(DFB / Max Galys)
Cruzados da Copa, dia 4: entre madrugadas, o 7 a 1 ressurge em uma Copa da fartura
15 de junho de 2026

Cruzados da Copa, dia 5: a fábula de Vozinha

(Twitter FifaWorldCup_pt)

Dia 5. Gostamos de fábulas. Histórias que mergulham no impossível, promovem herois e têm a eternidade como morada. A Copa do Mundo é um terreno fértil para elas. Gigantes parados por pequeninos que se aventuram a mostrar ao mundo seus feitos. Vozinha. Apelido curioso, engraçado, afetuoso. É o seu Josimar Dias, goleiro quarentão, criado por vó mesmo, que parou a Espanha e fez o mundo sorrir. Pois, repito, gostamos de fábulas. A favoritaça, encharcada de arrogância como o usual, pensava cumprir uma protocolar estreia em Copa do Mundo. Engano bobo, tonto, típico de quem subestima o mais fraco. Pois Vozinha e seus companheiros cabo-verdianos estavam prontos para a História. No futebol é possível se eternizar em um jogo sem gols.

Possivelmente haverá quem diga que se trata de um exagero, afinal, foi apenas um pontinho conquistado pela seleção de Cabo Verde. Na frieza do cérebro, verdade, é isso. No calor do coração, na emoção das lágrimas de Vozinha ao fim do jogo, não. Levará para sempre o dia em que se apresentou ao mundo, ainda que no crepúsculo da carreira. Certamente em alguns anos sentará em uma cadeira na esquina de casa, em Cidade de Praia, e contará cada defesa nos mínimos detalhes como se dentro do campo ainda estivesse. Um heroi junto aos seus. Lembrará que não estava com a mãe por não ter conseguido pagar o visto, o quão assediado foi, as entrevistas que deu, as lágrimas que rolaram pelos olhos. Não sabemos ainda até onde irá Cabo Verde. Qual o futuro da carreira de Vozinha. Quantos bebês serão assim batizados tal qual este cabo-verdiano quarentão após os gols de Josimar em 86. Estamos, apenas, seduzidos por mais uma bela história traçada no grosso livro de Copas do Mundo. O melhor da Copa, sempre, está nas beiradas. No improvável. Nos Vozinhas.

O apelido em si já traz uma certa graça aos nossos olhos, lusófonos que também somos. Um conforto de alma típico de quem entende que uma palavra no diminutivo indica carinho. Somos cá o país dos inhos. Ronaldinhos, Marcelinhos, Zinhos, Jairzinhos. Nomes e apelidos estranhos a quem não os compreende. É carinho. Poderia gastar mais linhas a falar de Copa neste quinto dia. Bons jogos. Bélgica x Egito, Arábia Saudita x Uruguai – este menos um pouquinho – e Irã x Nova Zelândia. Uma Copa que encara a dificuldade geopolítica mundial. Culturas se chocam em um mundo já tão estranhamente dividido. No placar, empates para todo lado na Copa. Mas é só olhar atentamente. Afastem-se, observem o macro de tudo. Houve vencedores. É possível ouvir, lá da África, em bom português. Foi dia de fábula de Vozinha.

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