que chegaram a um sólido patamar econômico, ainda que de formas antagônicas. Se um preferiu cortar na própria carne e fundar raízes sólidas com recursos de sua marca, outro contou com a impulsão inicial de um bilionário apaixonado para, enfim, ver céu de brigadeiro. São formas legítimas de alcançar a estabilidade financeira para, enfim, refletir no campo. Ocorre que exatamente aí, no produto final, caminham em estradas diferentes.

Fla no início: Paquetá e Arão com pouco espaços por dentro, jogo pelos lados

Entre erros e acertos, o Palmeiras escolheu uma maneira de gerir seu futebol. Menos trocas no elenco no andar da temporada, jogo mais duro com quem manifesta o desejo de saída sem o pagamento integral da multa, minimização de erros, entendimento de bastidores e aceitação de um estilo de jogo mais rudimentar para vencer. Tem dado resultado. O Flamengo, com intervenções nada salutares justamente no departamento carro-chefe do clube, busca um jogo mais refinado que requer mais tempo e menos instabilidades. O reflexo esteve no campo no Maracanã: um empate em 1 a 1 saudável para palmeirenses e angustiante para rubro-negros.

O Maracanã lotado dentro das incompreensíveis limitações de segurança pulsava num claro recado ao time. Era mandatório superar o Palmeiras como fosse possível para reacender de vez a chama depois da chegada de Dorival Júnior. Embalar. O time estava lá, já fixado na cabeça pelo torcedor depois de uma sequência de ao menos quatro jogos. Um 4-2-3-1, com Paquetá mais avançado por dentro, Vitinho e Everton nas pontas, Uribe à frente. Com preferência pela posse, mas em busca sempre do jogo agudo, para agredir o adversário. Acontece que o adversário era o líder do Campeonato Brasileiro. Experiente, com campanhas recentes vitoriosas, invencibilidade de 15 jogos. Disposto a tornar a tarefa dura. Mas Felipão contrariou o que se esperava. Ainda que o elenco estivesse desgastado e com vantagem na tabela, liberou o Palmeiras ao ataque.

Geralmente em um 4-2-3-1, o time paulista permaneceu mais no 4-4-2, com Guerra e Borja soltos à frente, Hyoran e Dudu pelos lados na busca de saída rápida, em velocidade, fazendo o movimento em diagonal com bolas longas. Na lateral-direita, a improvisação de Luan. Por dentro, uma grande força com Thiago Santos e Felipe Melo. O Palmeiras entendia o jogo. Tinha seu manual de instruções para jogar o campeonato. Travaria o Flamengo e partiria para ser ofensivo. Com minutos de jogo, Felipe Melo mandou o recado a Paquetá, em entrada forte não advertida por Rafael Traci. No futebol brasileiro ainda se vence, também, pela intimidação, com jogadas mais ríspidas. Felipe Melo sabe. E tratou de dominar o meio de campo e bufar para a arbitragem. Foi superior nas disputas pelo alto e freou qualquer tentativa do Flamengo de ser superior pelo meio. Propositalmente, o Palmeiras fechava o lado direito, com auxílio direto de Thiago Santos a Luan. A busca do Flamengo pelo setor, com um zagueiro improvisado como lateral, seria natural. Vitinho arriscava, tentava. E se entendia bem com Renê. Atualmente um lateral muito competente na defesa e que se arrisca bem ao ataque. Faz temporada entre os melhores do país na posição.

Palmeiras no início: um ‘falso retraído’, com força no meio e velocidade nos lados

A primeira boa jogada rubro-negra surgiu por ali. Renê pela esquerda e um toque ao centro, onde Vitinho surgiu surpreendentemente livre, mas arrematou mal, rasteiro, para fora. O Flamengo, elétrico, tentava empurrar o Palmeiras, contar com o bafejar da torcida. Trocava passes, mas não conseguiu intimidar o rival. Cascudo, o time paulista permitia o avançar rubro-negro até onde entendia ser necessário. Na intermediária, travava qualquer tentativa de avanço de Paquetá ou Arão por dentro. O camisa 11 procurava a ponta, pela esquerda. Thiago Santos e Felipe Melo revezavam para ocupar o espaço pelo meio. O jogo, com alta posse rubro-negra, era truncado. Nem bom, nem ruim. E agradava ao Palmeiras. Manter o Flamengo sem perigo efetivo. Vitinho levava vantagem sobre Luan, cruzava para o centro, mas Uribe, em meio aos zagueiros, nada ameaçava. Arão por vezes funciona com suas infiltrações quando há espaço. Não havia. Paquetá, com marcação dura e por vezes de costas para receber a bola e girar, teve um aperitivo do que deve encontrar na Itália. Houve dificuldade para desenvolver o seu jogo.

Não havia para o Palmeiras. Embora o Flamengo tenha contado com bons desarmes – principalmente com Cuellar – necessários a um time que busca sempre agredir e por vezes se expõe, a bola longa preocupava. Borja ganhou duelos com Léo Duarte ou Réver, matando a redonda no peito e abrindo para a ultrapassagem em velocidade de Hyoran e, principalmente, Dudu. Mimado, polêmico e irritadiço, o camisa 7 é, talvez, o melhor jogador em ação no Brasil. Acelera o jogo, dribla, irrita o adversário, finaliza. É o escape ideal para o jogo idealizado de Felipão. Em 1999 ou em 2018. As ideias são similares, com breves adaptações ao contexto atual. O empate no primeiro tempo preocupou de maneira leve o Maracanã. Ali, de maneira quase soberba, o estádio ainda carregava uma certa confiança de que sairia vitorioso no duelo crucial da competição, como fez em 2009. Mas aí a diferença. Há nove anos, o Palmeiras esteve no topo e caiu. O Flamengo, longe, arrancou. Em 2018 é o inverso. A faca nos dentes, a escalada da montanha é palmeirense. A confiança é alta.

Tamanha para o time ter a certeza de que seu plano de jogo pode funcionar ao mínimo cochilo do rival. Ao encerrar a parte do Brasileiro antes da paralisação para a Copa, o Flamengo empatou com o mesmo Palmeiras e abriu oito pontos de vantagem sobre o rival. Agora está quatro atrás. Está convicto de que o caminho traçado é o ideal. Antonio Carlos recuperou bola, avançou um pouco ao meio e deu ótimo lançamento para Dudu nas costas de Pará. Mais uma tentativa de bola longa. Um velho defeito rubro-negro, de temporadas a fio, estava ali exposto. O lateral, uma vez mais, titubeou em um jogo decisivo, como fez diante do Corinthians em 2017, e observou a bola, ignorando o adversário. Errou o tempo. Dudu, esperto, dominou e com categoria limpou também Léo Duarte, batendo no cantinho esquerdo de César. Um belo gol do líder. 1 a 0.

Fla ao fim: Paquetá de centroavante e velocidade pelos lados

Instintivamente, o balde de água fria derrubaria o ânimo da equipe rubro-negra. A arquibancada do Maracanã não permitiu. Escolheu aquela tarde, com preços mais populares e confronto de caráter decisivo, para retomar a sinergia com a equipe. Berrou a plenos pulmões após o gol sofrido, impulsionando o Flamengo ao campo rival. Como em velhos tempos, a arquibancada pulsou para levar o time ao ataque. Transmitiu a confiança que o Flamengo indicava ter perdido após o baque em mais um jogo decisivo. Com o passar do tempo, o desgaste físico naturalmente diminuiu o poder de marcação palmeirense. Mais retraído, o centro do campo era menos vigiado. Everton Ribeiro buscava cair por dentro, Paquetá teve mais espaço para entrar na área. Após a finalização do camisa 11 em cima de Weverton, em chance clara, Felipão entendeu. Deveria mudar. Sacou Guerra, fora de sintonia, e pôs Willian para acelerar o jogo pelo lado. Em seguida, Felipe Melo deu lugar a Moisés. Menos marcação, mais tentativa de ter a bola no pé, arrefecer a pressão rival. O Flamengo alugava o campo de ataque, trocava passes, pressionava, buscava o abafa. O antagonismo era claro. Flamengo, o time da iniciativa do jogo, diante do Palmeiras, líder, com vantagem e um apreço pelo futebol mais retraído, em busca de contra-ataque. Gostos distintos no exercício de tratar a bola com os pés.

Dorival apostou em esgarçar a defesa palmeirense com Geuvânio e Marlos pelos lados, Diego na vaga de Arão. Paquetá como centroavante. Posse, troca de passes e velocidade, buscando o confronto individual. Funcionou. Vivo no jogo, o acelerar incomodou o Palmeiras que já sentia o desconforto de ter 65 mil pessoas contra si. Renê achou Marlos Moreno na corrida sobre Gustavo Gómez, também improvisado, pela esquerda. O corte seco para dentro derrubou a lógica de Antonio Carlos. A finalização certeira, entre Weverton e a trave, mais ainda. Depois de longo jejum, Marlos Moreno marcava um gol. Seria, talvez, um sinal. Seria, talvez, um alerta de que o futebol uma vez mais se resolveria com ingredientes do improvável. Então Paquetá decepcionou.

Em mais uma bela jogada de Marlos pela esquerda, o toque veio suave, na medida. Houve tempo para o camisa 11 ajeitar o corpo, escolher a melhor maneira de bater na bola diante do gol escancarado e concretizar a virada. Uma chance rara de entrar na História. Por segundos, ali, sentiu-se o gosto dela. O erro técnico grave, com misto de preciosismo, foi cruel. Paquetá é jogador em franca evolução. Marcado de perto, tentou sair do centro e fugir aos lados. Teve pouco espaço para entrar na área. Tem a virtude de não desistir. Mas uma de suas grandes deficiências ainda é a dificuldade para finalizar com precisão. Parece contraditório apontar isto no artilheiro da equipe na temporada. O meia tem gosto pelo gol. Mas precisa caprichar mais em suas finalizações. Torná-las mais perigosas. Por vezes o chute é fraco. Por vezes é mal colocado. Por vezes mascado. Há um potencial enorme para o garoto – longe de ser craque – evoluir. O autor deste texto ainda entende que sua ótima visão do campo e seu bom passe o tornam um jogador muito interessante quando um pouco mais recuado, como no primeiro semestre. Algo para o Milan pensar.

Palmeiras ao fim: Thiago Santos na lateral, Gómez no meio e Dudu veloz

Certo é que a chance de ficar na História em caso de conquista rubro-negra foi, por enquanto, isolada por Lucas Paquetá. Ali, o Flamengo viu-se incapaz de vencer o Palmeiras. Felipão percebeu o perigo do veloz Marlos e trocou Thiago Santos com Gómez, lateral e meio. O time da casa seguiu a pressionar, trocar passes e arriscar chutes a média distância. Everton Ribeiro, em noite pouco brilhante, ainda conseguiu achar espaços. Mas, como todo o Flamengo, não foi bem, nem mal. O time em seus domínios ainda exibe uma dose de imaturidade ao não se adaptar ao jogo que se apresenta. Erra a temperatura. Acima ou abaixo. Falhou miseravelmente em jogos decisivos em casa contra São Paulo, Cruzeiro e Corinthians. Em comum, o apreço do rival por enervar o time rubro-negro com cera demasiada, sem maiores reclamações dos donos da casa. O Maracanã rubro-negro é um convite a este tipo de jogo rival. Ao perder na parte mental, o Flamengo tem dificuldades para se impôr em seu campo. É uma lição para o futuro departamento futebol compreender e assimilar.

O empate em 1 a 1 de um Flamengo, de acordo com o Footstats, de 62% de posse de bola e 19 finalizações – apenas quatro no alvo – indica uma equipe que buscou a vitória, mas foi incapaz de superar o jogo rival, baseado em um estilo mais retraído, com bem menos apreço pela bola. Mas fatal. Mas além disso: entre terremotos vividos na temporada, o Flamengo não soube propiciar estabilidade e evitar percalços. Permitiu a saída de Vinicius Júnior mesmo com um time tão bem encaixado na liderança, demorou a efetivar Vitinho como escolha diante do sonho no holandês Ryan Babel. Negociou Paquetá abaixo da multa e com o campeonato em curso. Optou por adaptar Carpegiani à função de técnico após o abandono de Rueda. Levou como foi possível, sem utilizar o poderio econômico para se se impôr sobre os rivais com um planejamento claro. À sua maneira, o Palmeiras trilha esse caminho. Endurece seu núcleo de futebol, o encorpa com conquistas. Mesmo em um ano instável como 2017 foi vice-campeão brasileiro. Segurou Dudu mesmo diante da contrariedade do jogador. É líder e está na semifinal da Libertadores. Distintas gestões. Distintos estilos. Distintos resultados.

FICHA TÉCNICA

FLAMENGO 1X1 PALMEIRAS
Local: Maracanã
Data: 27 de outubro de 2018
Árbitro: Rafael Traci (PR)
Público e renda: 58.613 pagantes / 65.102 presentes / R$ 1.452.823,00
Cartões amarelos: Renê e Marlos Moreno (FLA) e Antonio Carlos, Thiago Santos, Moisés, Weverton e Victor Luís (PAL)
Gols: Dudu (PAL), aos quatro minutos e Marlos Moreno (FLA), aos 35 minutos do segundo tempo

FLAMENGO: Cesar; Pará, Léo Duarte, Rever e Renê; Cuellar e Willian Arão (Diego, 15’/2T); Everton Ribeiro, Lucas Paquetá e Vitinho (Marlos Moreno, 22’/2T); Uribe (Geuvânio, 32’/2T)
Técnico: Dorival Júnior

PALMEIRAS: Weverton, Luan, Antonio Carlos, Edu Dracena e Victor Luis; Hyoran, Thiago Santos, Felipe Melo (Moisés, 15’/2T) e Dudu; Guerra (Willian, 9’/2T) e Borja
Técnico: Luiz Felipe Scolari