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Fluminense levanta a Taça Rio com um caminho a seguir para a temporada

Fluminense campeão Taça Rio 2018

(Flickr / Fluminense)

Pedro Fluminense Taça Rio 2018

(Flickr / Fluminense)

A legitimidade esportiva é apontada pelo senso geral do torcedor. Há ao menos oito anos, o status do Campeonato Carioca caiu em descrédito. É um fato, sem margem para contestação. Há reclamações, lamentos, desmandos de cartolas, fórmulas de disputa absurdas, dedos apontados, bicos, flerte com irritação. Mas há em momentos de conquista, um motivo a arrancar sorrisos da arquibancada. A Taça Rio é parte desse processo. Não há pretensão de ser mais um título histórico. O contexto no futebol brasileiro mudou. Mas há, sim, motivos para saborear de forma breve o levantar de uma taça levantada em uma tarde de domingo. A indicação de amadurecimento de uma equipe é um deles. Campeão com retumbantes 3 a 0 sobre o Botafogo, o Tricolor de Abel Braga parece evoluir depois do trauma recente na Copa do Brasil.

Não seria tarefa fácil modificar o Fluminense para 2018. Embora tenha sido muito ofensivo em 2017, a equipe sofreu demais na parte defensiva. Apenas no Carioca, no qual foi finalista, o time sofreu 17 gols em 17 jogos. Um por partida. A solução idealizada por Abel foi adotar um sistema com três zagueiros. Requer tempo, testes, adaptação e olhar atento para encontrar jogadores necessários para exercer a função. A consequência de todo esse processo é a irregularidade. Sem ao menos ter se classificado para a semifinal da Taça Guanabara, o Fluminense levantou a Taça Rio de forma invicta. No Carioca deste ano são oito gols sofridos em 13 jogos até o momento. Continua com limitações, mas dentro de uma ideia evolui.

O interessante neste Fluminense apresentado por Abel Braga na semifinal e final da Taça Rio é justamente o equilíbrio. Baila de jogo de acordo com o contexto e o adversário. Uma postura mais ou menos defensiva. Diante do Flamengo, com a vantagem do empate, fechou-se na maior parte do tempo com cinco jogadores na defesa. Contra o Botafogo, Abel liberou seus cães. Foi com os alas, Gilberto e Ayrton Lucas, que o time encontrou espaço. Muito espaço. E forçou o jogo. O 3-4-3 de Abel, com inúmeras dificuldades contra um Avaí bem fechado, encaixou bem contra o Botafogo de Alberto Valentim.

Flu no início: muita força nos alas, com Marcos Junior e Sornoza incansáveis

Vá lá que a primeira finalização da partida, um chute forte de Marcos Vinícius na entrada da área bem defendido por Julio Cesar, veio do lado do Botafogo. Mas o jogo se fez muito mais ao lado tricolor. O Fluminense convidava o rival ao seu campo, retomava a bola e disparava ao ataque com velocidade pelos lados. Ayrton e Gilberto tinham facilidade em encontrar espaços nos avanços de Marcinho e Moisés. O Botafogo, de novo em um 4-2-3-1, esteve longe de ser competitivo como ocorreu diante do Vasco. Deu espaços, marcou longe, não acompanhou o ritmo tricolor desde o início do clássico. Foi fatal.

Com a tentativa de pressionar a saída de bola tricolor, o time de Alberto deixava o meio ocupado apenas por um desesperado Marcelo. Correndo de um lado para o outro, o botafoguense não sabia quem acompanhar. Marcos Junior e Sornoza alternavam pelos dois lados de ataque atrás de Pedro. O atacante, com velocidade e disputa de cada palmo. O meia buscava o recuo para tentar um passe para infiltração dos alas ou de Jadson. Era um duelo desigual. Bastaram 12 minutos. Ayrton Lucas caiu por dentro, Sornoza dividiu bola e o lateral, inteligente, driblou a marcação com o corpo e rolou para Pedro, solitário à frente de Jefferson, bater para o gol. 1 a 0. A estratégia tricolor era claríssima. E funcionava.

Bota no início: laterais pouco efetivos, maior espaço pelo meio

A vantagem deixou o Fluminense ainda mais à vontade. Chamar o Botafogo e partir em contra-ataque. Sem desespero, organizado. Tanto que passou a alternar a subida de zagueiros. Renato Chaves e, principalmente, Ibañez, avançavam com a posse de bola, causando supresa à marcação do Botafogo. O jovem zagueiro, dentro da grande área alvinegra, quase ampliou ao bater de canhota e assustar Jefferson. Mas, claro, o Fluminense não era perfeito. Na tentativa de esperar demais o Botafogo, passou a dar espaços quando Richard e Jadson avançavam em demasia, descolando do trio de zagueiros. Quem mais se aproveitou disso foi Leo Valencia. De novo destacado pela ponta esquerda, ele passou a puxar a bola para o meio tentando arremates. Dali, obrigou Julio Cesar a fazer ótima defesa após o goleiro bater roupa em um chute de Moisés impulsionado pelo péssimo estado do gramado do Maracanã, que levantava areia com muita frequência.

O segundo tempo deixou claro que o Fluminense entendia cumprir uma ótima estratégia. Estava claro que sim. Apenas o Botafogo entendeu que não. O panorama continuou igual. Fluminense chamando o rival, buscando a saída rápida pelos lados. E o Botafogo tentando pressionar a saída de bola apenas com posicionamento, sem chegar próximo, por exemplo, de quem tinha a bola, como o zagueiro Ibañez por muitas vezes. O jogo tricolor, então, fluía. O do Botafogo emperrava. Luiz Fernando e Marcos Vinícius pouco contribuíam para as ações ofensivas. Brenner, inconformado, deixava de ocupar a área. Três zagueiros para pouca presença de área. O segundo gol tricolor não tardou. E premiou um atacante em boa tarde.

Pedro, jovem revelado na base, não é um primor técnico. Ainda é afoito em jogadas que exigem calma, como um chute que isolou sobre Jefferson na entrada da área. Mas aos poucos parece entender melhor o estilo proposto por Abel. Sai da área para trabalhar o pivô, abrindo espaço para as chegadas de Sornoza e Marcos Júnior. E em um desses lances foi crucial. Em uma das invertidas entre Gilberto e Ayrton Lucas, o ala-esquerdo levantou com categoria para a área. A subida de Pedro foi ótima, mas o passe de peito foi soberbo. Marcos Júnior, na cara de Jefferson, tocou com categoria para praticamente decidir a Taça Rio. 2 a 0.

Flu ao fim: fechado e pronto para o contragolpe mortal

Por mais que o Botafogo tenha exigido de Julio Cesar dois ou três participações em toda a partida, o fato é que jamais o time alvinegro ameaçou tirar o trofeu das Laranjeiras. Pareceu tímido, resignado diante da explosão tricolor do outro lado do campo. Impactado. Com a vantagem de dois gols, Abel Braga fez trocas no time, segurou alas, mas manteve a velocidade. Um 5-4-1, como já havia feito diante do Flamengo. Estratégia repetida. Formatação de 3-4-3 ao 5-4-1 ou vice-versa. Movimento possível com maior naturalidade após tempo, treino e adaptação. Valentim tentou responder com um 4-1-3-2, com Luiz Fernando, Leo Valencia e Renatinho atrás de Rodrigo Pimpão e Brenner. Não houve jeito. O Botafogo girava a bola e encontrava um bloco de tricolores que já tinha dificultado a vida do Flamengo na semifinal.

Bota ao fim: dois atacantes, trinca por trás para pressionar o Flu

Pablo Dyego pela esquerda e Jadson pela direita formavam a segunda linha tricolor em campo, com Douglas e Richard por dentro. Seria necessário apenas um contra-ataque bem encaixado para o golpe fatal. No desespero, o Botafogo se lançou à frente. Luiz Fernando bateu em cima de Julio Cesar na pequena área e na rebatida o contra-ataque de manual saiu. Pablo Dyego disparou pela esquerda e enxergou Jadson já no campo de ataque. O toque agudo venceu Igor Rabello e chegou aos pés do volante, que bateu forte no canto direito de Jefferson. 3 a 0. Barba, cabelo e bigode do campeão da Taça Rio sobre o Botafogo.

Um vice-campeão que encontrou velhas limitações. Se melhorou em relação ao time completamente bagunçado de Felipe Conceição na semifinal da Taça Guanabara, o time foi completamente envolvido e não conseguiu disputar a Taça Rio. Marcou de longe e criou pouco. Diante do Flamengo, rival com elenco tecnicamente qualificado e que sofreu para acompanhar na Taça Guanabara. A Taça Rio ficou bem distante contra um rival com limitações técnicas, porém bem organizado e disposto a lutar por cada palmo.

Um Fluminense que parece ter encontrado um caminho a seguir. Teve 42% de posse de bola e finalizou cinco bolas no alvo em 16 tentativas, de acordo com o Footstats. Três entraram. Um time de jogo rápido, agudo e organizado. Claro que há espaço para alternâncias na sequência da temporada e o elenco segue sedento de reforços. Manter o pique apresentado a final da Taça Rio, até por questão física, é impossível com os mesmos jogadores. Abel precisa de mais opções. A eliminação diante do Avaí na Copa do Brasil, quando o time se desmanchou ao encontrar um rival também fechado e com a vantagem, ligou o sinal de alerta. Há motivos para sorrir nas Laranjeiras. Ainda que momentaneamente. Na quinta-feira, contra o Vasco, a roda do mundo da bola pode girar de um novo. Um reforço aqui, outro acolá, mais tempo e adaptação ao estilo. O Fluminense pode ter achado na Taça Rio o seu caminho para 2018.

FICHA TÉCNICA
FLUMINENSE 3X0 BOTAFOGO

Local: Maracanã
Data: 25 de março de 2018
Horário: 16h
Árbitro: Bruno Arleu de Araújo (RJ)
Público e renda: 22.838 pagantes / 26.842 presentes / R$ 774.000,00
Cartões Amarelos: Marcos Junior e Richard (FLU) e Marcelo, Rodrigo Lindoso e Moisés (BOT)
Gols: Pedro (FLU), aos 12 minutos do primeiro tempo e Marcos Junior (FLU), aos 11 minutos e Jadson (FLU), aos 45 minutos do segundo tempo

FLUMINENSE: Júlio César; Renato Chaves, Gum e Ibañez; Gilberto (Leo, 34’/2T), Richard, Jadson e Ayrton Lucas; Sornoza (Douglas, 16’/2T), Marcos Junior (Pablo Dyego, 20’/2T) e Pedro
Técnico: Abel Braga

BOTAFOGO: Jefferson; Marcinho (Luis Ricardo, 14’/2T), Marcelo Benevenuto, Igor Rabello e Moisés; Marcelo (Rodrigo Pimpão, 28’/2T) e Rodrigo Lindoso; Luiz Fernando, Marcos Vinícius (Renatinho, 15’/2T) e Leo Valencia; Brenner
Técnico: Alberto Valentim

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