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Rota do equilíbrio: Flamengo vence Fluminense em ritmo de treino

Fla-Flu Gabigol gol Brasileiro

(Alexandre Vidal / Flamengo)

Filipe Luis Flamengo gol Fla-Flu

(Alexandre Vidal / Flamengo)

A disparidade técnica entre Flamengo e Fluminense é óbvia. O clássico carioca, porém, despertou atenção, principalmente em 2020, por ser um duelo parelho. Com Jorge Jesus o time rubro-negro encontrou dificuldades, não desenvolveu seu jogo na final do Carioca, por exemplo, com a mesma fluidez demonstrada diante de outros adversários. A fácil vitória de 2 a 1 sobre o Fluminense nesta quarta-feira cristalizou a evolução no trabalho de Domènec Torrent. Intenso, organizado, menos agudo do que no passado, mas ainda assim dominante na partida. Por momentos, o Fla-Flu no vazio Maracanã teve relances de simples treino, apesar de um placar apertado. Um Flamengo na rota do equilíbrio.

Domènec Torrent apontou logo em sua chegada ao clube um problema claro: o patamar abaixo da parte física. Seria impossível executar suas ideias sem um nível mínimo de excelência. O Flamengo, desde então, evoluiu no quesito. As dificuldades de arranque já são raras, a marcação no campo rival bem mais constante, a movimentação sem tamanho esforço. O fôlego maior. As ideias, então, passam ao campo. E não devemos nos enganar: não é o Flamengo de Jesus, mas há uma ideia bem plantada pelo catalão. Mais importante, ele varia não só a escalação, como a formação. Do 4-3-3 do início de trabalho, agora encaixa mais um 4-2-3-1, passando pelo 4-4-2. É um time realmente surpreendente a cada rodada, o que eleva o nível de dificuldade do adversário. O Flamengo entrou em campo no Maracanã com Thiago Maia e Gerson mais atrás, Everton Ribeiro à direita, Arrascaeta à esquerda, Diego pelo centro e Gabigol à frente. Três meias e um atacante. Foi assim, por exemplo, contra o Fortaleza em 2019 no Engenhão, ainda antes da chegada de JJ.

Flu no início: Nenê falso 9, Pacheco e Wellington Silva nulos

E desde já o time passou a circular a bola. Novamente: menos agudo do que nos tempos de Jesus, a equipe mantém o domínio. Circula mais a bola a cada jogo, com maior velocidade, de um lado a outro. Diante do Fluminense, estratégia clara: abrir nas pontas do campo para o cruzamento, preferencialmente à meia-altura, na área tricolor e aguardar o rebote. Complicação para a defesa e para Muriel. Com minutos, o time deu a senha: Isla foi à direita, cruzou e os rubro-negros reclamaram de toque de mão da defesa. A bola voltou ao meio, de novo em pés rubro-negros, e voltou a circular. Totalmente adiantado no campo ofensivo, o Flamengo plantava a dupla de zaga e Thiago Maia pouco depois do meio de campo. Gerson avançava. Pela esquerda, Filipe Luís avançava por dentro. Pela direita, Isla abria quase na linha lateral, com Everton saindo dali para o centro. Gabigol caía à esquerda, Arrascaeta entrava na área com Diego. Muitos jogadores prontos para finalizar.

Fla no início: trio de meias, laterais muito participativos

O Fluminense simplesmente não soube reagir. Numa espécie de misto entre 4-3-3 e 4-1-4-1 encarou o Flamengo sem um centroavante de ofício, com Fred no banco e Evanílson negociado. Nenê como falso nove. Wellington Silva e Pacheco pelos lados, completamente nulos. No circular da bola, Dodi e Yuri corriam soltos atrás dos rivais. Não seria difícil abrir espaços. A estratégia do Flamengo de cruzar bolas – e não as alçar aleatoriamente – na área deu certo. Isla chegava com facilidade pela direita, com vigor físico e ótima capacidade para mandar a bola com curva e velocidade. Arrascaeta ainda se abaixou para cabecear, Muriel deu rebote para frente e Filipe Luís, posicionado na cara do goleiro, bateu para a rede. 1 a 0. Um gol elementar de um Flamengo que recheava a área e buscava os cruzamentos à meia-altura para dificultar os defensores.

Com a vantagem rápida, o Flamengo se viu ainda mais à vontade no clássico. Manteve por mais um tempo a marcação um pouco além do meio de campo, regulando a pressão de acordo com a postura tricolor. Everton Ribeiro passou a circular com maestria por dentro e por fora, trazendo transtorno aos volantes rivais. Gabigol abria à direita, Diego e Arrascaeta entravam na área. O segundo gol chegou de forma semelhante ao primeiro. Falta no lado direito, Arrascaeta caprichou na batida, desta vez mais alta. Muriel, de novo, se enrolou e deu rebote. Gabigol, posicionado mais atrás como no gol contra o Grêmio na Libertadores, teve tempo de dominar e mandar a bola forte para o gol. 2 a 0.

Era interessante: um Flamengo caracterizado no início de Domènec pela participação de jogadores rápidos pelos lados desta vez deixou Michael e Vitinho com opções, abriu os meias para movimentá-los do lado para dentro, com espaço para a chegada dos laterais. Organizado, em bloco, o time deu um passeio no primeiro tempo e só não ampliou o placar por preciosismo. Everton Ribeiro, por exemplo, firulou uma ótima chance de finalização na frente de Muriel.

Flu ao fim: atacantes empilhados

E o Fluminense? Diante de tamanha superioridade do rival no primeiro tempo, de fato era difícil notar virtudes na equipe tricolor. Espaçada, facilmente envolvida e sem nenhum poder de fogo dependeu apenas de alguma lucidez de Michel Araújo. Foi dele, aliás, o único bom momento tricolor no primeiro tempo, ao cruzar bola para finalização de Wellington Silva. Odair mudou para o segundo tempo. Sacou Pacheco, uma nulidade, e pôs Fred centralizado. Abriu Nenê pela direita e tentou imprimir velocidade na retomada de bola. Não funcionou. Embora um pouco acima do primeiro tempo, o time ainda era dominado pelo Flamengo e seu circular de bola. Mas além disso: o time rubro-negro tinha boa postura defensiva. Thiago Maia, soberbo, controlava o centro do campo com maestria. Marca, avança e tem passe sempre vertical. Teve atuação completa. Arrascaeta permanecia mais solto à frente com Gabigol e Gerson fechava a linha com Thiago e Everton. Um time mais agrupado defensivamente, sem dar brechas. O Fluminense não tinha por onde penetrar.

Fla ao fim: jogadores com velocidades pelos lados

Então, o Flamengo relaxou. Desconcentrou-se diante da facilidade da partida e naturalmente diminuiu o ritmo. Odair tentou aumentar a velocidade e a presença ofensiva. Nenê deu lugar a Luis Henrique, Wellington Silva a Marcos Paulo. Depois empilhou ainda Caio Paulista, com Yago Felipe mais atrás. Partiu para tentar um abafa final. Domènec, ciente da superioridade, alargou ainda mais o Flamengo e pôs velocidade para ter as costas dos tricolores. Vitinho e Michael abertos. Arão na de Thiago Maia. Mas o clássico estava sacramentado. Nem mesmo o gol de Digão nos acréscimos abafou a superioridade de um Flamengo que teve 53% de posse, finalizou nove vezes dentro da área, trocou 510 passes e faz Gabigol chegar ao seu quinto jogo consecutivo nas redes. Não foi a partida louca contra o Bahia, com enorme furor ofensivo, mas chances ao adversário. Foi o melhor jogo sob o comando de Domènec Torrent por um simples motivo: mostrou um Flamengo na rota do equilíbrio.

*Números do app SoFa Score

FICHA TÉCNICA
FLUMINENSE 1X2 FLAMENGO

Local: Maracanã
Data: 9 de agosto de 2020
Árbitro: Raphael Claus (SP – Fifa)
VAR: Luiz Flavio de Oliveira (SP – Fifa)
Público e renda: portões fechados
Cartões amarelos: Michel Araújo (FLU) e Gerson (FLA)
Gols: Filipe Luís (FLA), aos sete minutos e Gabigol (FLA), aos 33 minutos do primeiro tempo e Digão (FLU), aos 46 minutos do segundo tempo

FLUMINENSE: Muriel; Calegari, Luccas Claro, Digão e Egídio; Yuri (Yago Felipe, 16’/2T), Dodi e Michel Araújo (Caio Paulista, 40’/2T); Fernando Pacheco (Fred / Intervalo), Nenê (Luis Henrique, 23’2T) e Wellington Silva (Marcos Paulo, 23’2T)
Técnico: Odair Hellmann

FLAMENGO: Gabriel Batista, Isla (Matheuzinho, 37’/2T), Rodrigo Caio, Gustavo Henrique e Filipe Luís; Thiago Maia (Michael, 38’/2T), Diego (Willian Arão, 23’/2T) Arrascaeta (24 /’2T) (Vitinho, 23’/2T), Everton Ribeiro (Ramon, 45’/2T)
Técnico: Domènec Torrent