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Cruzados da Copa, dia 15: a Copa em telas simultâneas e um abraço ao Escobar
26 de junho de 2026

Cruzados da Copa, dia 16: Bielsa e a loucura que não cabe em uma Copa

Divulgação AUF

Bielsa na foto oficial da Copa, cabisbaixo

Dia 16. Nunca duvide de um louco. Ainda mais de quem carrega o adjetivo como apelido, tal qual Marcelo Bielsa. Uruguai eliminado de forma melancólica da Copa e, na flash interview, ele me sai com um berro, pedindo agilidade cumprir o rito. Pareceu mais uma tentativa de confirmar a fama. A flash interview é aquela entrevista pós-jogo, ainda no gramado, com os personagens quentes e sob as emoções da partida. É um momento agitado. Jogadores, assessores, repórteres tentam ajustar posicionamento, um passinho pra lá, outro pra cá. Valendo? E vai. O tempo é curtinho. Os personagens querem logo se livrar, os profissionais fazer o seu trabalho, mas dependem de ajustes técnicos do cinegrafista. Alguns reclamam baixinho, outros nada e assim seguimos. El Loco Bielsa, claro, estava furibundo, mas tinha de cumprir o protocolo. É do jogo. Mas escorregou feio.

É incrível como uma personalidade tão fascinante quanto irritante como Bielsa ainda consegue se encaixar neste mundo tão competitivo. Se você não tem resultados, abraço. Bielsa sobrevive com uma aura de pensador da bola. Elogiado por Guardiola, tem Sampaoli como seu discípulo no futebol – e talvez no temperamento. O último bom trabalho foi no Leeds, da Inglaterra, há sete anos. Chegaram a vender coolers de El Loco por lá, registrando a maneira como ele acompanha os jogos sentado na área técnica. Geralmente o futebol não tem mais muita paciência para personagens assim. É um esporte globalizado, profissionalizado, recheado de compromissos que valem milhões. Dance a dança ou caia fora. Mas Bielsa não olha para as câmeras em protesto nas fotos oficiais ou entrevistas. Sempre cabisbaixo. É um tanto quanto folclórico, mas fez um trabalho terrível. Taticamente, gestão de elenco. O racha era anunciado há tempos. Amigos da imprensa uruguaia relatavam já no início do ano que os jogadores o detestavam. Insistiu com Muslera como titular – que frangaço – ignorou jogadores como Suárez e Nández. 70 anos e justifica, como nunca, o apelido de El Loco.

Mesmo a sempre elogiada raça charrua pareceu ausente. Ao se ausentar do mundo e protestar em pleno Mundial, Bielsa pareceu levar todo o elenco junto. Um Uruguai, vejam só, depressivo. Loucura. Assim como a classificação de Cabo Verde. O fracasso uruguaio abriu espaço para mais um capítulo mágico da grande história da Copa do Mundo até agora. Vozinha e seus companheiros estreantes em Copa, em um grupo com campeões mundiais, vão em frente. Encaram o momento, as câmeras e conseguem se relacionar com o futebol de uma maneira que Bielsa, cansado, já não parece ser mais capaz. Há tática, há excentricidade, há talento, mas há, muito, paixão no futebol. As relações com suas raízes, o pertencimento à sua gente, especialmente em uma Copa do Mundo. Ao escolher a guerra, El Loco Bielsa deixou tudo isso para trás. Vestiu o personagem, abaixou a cabeça e perdeu uma enorme oportunidade de ser grande. Cruzou a linha de maneira que não cabe mais. Que grande loucura.

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